OS ESPELHOS – I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X, XI, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX

 

Hoje falei com R. ,um ser humano em que as palavras  e o silêncio brilham na noite mais escura.
É a R. que dedico esta voz mais oculta esperando nela a minha conversão.

 

PRIMEIRO ESPELHO

 

Quase a rebentar, as imagens soltavam-se num íntimo silêncio de escuta.
E eu ia percorrendo traumas, que vinham à superfície, deste tempo de confinamento.
A consulta a que fui, de vigilância, deixou-me nua, deitada numa marquesa e com máscara.
– Uma imagem a que nunca tinha assistido de mim própria.-
Senti a humilhação de um corpo observado à lupa.
Apetecia-me chorar, arrancar as lágrimas com pinças. Mas de nada me valeria.
Ninguém as poderia ver, só eu e a máscara.
O médico, delicadamente, ir-se-ia afastando até à sua secretária para um jardim proibido, herdeiro da visão de estrelas  semeadas num corpo.

(…)

 

SEGUNDO ESPELHO
 
Em um outro dia , quando já quase atingia a porta principal do prédio por onde iria  sair
sou tomada de assalto por uma daquelas figuras , quase de ficção,  com uma ferramenta de desinfeção,  virada para o alto , numa das mãos escondidas pelo branco.
Todo ele era espacial.
Tentei entrar em contacto, mas essa figura fechava as perguntas com um “ não posso dizer”.
Senti-me aflita, numa aterragem forçada sem qualquer preparação física ou emocional.
Apenas fiquei a saber que ia para o quinto andar. Senti-me excomungada pelo meu planeta.
Lá fora, as cores amarelas de uma ambulância e de um automóvel com um médico a bordo esperavam o inquilino do quinto andar.
Optei por sair pelas traseiras do prédio  na tentativa de  diminuir esta visão.
Era-me impossível, as imagens buzinavam cá dentro , não paravam. Era uma agonia dolorosa,
como um cão espancado sem ninguém ver.
Para me tranquilizar liguei para o quinto andar. Fui desacolhida por alguém, que na altura não identifiquei, e  que ouvi do lado de lá  com uma voz atirando pedras ao meu coração.
Afinal um AVC  e uma cegueira total, aos 98 anos, é trivial e não merece, no dizer de quem me atendeu, uma   pequena atenção.
Aqui, como uma mendiga,  entendi  todas as palavras afogadas numa  música  impossível .
O arquitecto, dos anos e de profissão, vive agora numa cadeira de rodas, vê a escuridão à beira do abismo.
Um dos filhos compara-o a um condenado que se recusa a dar o salto para o Desconhecido.

(…)

 

TERCEIRO ESPELHO
 
Alguém, num domingo à tarde, toca à campainha.
Espreito pelo olho da terceira visão da porta. Vejo um homem que parece ser o vizinho do lado, mas de máscara que quase lhe tapa os olhos.
Rapidamente abro a porta para o atender.
De repente sem nenhuma fala, os olhos de fogo  e o resto da face vermelha,  eis de facto  o vizinho.
Sinto-me agarrada pelo braço enquanto me entrega as chaves do elevador.
Perplexa, não habituada a estes diálogos presos na garganta, fico estacionada mediante
uma pergunta que atabalhoadamente é proferida.
Dir-lhe-ia, se ele entendesse a sua confusão, que o sol moraria no quinto andar, o mesmo do arquitecto.
Mas limitei-me a apontar com  a mão direita , lenta e cuidadosamente, a direcção exacta do meu estremecimento para o apartamento inferior.
Diria então a R. , que não  o disse: “Levanta-me do chão que sou uma criança  perdida num  jardim de outono.
Percebo o meu medo de estar tudo louco. Ou não.
Mas sei que estou fora da cena. Talvez viva no Coração das moradas do Abandono.

(…)

 

QUARTO ESPELHO
 
penso na madrugada em que ela saiu do paraíso
o corpo florescendo de águas e a chuva abandonando
os muros
alguém que a observasse a uma distância razoável
diria que a sua pequeníssima face
trazida pelas ondas luminosas do escuro
vinha acompanhada do êxtase das algas

havia noites em que a única coisa existente
era a voz do vento numa mão coberta de relâmpagos

recordo
em pedras verdes muito verdes
muito fundas
a forma pura de abandono
um coração misterioso
com sua máscara de fogo

(…)

 

QUINTO ESPELHO

(A queda)
 
Uma mulher vestiu-se de mulher e ficou invisível.
Uma outra caiu dum corpo e despedaçou-se na Terra.
Uma criança descobriu a morte
num pássaro
ferido.

 

QUINTO ESPEJO

(La caída)

 

Una mujer se vistió de mujer y quedó invisible.
Una otra cayó de un cuerpo y se despedazó en la Tierra.
Una niña descubrió la muerte
en un pájaro
herido.

(…)

 

SEXTO ESPELHO

(Espelho incendiado)

 

estamos numa gruta de fogo _______  crisálida d’Ele
onde todos os nomes se apagam

extraordinário silêncio o desta Hora
a encher-nos a boca de ouro

(…)

 

SÉTIMO ESPELHO

 

estrelas afogadas ___ vozes frágeis
atravessam os meus pulsos ___entram no deserto

os pés compondo o sangue no lugar da morte
tanto que fazer ___coração da noite___água
desesperada

(…)

 

OITAVO ESPELHO

 

guardei o teu nome no sudário das estrelas

esta noite, disse-te:

as mães cantam ___ repletas de pedras preciosas
sílabas queimadas ___em um céu de sóis

(…)

 

NONO ESPELHO

( Iniciação )

 

De ti farei um Rei através de um grão de areia.
Colocarei em teu aposento um Vaso de Silêncio.

(…)

 

DÉCIMO ESPELHO

 

A noite, fecha-se.
De si mesma cai.

Procura o jardim amado onde sempre fui.
Onde me perdi, não sei.

(…)

 

DÉCIMO PRIMEIRO ESPELHO

( A obscuridade do Ser )

 

Toda a noite escuto a terrível luminosidade do silêncio.
E é sempre a sombra das perguntas que me faz sentir o desejo de
querer entrar.
A casa, habitada por anjos e  outros seres,
prepara o espaço para me sentir uma criança amada.
Vejo ao meu redor vozes de um âmbar pleno de formas.
O som distribui-se pelas imagens e vai para todos os poros da pele.
O meu corpo é um sigilo que engole a solidão da noite enorme.

A luz derramada sobre os espelhos reflectidos na minha escrita
vem de uma linguagem cifrada, quase perdida.

Estou assente sobre frases que me foram concedidas
e penso na pedra do vento.

Passo a passo,
os meus braços procuram um refúgio no cavalo das nuvens.

Estou mais perto do outono, quase nua,
quero dizer : “queria entrar dentro da luz
para lembrar nenhum nome”
.

(…)

 

DÉCIMO SEGUNDO ESPELHO

 

Queria escrever num espelho perfeito mas estava grávida de sangue.
O seu corpo estava todo manchado. Falava de crianças perdidas
no meio dos bosques.
O menino que trazia ao colo era o vento e a morte.
Vi essa mulher que escrevia com o sangue de Cristo:
o único sangue que existe e não existe.

(…)

 

DÉCIMO TERCEIRO ESPELHO

Mamã

 

a filha que morreu vive em lesbos
não há por onde respirar___o fumo desenha figuras
de bonecas de pálpebras fechadas
por favor vê como as pequenas caveiras estão pintadas

deve ser a floração do outono___à entrada dum templo
com centelhas de fogo em terra vermelha

toda a noite escuto vozes num leito de ouro
toda a noite escrevo numa flor que treme
na tua voz

tenho de fazer alguma coisa

(…)

 

DÉCIMO QUARTO ESPELHO

 

alguém entra___anuncia-se no mar
desnuda-se na água___desconhece o paraíso

um anjo dorme em silêncio no seu ventre
– coisas que parecem impossíveis –

coisas que se perdem por causa
dos seus nomes

(…)

 

DÉCIMO QUINTO ESPELHO

 

debaixo do teu nome
estou eu
não estou eu

resta-me senão servir o belo

(…)

 

DÉCIMO SEXTO ESPELHO

 

À roda da água do teu nome
na mortalha da Noite
as estrelas caem com a forma de uma nascente.

Dos teus ombros tombam sonhos
incrustados de cicatrizes e diamantes.

E no entanto quando o coração estende as suas redes
os rostos tristes, como os rostos dos cegos,
afundam-se num barco
repleto
de
espelhos.

(…)

 

DÉCIMO SÉTIMO ESPELHO

 

esta noite rezarei por Marylin
uma mulher que estendeu a mão a cegos
com a vacina do riso

encontrei no seu coração
um poço de petróleo

regista aí!

Malditos! “,
para uso público.

(…)

 

DÉCIMO OITAVO ESPELHO

 

Quando a minha mãe morreu
eu pensei: “já não morrerá outra vez.”
E afirmei para cada uma das minhas mãos:
“inúmeros são os que estão contigo,
não contando com os meus escritos.”

Então o meu sangue começou a agitar-se
com a experiência de cada letra.
E escrevi mil poemas sem parar,
o que ainda não terminou.

(…)

DÉCIMO NONO ESPELHO

(moradas)

 

há alguém aqui que treme
aqui há alguém sem nome
aqui tudo começa
tudo acontece

o vento tem o nome do deserto

o vento quer salvar o vento
a sua última palavra é o silêncio

pedras negras
pedras negras na casa da noite

(…)

 

VIGÉSIMO ESPELHO

 

com cinco anos aprendeu que estava só
_________ficava com os séculos e um quarto
onde podia arrumar os pés
pensava: o universo é mais perfeito com os mortos
os seus cabelos foram raptos
de Rimbaud

a noite é uma maçã podre que sobra do inferno

(…)

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
inédito

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Quinto espelho” mudado para castelhano por _ Arturo Jiménez Martínez 🇲🇽  Poeta, tradutor e biólogo.