A Divisão de Cristo

Dividamos o mundo em duas partes iguais:
uma para portugueses, outra para espanhóis.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus:
a metade morreu na viagem do oceano.

Dividamos o mundo entre as pátrias.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras:
a metade morreu nos campos de batalha.

Dividamos o mundo entra as máquinas.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das fábricas:
a metade morreu na escuridão, sem ar.

Não dividamos o mundo.
Dividamos Cristo:
todos ressuscitarão iguais.

 
 

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▪ Jorge de Lima
( Brasil 🇧🇷 )

PERDAS E GANHOS

Eu vim aqui e soube imediatamente
que alguma coisa iria acontecer comigo
eu não sei o quê
porque tem dias na vida da gente
que a gente é capaz de perder tudo

perder a carteira
perder os documentos
perder o ônibus para casa
perder a casa
perder a mulher que estava dentro dela
perder o pai
perder a mãe
perder o filho

tem dias em que você é capaz de perder tudo
só que nesses dias você não percebe
que você pode começar a ganhar alguma coisa
porque quando você sempre ganha tudo
você não sabe
você não sabe o que está perdendo

 

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▪ Tavinho Paes
( Brasil 🇧🇷 )

HÁ TANTAS MANEIRAS DE DIZER O DESPERDÍCIO

Há tantas maneiras de dizer o desperdício
de uma noite: aquela em que dormimos
cedo demais, aquela em que dormimos
menos do que deveríamos, aquela em que
ficamos em casa e aquela em que
não mais sabíamos como regressar.
A noite atravessada de palavras, uma
depois da outra, cruéis, estéreis,
a noite rígida dentro do silêncio,
a noite solitária, e aquela em que a presença
humana é uma mácula, a madrugada
rendida ao desespero de uma prece
ou a noite órfã, sem deus, fora do tempo.
As noites de álcool e nicotina, de covardias
perante o tédio, de um torpor pantanoso,
em que não foi possível apagar as luzes,
em que caímos na cama com as roupas sujas,
ou nus e sonâmbulos – noites de ambulâncias,
de gritos, de um eco de garrafa
que se quebra. As primeiras noites
e as últimas, quando adormecemos
com um livro na mão, ou aquelas
em que compreendemos o que antes era
suspeita: ver o que aparece no espelho
quando não há ninguém diante dele
e não saber o que fazer com isso.

 

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▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )

FARMÁCIA

Eu nada sei
do mal de que padeço

e todavia confesso
o que me aflige

Sinto dores fortes
quando vejo o azul

a beleza me fere
espanta e fascina

o passar do tempo
me dá vertigem

e me prende
em suas teias irreversíveis

os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso

e quando vejo seu rosto
meu coração dispara

Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.

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▪ Marco Lucchesi
( Brasil 🇧🇷 )
in “Domínios da Insônia”, Editora Patuá, 2019.

 

DOIS POEMAS CHILENOS

Quando cheguei a Santiago
o outono fugia pelas alamedas
feito um ladrão
___________Latifúndios com nome de gente, famílias
com nome de empresas
____________________também fugiam
_________com dólares e dolores
_________no coração
_________Quando cheguei a Santiago em Maio
_________em plena revolução

II

Allende, em tua cidade
ouço cantar esta manhã os passarinhos
da primavera que chega.
Mas tu, amigo, já os podes escutar

Em minha porta, os fascistas
pintaram uma cruz de advertência.
E tu, amigo, já não a podes apagar

No horizonte gorjeiam
esta manhã as metralhadoras
da tirania que chega
_________________para nos matar
E tu, amigo,
já nem as podes escutar

 

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▪ Ferreira Gullar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Dentro da noite veloz”, Editions Eulina Carvalho, Paris, 2003

 



 

DEUX POÈMES CHILIENS

 

I

Quand je suis arrivé à Santiago
l’ automme s’ enfuyait par les avenues
tel un voleur
__________Des latifundia portant des noms de personnes,
des familles au nom d’entreprises
___________________________s’enfuyaient aussi
_________avec des dollars et des douleurs
_________au coeur
_________Quand je suis arrive à Santiago en mai
_________en pleine révolution

II

Allende, dans ta ville
j’entends chanter ce mantin les oiseaux
le printemps que arrive.
Mais toi, ami, tu ne peux plus les écouter

Sur ma porte, les fascistes
ont peint une croix en guise d’avertissement.
Et toi, ami, tu ne peux plus I’effacer

À l’horizon gazouillent
ce matin les mitrailleuses
de la tyrannie qui arrive
___________________ pour nous tuer
Et toi, ami,
tu ne peux même plus les écouter

 

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▪ Ferreira Gullar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Dans la nuit véloce”, Editions Eulina Carvalho, Paris, 2003
Tradução – L. Gonçalves et D. Lamaison

QUANDO SE TEM UM AMANTE

quando se tem um amante é um inferno.
ele está todo o tempo lá.
ele aparece.
ele desaparece.
ele vai.
ele volta.
ele quer ver a sua amante de vestido vermelho.
ele pensa na sua amante.
ele escreve para a sua amante.
ele envia uma pequena biblioteca diabólica para a sua amante.
ele quer que a sua amante lhe diga uma palavra de amor.
ele quer fazer amor com a sua amante.
ele quer morder o pescoço da sua amante como se fosse um vampiro.
ele quer ver a sua amante sorrir.
ele quer escutar a sua amante.
ele vai dormir esperando que a sua amante pense nele.
ele vai dormir esperando as palavras da sua amante pela manhã
(quando ele desperta).
ele escreve sobre diabos que se vestem de branco.
ele promove uma tempestade no meio das pernas da sua amante.
(pode ser que a qualquer momento ele morda o pescoço da sua amante).
ele diz para a sua amante
que para o diabo o pior dos infernos é o melhor dos infernos.
ele diz que o melhor dos infernos é aquele de onde não se volta.
ele diz para sua amante que não tem medo do irreversível.
ele quer que a sua amante não tenha medo do irreversível.
a sua amante não tem medo do irreversível.

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▪ Ana C. Joaquim
( Brasil 🇧🇷 )