AMOR, SE A PORTA SE ABRISSE NO BOSQUE

Amor, se a porta se abrisse no bosque e entrasse o
poema: o poema translúcido de uma estrela obscura,
derramando a luz da criação numa criança aquática,
numa criança de vento florestal e espuma.
Mas Deus tem medo dos elementos puros,
tem medo do fogo dos seus cinco dedos
que escrevem em cataratas abruptas.
Deus tem medo do sangue das lágrimas,
das suas imagens montadas em equídeos escarlates.
Deus tem medo das fábulas das palavras,
bebendo água gelada nas dunas do deserto.
E senta-se em Silêncio. E não respira no Escuro.
Sufoca por intervalos na garganta dos cometas.
E as galáxias, ao longo da eternidade, vão vertendo ouro puro.
À noite, os seus cabelos azuis procuram-nos,
entoando em cada diamante da luz
uma canção mortífera de lume.

Eu conheço, Amor, a febre de Deus.
E subimos, juntos, os degraus que enlouquecem
os abismos.
E digo: somos uma herança do Absoluto.
Movemos a Criação com a música inocente
de uma criança.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A febre de Deus “