ENTREVISTA

“Toma-me em teus braços e escandaliza os homens” — entrevista com Maria Azenha

editora Urutau

A 26ª de uma série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau.

por Silvia Penas Estévez


Maria Azenha (Coimbra, 1945)

A poesia é uma forma de ver o mundo?

Tal como o Amor não se diz, mostra-se, também a poesia não se diz:
Mostra-se. Mostra-se através do que fica escrito/dito. Sofre, a meu ver, um atraso. Um atraso entre o que é dito e o que mostra. Mas o que mostra? O que pode mostrar? Mostra o que Vê e também o que não pode ser visto.

Nestas condições a poesia é um relâmpago onde o “eu” pode olhar o “mundo”. Ela é um segredo ditado por “Outro”. E o “mundo” não é dado de uma só vez. Está em construção, aberto ao por fazer…

Quando escreves, pensas em alguma leitora/leitor imaginária/o?
Se vês afectado por aquilo que escreves?

Não. Não imagino nenhum leitor.

É a minha forma de levantar o véu existencial em que o “eu” deseja passar ao “nós” nesta operação “muda”.

Achas que há leitores de poesia ou só os poetas se lêem entre si?

É uma pergunta muito concreta.

Não sei se há leitores de poesia. Não sei se só os poetas se lêem entre si. Começaria por duvidar do termo “poetas”. Não distinguiria entre leitores de poesia e/ou poetas. Diria que todos, em maior ou menor grau, desejam ser “tocados” ou “tocar” o Mistério da Vida.

Há um tempo para o fazer e muitos caminhos.

Que opinas sobre as redes sociais como difusoras de arte, recitais etc.?

As redes sociais, em si mesmas, são tudo menos sociais. São redes de controle de algum poder. No seu mais distorcido sentido, falsificadoras de arte. A Arte pretende escapar ao Poder. Ela é, na sua mais íntima génese, Liberdade. Por isso libertadora.

As redes sociais difundem aquilo a que chamaria o “cospe-cospe”, tal como na Sociedade temos “os dedos mortos e as máscaras” que dissolvem a Originalidade de cada indivíduo.

Todavia com um raro lugar próprio, por vezes dão à Luz verdadeiras grandezas de música/palco.

Conclusão: de um modo genérico desfiguram o que mostram e o excesso insuportável de todos os “quadros”. As redes sociais cantam a Morte de alguém que não conhecemos.

Reconheço-lhes o instantâneo, abolição do tempo e do espaço, como uma mais valia para uma rápida difusão.

O teu poema nasce de súpeto, como algo que golpeia e sai de uma maneira explosiva e rápida ou é um processo mais pausado e longo?

Alguns sim, até com febre.

Outros demoram muito tempo, matéria flutuante, até o poema aflorar.

Bosque branco (no prelo, editora Urutau, 2020)

 

Este livro, Bosque branco, como surgiu?

Surgiu de uma saturação de palavras…
Como se dentro de mim houvesse algo que deveria ser protegido do ruído.

(Imaginemos uma mulher presa a uma cadeira tapando os ouvidos por não suportar mais a cacofonia do mundo…)

É um livro de Silêncio.

Qual é o teu verso favorito do livro ? Poderias explicar o porque ele é o teu verso favorito?

“É chegado o reino das crianças.
Toma-me em teus braços e escandaliza os homens.”

Não explico. Implico-me.

Como conheceste a Editora Urutau?

Conheci a Editora através de uma familiar que vive em Nova Odessa, São Paulo, Brasil, que me colocou em contacto com as pessoas da Editora Urutau.

Achei o projeto da Editora interessante e valioso.

O acompanhamento que a Editora faz é precioso e profissional.

Estou grata a todos/as e em particular ao trabalho de Wladimir Vaz.

Alguma observação que queiras acrescentar?

A Poesia tem uma dimensão de Mistério.

Ler é um chamamento.

É neste chamamento que entro no Real.

 


Maria Azenha

Nasceu em Coimbra.

Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa e na Escola de Ensino Artístico António Arroio.

Escritora. Membro da Associação Portuguesa de Escritores (ape).

Dentre suas inúmeras obras e representações em Antologias, nacionais e estrangeiras, encontram-se alguns dos seguintes títulos:Folha Móvel; Pátria d’água; A lição do vento; O último rei de Portugal; O coração dos relógios; Concerto para o fim do futuro; Poemas de intervenção e manicómio (P.I.M.); Poemas ilustrativos da pintura de Valdemar Ribeiro; Nossa Senhora de Burka; Poemas ilustrativos de “De Camões a Pessoa- Viagem Iniciática”; A chuva nos espelhos; O mar atinge-nos; De amor ardem os bosques; A sombra da romã; Num sapato de Dante; As Mãos no Fogo; A Casa de Ler no Escuro e Xeque-Mate.


Xeque-mate — Maria Azenha

editora Urutau, 2018

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