░ O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman

O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman,
Dickinson, Frost. Bem-vindos vós cuja fama nunca passará da
família mais chegada, e talvez um ou dois amigos intímos reuni-
dos depois do jantar à volta de um jarrão de rude vinho tinto…
enquanto as crianças adormecem e se queixam do barulho que
fazes ao vasculhar os armários à procura dos teus poemas antigos,
com medo que a tua mulher os tenha deitado fora na limpeza da
última primavera.
Neva, diz alguém que espreitou a noite escura e que, depois, tam-
bém se volta para ti quando te preparas para ler, de uma forma
algo teatral e uma face que cora, o longo e tortuoso poema de
amor cuja estrofe final (que não sabes) falta sem remissão.

 

__
▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
in “Previsão de tempo para utopia e arredores”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Tradução – José Alberto Oliveira

Com esta boca, neste mundo

Não voltarei a pronunciar-te, verbo sagrado,
embora tinja as gengivas de azul,
embora traga debaixo da língua uma pepita de ouro,
embora derrame sobre o coração um caldeiro de estrelas
e flua pela minha testa a corrente sagrada dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para o outro lado da noite da alma,
que nenhuma lâmpada consegue alcançar,
onde não há sombra que guie o meu voo à entrada,
nem memória que venha de outro céu para encarnar nesta dura neve
em que só o atrito dos ramos e o queixume do vento se inscrevem.

E nem um só tremor que sobressalte as mudas pedras.
Falámos demasiado do silêncio,
condecorámo-lo como a uma sentinela no arco final,
como se nele jazesse o esplendor depois da queda,
o triunfo da palavra com a língua cortada.

Ah, não se trata da canção, nem do soluço!
Já disse do que amei e do que perdi,
sustive com cada sílaba os bens que mais receei perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a melodia tenaz,
ecoam, propagam-se como o trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à escuridão.
O nosso longo combate foi também um combate até à morte com a morte, poesia.

Ganhámos. Perdemos,
porque – como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo apenas com esta boca neste mundo com esta boca só?

 

_
▪ Olga Orozco
( Argentina 🇦🇷 )
in “Con esta boca, en este mundo”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1979

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ Con esta boca, en este mundo

 

No te pronunciaré jamás, verbo sagrado,
aunque me tiña las encías de color azul,
aunque ponga debajo de mi lengua una pepita de oro,
aunque derrame sobre mi corazón un caldero de estrellas
y pase por mi frente la corriente secreta de los grandes ríos.

Tal vez hayas huido hacia el costado de la noche del alma,
ese al que no es posible llegar desde ninguna lámpara,
y no hay sombra que guíe mi vuelo en el umbral,
ni memoria que venga de otro cielo para encarnar en esta dura nieve
donde sólo se inscribe el roce de la rama y el quejido del viento.

Y ni un solo temblor que haga sobresaltar las mudas piedras.
Hemos hablado demasiado del silencio,
lo hemos condecorado lo mismo que a un vigía en el arco final,
como si en él yaciera el esplendor después de la caída,
el triunfo del vocablo con la lengua cortada.

¡Ah, no se trata de la canción, tampoco del sollozo!
He dicho ya lo amado y lo perdido,
trabé con cada sílaba los bienes que más temí perder.
A lo largo del corredor suena, resuena la tenaz melodía,
retumban, se propagan como el trueno
unas pocas monedas caídas de visiones o arrebatadas a la oscuridad.
Nuestro largo combate fue también un combate a muerte con la muerte, poesía.

Hemos ganado. Hemos perdido,
porque ¿cómo nombrar con esa boca,
cómo nombrar en este mundo con esta sola boca en este mundo con esta sola boca?

 

_
▪ Olga Orozco
( Argentina 🇦🇷 )
de “Con esta boca, en este mundo”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1979

 

░ Quero apenas uma canção

Estou cansado de chamar
à porta dos que amo,
meu caminho se cobre de violetas
e sombras perdidas do meu canto.

Partiu a estação da açucena
pela morte que foi bela fábula;
agora ninguém me conhece
todos se distanciam de minha alma.

Não sei que caminho seguir
nem a quem dizer que me ame,
meus olhos miram a floresta
e estou cansado e é tarde.

Quero apenas uma canção
que me traga tuas mãos de fada
uma canção para a vida
sob esta chama de ciprestes tão branca.

Quero viver ou morrer,  a mim
o mesmo deve ser a morte que a vida.
¿Quiseras me dizer a canção
da esperança ou da ruína?

Somente peço a ti uma palavra
e algo do céu da tua música:
aguardarei na sombra do meu outono
coberto pelas flores e pela lua;

Estou cansado de chamar
mas ninguém me abre as portas;
acorde em mim da noite
açucenas de um vale perdido.

 

_
▪ Giovanni Quessep
(Colômbia 🇨🇴)
in “Quiero apenas una canción” Antologia , Universidad Externado de Colombia, Decanatura Cultural, Bogotá – Colombia, 2010

*

Mudado para português por _ Gustavo Petter _ Poeta, Tradutor, Professor / Araçatuba SP, Brasil.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Quiero apenas una canción

 

Estoy cansado de llamar
a la puerta de los que amo,
mi camino se cubre de violetas
y de sombras perdidas de mi canto.

Se ha ido la estación de la azucena
por la muerte que fue una bella fábula;
ahora nadie me conoce,
todos se alejan de mi alma.

No sé qué camino seguir
ni a quién decirle que me ame,
mis ojos miran la floresta
y estoy cansado y se hace tarde.

Quiero apenas una canción
que me traiga tus manos de hada
una canción para la vida
bajo esta llama de ciprés tan blanca.

Quiero vivir o morir, lo mismo
me debe ser la muerte que la vida.
¿Quisieras tú decirme la canción
de la esperanza o la desdicha?

Sólo te pido una palabra
y algo del cielo de tu música:
Aguardaré a la sombra de mi otoño
cubierto por las flores y la luna;

Estoy cansado de llamar
pero nadie me abre sus puertas;
acuérdate de mí en la noche
azucena de un valle que perdiera.

 

_
▪ Giovanni Quessep
(Colombia 🇨🇴)
in “Quiero apenas una canción – Antologia”, Universidad Externado de Colombia, Decanatura Cultural, Bogotá – Colombia, 2010