CARTA DOIS

Meu Bem-Amado,

Hoje, não compreendo nada.
Sou alguém que terminou o dia sem ter acontecido a tarde.
Ainda assim, leio o que nunca escrevi, o que me faz um enorme medo…
Entro na Noite com uma mão cheia de escuro.
A lógica tornou-se-me impotente. Insuportável. O meu humor é um delírio.
Queria continuar esta escrita, com a vontade de um ” ontem”…mas não sei fazê-lo.
Toda as palavras seriam apenas uma pequena faúlha …
Meu Bem-Amado, sou tão carente que o único presente que lhe posso ofertar
sou eu.
Porque o Ontem já passou?!
Um dia, se nos chegarmos a ver, entregar-lhe-ei os versos que pousaram no pó das minhas mãos…
Retenho, de cor, este pequeno fragmento:

Levantei-me muito cedo para te chamar.
As abelhas dançam em redor do seu núcleo, e
é quase verão.
Há fendas muito fundas
nos teus olhos.
As minhas mãos fazem sombras
sobre os muros.
E tu não sabes que estou aqui.

 

 

Ternamente,
Sua,
Hanna H.

 

 

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Cartas frente ao mar”