TÃO ARDUAMENTE A ESCURIDÃO

Não sei se me interessei pelo mendigo
Se foi ele que se interessou por mim
O pensamento levanta uma cortina de fumo
num dia absoluto enclausurado pela luz
Nunca chegarei a saber
quantas estrelas brilham agora pelo mundo
O rapaz de ontem é o mesmo de hoje
As palavras que lhe dirijo
devem ter nascido de um caixote de ruídos
de um outono remexido

O meu Amado passa o dia a torturar-me com um espelho
em que ficamos nus deitados lado a lado

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O guardador de segredos”

PRISIONEIROS

Os prisioneiros
culpados ou não
têm sempre o mesmo ar quando são libertados:
patriarcas destronados.

Aquele acabou de atravessar o portão
de cabeça pendida apesar de não ser alto
gestos iguais aos de um beduíno
ao entrar na tenda
que acartou às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a lima queimada
fazem-no recuar ao momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia penduraram o seu lençol no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
após a morte de núpcias.

Rostos deslustrados pelo sol
Rodeiam-no, só olhos e ouvidos:
«Com que é que sonhaste ontem à noite?»
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminho
sacralizado pelos seus trechos em falta.

A irmã ainda está a descobrir os seus hábitos estranhos:
os nacos de pão escondidos em bolsos e debaixo da cama
o rachar incessante da lenha para o inverno.

Porquê este medo?
Que poderá ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
Mas ser-se incapaz de escolher.

 

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▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
in “Lacrau” – Traduções e Versões de Poesia, Língua Morta, Lisboa, 2021

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Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹  Tradutor e Poeta 

 

DIANTE DA MORTE

Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

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▪ Rui Caeiro
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobre a nossa morte bem muito obrigado, Edição Alambique, 2014