LAÇO DE SANGUE

tu trazes a peste na língua
o deus velho que pediu ao pai o sacrifício do filho
o mesmo que não diferenciou crianças e demônios em
Sodoma.
tu trazes algemas no sangue
uma ponte vermelha que liga teus músculos ao caos.

já não há tempo para a infância
envelhecemos em algum ocaso distante
agora somos feitos de pó
e qualquer vento nos guia.

tu trazes o corpo infectado
os olhos furados de Édipo
o amanhecer engatinhando em direção ao abismo.
tu trazes a loucura dos deformados de alma
dos que se enraízam no céu por temor à queda.

estamos rasgados pelos desastres
nossas línguas de loucos estão sedimentadas pela areia de
todos os dias.

tu trazes as canções dos anjos libertando o apocalipse
o fiapo de carne arrancada do dente do Cérbero
tu trazes as feridas que não se estancam
as chagas nascidas sem luz
algo sempre morto em ti.

 

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▪ Tiago Fabris Rendelli
( Brasil 🇧🇷 )
in “Terra Seca”, Editora Urutau, Bragança Paulista SP-BR, 2017

SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

 

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▪ Antonio Cicero
( Brasil 🇧🇷 )
in “A cidade e os livros”, Editora Record, Brasil RJ, 2002

ESCREVER APÓS O HORROR

Escrever após o horror
talvez mantenha um homem vivo —
mas qual o poema das noites brancas
entrevistas pelas cortinas da sala?
Diante da janela, o perfil de uma palmeira
fossilizada, uma criança chora,
descerro a cortina, pressinto o luar
para lá do prédio defronte, no gramado
a relva judiada, a persistência dos grilos,
a sutil, misteriosa incorporação
de tudo a um cristal já trincado.

Tenho a ternura. Mantenho-a.
Sou o mesmo das garapas na praça.
O mesmo que não recusa esmolas.
O mesmo da busca dos gatos da avó
pelos telhados da casa eterna,
pisando com cuidado, sentindo ranger
a telha fria sob os meus pés
no instante em que alguém lá em baixo morre.
O mesmo que temia a porta fechada
no fundo de um corredor catacumba
(o amor alquebrado e eu, Pietà
de um poema desesperado, caminhando por entre
miasmas de cigarros e culpas irremíveis).
O mesmo dos poemas que floresciam
ainda quando não havia um tema,
ainda quando nem sequer existiam poemas.
O mesmo. Mas até quando
ou ainda no esquife serei o de agora?

Carrego a ternura como um vaso de flores
trazido dos lugares da infância
(a terra apodrecida, as raízes malcheirosas).
Digo a ternura com um hálito de palavras mortas,
mas não importa — tenho-a aqui,
sinto-a embotando os meus olhos durante a visão
de uma centena de negros acorrentados;
zune-me aos ouvidos como um festim
de vidas destroçadas — os passos
somam-se aos ecos da tarde,
há prolongados cantos de pássaros
roucos, terrenos, baldios
e casas desabitadas à espera
de um homem e seu método.

Pálido poema das noites brancas
apenas entrevistas por rendas rasgadas:
és tão lívido, faltam-te riquezas.
Até o sol surge como os centavos
esquecidos nos bolsos do casaco puído:
paga-me uma garapa nas tardes de sábado
ou é a esmola que dou a um esfomeado
com ridícula certeza de ser bom.

 

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▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016

 

ISTO NÃO É UM DOCUMENTÁRIO

o modo como vivi me confundiu com o que acontecia
viver era a transformação implacável de eu em nós

desde o início essa distância dentro de nós
um por não saber em que resultava
outro por não entender o que sucedia
um não era apenas personagem tampouco o outro documentarista

a memória fiel dos começos e o sabido atrativo dos fins
não firmaram quem era o mordomo de quem
de quem era a dívida ou a quem se servia

no chiaroscuro dos pronomes, estampado no meio da tela
vê-se agora um corte uma cicatriz
ou inversamente
um rasgo para a plateia

 

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▪ Marcos Siscar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Isto não é um documentário”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2019

 

 

CONDOMÍNIOS FECHADOS

Os condomínios fechados erradicam
as tabacarias diante das janelas
e os horizontes de becos à beira-mar.
Os prédios repetem-se, as sombras
parecem-se: são todas de homens.
Os gestos imitam-se e não há
mistério no mofo que se alastra
pelas paredes — provavelmente
foi um cano que se rompeu
e o zelador está sempre pronto.
O tempo não sangra. O instante
não alcança a crise: cristaliza-se,
multiplica a luz, os dias —
sou o de ontem, desde sempre.
Diante de qual parede esperar
a porta que não irá se abrir?
Se os menos isso fosse claro.
Onde a criança que como chocolates?
Estão todos mortos, alheios, opacos.
São todos o universo a cair
sobre mim com um terror de fábula
infantil: leio sobre nebulosas,
sobre o brilho infindo dos quasares
e que jamais existiu um tempo
antes do tempo e então olho para o corpo
que ao lado dorme e penso
é mentira que exista amplidão maior
do que a do dia poeirento.
A noite continua. Queria
o meu coração fora de mim, apaziguado
como o gato defronte à janela
que dorme junto aos cactos.

 

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▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016