Poema | Maria Azenha
Voz e Música | IA
A TRISTEZA DA TERRA
Um dia.
Um dia haverá sobre a Terra uma sociedade do elogio da amizade. Até lá. Até lá as tristezas da Terra. A melancolia de nos estar vedado o conhecimento absoluto.
O não termos ao nosso alcance a distinção absoluta entre o bem e a malícia.
E, no entanto, todas as químicas se entretêm em nós a conspirar para alcançar a verdade. A verdade exclusiva de todas as verdades.
A nossa, a única, a que deve e só pode ser aplicada a … a todas as outras.
Do século XX aprendemos nada para o século XXI.
O século XX e o século da descoberta dos limites da ciência como arma de descoberta das certezas absolutas.
Começou o século com o limite da velocidade de propagação de seja o que for no universo.
Expandiu -se na dependência da medida de uma grandeza relativamente ao observador. Quantificou-se no princípio de incerteza de Heisenberg. Provou-se na impossibilidade de medir com absoluto rigor.
Libertou-se no teorema de Gödel. Impôs limites à lógica e à racionalidade como aríetes da busca humana da verdade absoluta.
Revelou-se nas limitações que traz o simples contar.
O simples lidar com a aritmética dos números mostrou-nos a precariedade das nossas previsões.
Mas nada destas descobertas quebrou a química do egoísmo.
Nada fez diminuir a física da agressividade. Nada.
O conhecimento envenenado da soberba humana evoluiu de técnica em técnica. Conseguiu, de cada vez, transformar mais eficazmente momento,
velocidade, em choque.
Choque que emprega em destruição. Choque cada vez mais devastador:
Aprendemos nada no século XX.
Sabemos de todos os nossos limites. Mas não resistimos a utilizar a malícia suprema. O mal que advém quando nos arrogamos do conhecimento absoluto do bem e do mal. E o utilizamos para mutilar pessoas e sociedades. E o empregamos na defesa egoísta do absoluto.
Tivéramos aprendido algo no século XX com as descobertas dos limites e das limitações ao nosso conhecimento da verdade e talvez tivéssemos tido a oportunidade de ter inventado a paz no século XXI.
No início do milénio falhámos. Neste princípio, a história é de conflito imposto pelo absoluto. Neste começo temos que voltar a ser um recomeço. Um reinício para erigir de novo a sociedade do elogio da amizade. Só falta aprender e pôr em prática os limites que a ciência do século XX descobriu e depois “Aproveita a palavra que te veio; Reza; Tudo isto vai passar”.
In ” CONVOQUEM A ALMA ”
Fernado Carvalho Rodrigues
https://www.rtp.pt/play/p14571/e835680/primeira-pessoa
É um caso sério de múltiplos talentos. Físico, foi o pai do primeiro satélite português, é comunicador de excelência e um humanista profundo.
Toca diferentes áreas da vida, revolucionou a indústria da ótica na Europa, foi diretor de ciência da NATO, é cientista e professor. Hoje vive no interior do País, em harmonia com a natureza.
Fernando Carvalho Rodrigues é o protagonista deste Primeira Pessoa
AQUI E ACOLÁ ACONTECE
Aqui e acolá acontece,
ouve-se um grito de socorro.
Imediatamente alguém se atira à água,
tudo completamente gratuito.
Em pleno desenfreado capitalismo
os cintilantes bombeiros aí estão ao dobrar
da esquina e apagam, ou no chapéu do pedinte
há de súbito uma prata a brilhar.
De manhã as ruas estão cheias
de pessoas que andam de um lado para o outro,
serenas, sem facas na mão.
apenas à compra de leite e rabanetes.
Como em plena paz.
Dá gosto ver.
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▪ Hans Magnus Enzensberger
( Alemanha 🇩🇪 )
(Mudado para Português por Alberto Pimenta)
A CARA DE UM CANDIDATO POLÍTICO NUM CARTAZ DE RUA
A CARA DE UM CANDIDATO POLÍTICO NUM CARTAZ DE RUA.
lá está ele:
poucas ressacas
poucas discussões com mulheres
poucos pneus furados
nunca pensou em suicídio
não mais de três dores de dentes
nunca falhou uma refeição
nunca esteve na cadeia
nunca se apaixonou
7 pares de sapatos
um filho na faculdade
um carro com um ano
apólices de seguros
uma relva muito verde
caixotes do lixo bem fechados
será eleito
–
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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
(1920-1994)
In “Os cães ladram facas”
(Antologia Poética)
prémio-literário-glória-de-sant’anna-2026 / Celebração
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AS TOPOGRAFIAS DA FLUIDEZ NA POÉTICA DE MARIA AZENHA
PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT’ANNA – 2026
“As topografias da fluidez na poética de Maria Azenha”, de Vincenzo Paglione
VOLTAR PARA CASA
Voltar para casa,
dançar através dos passeios
atravessar um verso a cavalo
olhar para Deus deitado na rua.
É essa a arte que herdámos dos Anjos?
O Amor nunca perdoaria
derramar o sol pelo chão.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
*
VOLVER A CASA
Volver a casa,
bailar por los paseos,
cruzar un verso al trote,
mirar a Dios tumbado en una calle.
Es el arte heredado de los áangeles?
Nunca el Amor perdonaría
que se volcara el sol en un baldío.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Mudado para castelhano por_ José Ángel Cilleruelo ( 🇪🇸 )
ORAÇÃO
Para os meus dias peço,
Senhor dos naufrágios,
não água para a sede, mas a sede,
não sonhos
mas o desejo de sonhar.
Para as noites,
toda a escuridão que seja necessária
para afogar a minha própria escuridão.
_
▪ Piedad Bonnett
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por_ Jorge de Sousa Braga
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