DOIS POEMAS CHILENOS

Quando cheguei a Santiago
o outono fugia pelas alamedas
feito um ladrão
___________Latifúndios com nome de gente, famílias
com nome de empresas
____________________também fugiam
_________com dólares e dolores
_________no coração
_________Quando cheguei a Santiago em Maio
_________em plena revolução

II

Allende, em tua cidade
ouço cantar esta manhã os passarinhos
da primavera que chega.
Mas tu, amigo, já os podes escutar

Em minha porta, os fascistas
pintaram uma cruz de advertência.
E tu, amigo, já não a podes apagar

No horizonte gorjeiam
esta manhã as metralhadoras
da tirania que chega
_________________para nos matar
E tu, amigo,
já nem as podes escutar

 

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▪ Ferreira Gullar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Dentro da noite veloz”, Editions Eulina Carvalho, Paris, 2003

 



 

DEUX POÈMES CHILIENS

 

I

Quand je suis arrivé à Santiago
l’ automme s’ enfuyait par les avenues
tel un voleur
__________Des latifundia portant des noms de personnes,
des familles au nom d’entreprises
___________________________s’enfuyaient aussi
_________avec des dollars et des douleurs
_________au coeur
_________Quand je suis arrive à Santiago en mai
_________en pleine révolution

II

Allende, dans ta ville
j’entends chanter ce mantin les oiseaux
le printemps que arrive.
Mais toi, ami, tu ne peux plus les écouter

Sur ma porte, les fascistes
ont peint une croix en guise d’avertissement.
Et toi, ami, tu ne peux plus I’effacer

À l’horizon gazouillent
ce matin les mitrailleuses
de la tyrannie qui arrive
___________________ pour nous tuer
Et toi, ami,
tu ne peux même plus les écouter

 

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▪ Ferreira Gullar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Dans la nuit véloce”, Editions Eulina Carvalho, Paris, 2003
Tradução – L. Gonçalves et D. Lamaison

AMO-TE, NOITE…

Amo-te, Noite, mais velha que os deuses,
E os teus caminhos, que se enchem de estrelas,
E a tua fronte que as papoulas ornam
_________ Cegas de luz.

Fugindo frágil dos dois filhos teus,
Tal como o vento, enredo-me em teu manto,
E sob a sombra do tombado archote
_________ Não sei nem penso.

Pois sinto em ti, mãe negra, e não nos deuses
Outros diurnos, que a verdade existe,
E que em seu rosto, como o teu velado,
_________ Não morrerei.

 

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▪ Alexei Bueno
( Brasil 🇧🇷 )
in “Desaparições”, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva, Editora Exclamação, Porto, 2017

ANAMNESE

Não procures atravessar o espelho,
Não há nada atrás dele e nada nele,
Não é de vidro e prata a tua pele,
Nem te mira invertido o que há adiante —
É parede, não porta, esse aparelho
Que faz a luz mentir, presa no instante.

Mas no que há atrás de ti, e não se espelha
Ao fundo do teu simulado rosto,
Ali fica o portal, jamais exposto,
Que espera a chave nova e há eras lavrada,
Ali há um que contigo se assemelha,
E que a empunha a te olhar, e não diz nada.

 

21-9-2015
 
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▪ Alexei Bueno
( Brasil 🇧🇷 )
in “Desaparições”, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva, Editora Exclamação, Porto, 2017

 

LAÇO DE SANGUE

tu trazes a peste na língua
o deus velho que pediu ao pai o sacrifício do filho
o mesmo que não diferenciou crianças e demônios em
Sodoma.
tu trazes algemas no sangue
uma ponte vermelha que liga teus músculos ao caos.

já não há tempo para a infância
envelhecemos em algum ocaso distante
agora somos feitos de pó
e qualquer vento nos guia.

tu trazes o corpo infectado
os olhos furados de Édipo
o amanhecer engatinhando em direção ao abismo.
tu trazes a loucura dos deformados de alma
dos que se enraízam no céu por temor à queda.

estamos rasgados pelos desastres
nossas línguas de loucos estão sedimentadas pela areia de
todos os dias.

tu trazes as canções dos anjos libertando o apocalipse
o fiapo de carne arrancada do dente do Cérbero
tu trazes as feridas que não se estancam
as chagas nascidas sem luz
algo sempre morto em ti.

 

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▪ Tiago Fabris Rendelli
( Brasil 🇧🇷 )
in “Terra Seca”, Editora Urutau, Bragança Paulista SP-BR, 2017

SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

 

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▪ Antonio Cicero
( Brasil 🇧🇷 )
in “A cidade e os livros”, Editora Record, Brasil RJ, 2002