FILMAGENS

 

Take 1

Se alguém perguntar o meu nome, tenho de dizer
Pergunte a Deus. Ele é director de cinema
Anda sempre com uma Câmara filmando
O meu pai e a minha mãe.
Ele já filmou as minhas bonecas
Gritando por socorro.

Take 2

Uma boneca ficou pendurada no ar
presa a um guindaste que era um braço
da minha mãe.

Take 3

Eu estava sentada no chão.
E comecei a rir-me.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Guardador de Segredos”

ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que ainda não são a treva.
Buenos Aires,
que dantes se espraiava em arrabaldes
rumo à planície sem fim,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as confusas ruas do bairro Once
e as vacilantes casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Houve sempre na minha vida demasiadas coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo foi o meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e é parecida com a eternidade.
Os meus amigos não têm rosto,
as mulheres são o que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isto deveria amedrontar-me,
mas é uma doçura e um regresso.
Das gerações de textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que ainda hoje leio na memória,
lendo-os e transformando-os.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
ao meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
devaneios e sonhos,
cada ínfimo instante de outrora
e dos outroras do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os actos dos mortos,
o partilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego ao meu centro,
à minha álgebra e à minha chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou.

_
▪Jorge Luíz Borges
( Argentina 🇦🇷 )

TRICÍDIO

Matei meu pai e minha mãe com um garfinho
– com um garfinho – porque os confundi com dois
pássaros nas árvores do caminho. Matei os meus pais
com a pinça de catar cubos de açúcar do meu avô:
não disse uma só palavra o adorado ídolo a quem eu,
todas as manhãs, saúdo tirando o chapéu. O gato da
minha vizinha tomou-me sob a sua protecção. Veio
sentar-se a meu lado, vigiando-me constantemente – a
sua crina, de pele de coelho bestialmente escovada por
detrás e os seus olhos em forma de ovos de cegonha.

Agora estou só agora e mortalmente triste:

todo o trabalho abandonado: choro – apoiada no
caixãozinho onde dormem lado a lado.

o meu pai e a minha mãe que eu matei com um garfinho
no maldito dia dos meus dezasseis anos.

 

Marianne Van Hirtum
Bélgica (1935-1988)
Tradução de Regina Guimarães

¿A QUÉ NECESITO EL AIRE SI NO MUERO?

¿A qué necesito el aire si no muero?
Pero sí la vista para discernir entre el gesto
y la ternura de los dioses –y la elegancia
en el portar su hábito plegado- Necesitaré
ironía para las reconvenciones y un cierto
rubor ante su sabiduría. Querré, además,
guardar memoria de todo ello por lo que
pudiera pasar. Me pondré, para el caso,
mi mejor discreción y el ánimo a punto
con la imaginación desnuda.

Respirando aquí, en la orilla, es
gozoso pensar: ‘lo que será (si acaso)

 
_
▪ Ricardo Martínez-Conde
(España 🇪🇸 )
in “El pétalo”