PRECE NO MEDITERRÂNEO

Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com o coração de ver,
vozes que nos aceitem.

E tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão, cega
durante a travessia

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar

que é também nosso

 

_
▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ágora”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2020

O PRISIONEIRO DO TEMPO

Começou porque me limitavam os anos,
doze anos, quinze anos, vinte anos…
Eram limites, eram fronteiras suportáveis:
o ano que vem, quando cumprir trinta anos,
o ano passado, o ano novo…
Eram limites amplos,
era possível a distância, o horizonte,
por muitos anos! Os espaços
dominavam o tempo
recebias a aurora, despedias a tarde
amplamente e amavas
docemente os sonhos.
Os anos eram os carcereiros
mas rondavam muito distanciados.
Havia quem vivesse cem anos!
Mais tarde, começaram os meses a limitar-me,
apareciam subitamente, tudo era muito distinto,
o tempo dominava os espaços,
era um limite mais pesado,
estavam mais próximos os carcereiros,
eram carcereiros!:
o mês que vem, dentro de uns meses,
oprimiam-me os meus próprios limites,
originava limites!
Que terá sido daquelas agradáveis distâncias,
há tempo pela frente, dizia,
quando me limitavam os anos.
Agora olhava com receio todas as coisas,
nove meses, três meses, um mês de prazo,
meses, meses voando sobre os sonhos.
E as semanas?
Deixaram os meses de cingir-me
e um novo limite controlava-me, uma nova medida
estendida por todo o mundo,
cobrindo de miragens todas as suas galerias.
Contava a vida por semanas,
semana atrás de semana.
Os carcereiros eram os oficiais de semana,
distraíam-me, envolviam-me nas verdades falsas,
a próxima semana, dura muito pouco uma semana,
a semana santa,
o meu mundo era a semana, a realidade era a semana,
a semana, só existia a semana.
Que era um mês senão quatro semanas
e que era um ano senão cinquenta e duas semanas…
E contava as semanas
e via a humanidade ansiosa
forçada à semana, vivendo para o fim de semana, vivos, livres
só o fim de semana.
Depois foram os dias,
comecei a contar os dias
sobressaltaram-me os dias,
era questão de dias,
pesavam enormemente os dias
e desejava por sua vez que passassem os dias
e que não passavam…
Aferrava-me aos dias, bons dias!,
o dia estava ali, era um carcereiro inamovível, omnipresente,
tudo mediam em dias.
Não era livre! Não podia ser livre!
O dia da minha boda, o dia da minha licenciatura em filosofia,
apenas um vazio para a minha aventura,
apenas ficava espaço e eu necessito de espaço, muito espaço,
não podia sair dos dias,
um dia e outro dia,
o dia das forças armadas, amanhã será outro dia,
outro dia!
Crescia a muralha dos dias,
o circo dos dias, um dia comia o outro dia,
os limites eram insustentáveis,
dias de jejum, dias de alegria,
mas tudo medido, era preciso obedecer ao dia,
despertar ao despertar o dia,
dormir ao dormir o dia,
a ordem do dia!
um dia é um dia, nos próximos dias…
agora, enquanto escrevo este poema,
já não conto os dias senão as horas,
faltam três horas, dura quatro horas,
que horas são, a que horas…
Os carcereiros converteram-se na minha sombra,
apenas falo, as horas confundem-se e confundem-me,
limites, limites, a tarde, a manhã, o meio-dia,
uma hora cai sobre outra hora, vence a outra,
uma hora é como outra hora,
hora adiantada, horas extraordinárias,
faz horas extraordinárias!,
a dança das horas, horas perdidas, o recorde da hora,
não somos seres, somos horas, corda de horas,
uma cada duas horas, quase seis horas,
e sonham as horas e já só podes ouvir as horas,
e tudo há-de mover-se num horário,
tudo há-de estar à hora,
tudo tem a sua hora,
quantas das minhas horas são horas minhas,
meia-hora, um quarto de hora, a hora!
Destrói-me pensar que nasci para as horas,
abro as mãos e tenho-as cheias de horas.
Ah, carcereiros, horas terríveis que nublais os meus olhos!:
dentro, levo-vos dentro, estou cheio de carcereiros, de sombras.

Não quero nem pensar como será a minha vida
quando ela depender dos minutos, quando
forem eles os meus carcereiros e não existam
os espaços, os sonhos, as dúvidas,
quando o meu corpo for uma garagem de minutos,
minutos, minutos, não tenho nem um minuto, só cinco minutos,
tudo sucederá em minutos, que fará de mim a fúria dos minutos,
quando não puder perder nem um minuto,
que humilhação me aguarda quando na minha vida
só se movam as agulhas dos minutos
que espaço pode haver entre minuto e minuto.
Que escura noite havia em vós, meses, anos,
e que traição os vossos espaços!
Éreis minutos, minutos, só minutos!
Que o mundo se afunde será questão de minutos!
Finalmente, finalmente, ah, finalmente,
quando apenas um sopro alente os meus sentidos
e só existam os segundos, sejam os segundos
os que cingem o meu corpo, a minha vida,
todo o meu ser um carcereiro monstruoso, uma áspide, uma víbora
destruindo os últimos reflexos,
todo o mundo um carcereiro horrível,
e quando todos forem fantasmas e as ideias se converterem em nuvens
e os sentidos em cavernas
e nos últimos segundos
passem os anos, os meses, os dias e as horas
convertidas em ar
e se encerrem os meus olhos e o rosto sem vida
riam como nunca por todos os abismos do mundo,
como desejarei continuar prisioneiro do tempo
como amarei o tempo – eu era tempo, doloríssimo tempo! -,
como amarei os limites – somente eles não estavam mortos -,
os anos e os meses,
os dias e as horas e os minutos,
todos os limites do mundo.
Como me arrancará a eternidade do tempo!

 

_
▪ Jesús Lizano
(Espanha 🇪🇸 )
in “O Engenhoso Libertário – Breve Antologia Poética de Jesús Lizano“, com organização, tradução e prefácio de Carlos d’Abreu, Douda Correria, Lisboa, 2015
 

CONTRA A POESIA DE AMOR

Casamos no verão, trinta anos atrás. Desde esse dia que te amo
profundamente. Amei outras coisas também.
Entre elas, a ideia da liberdade das mulheres. Por que coloco estas
palavras lado a lado? Porque o casamento não é
liberdade. Porque cada palavra que escrevo é contra a poesia de amor.
A poesia de amor não pode fazer justiça a isto. Esta é a recordação de uma
história dentro de outra história distante: um grande rei perdeu uma guerra e os seus inimigos
obrigaram-no a desfilar acorrentado pela cidade. Provocaram-no. Trouxeram
a mulher e os filhos – e ele não demonstrou qualquer emoção. Trouxeram
os seus cortesãos – e ele não demonstrou qualquer emoção. Trouxeram
o criado mais velho – só então ele se descaiu e chorou. Não encontrei
a minha feminilidade nas servidões do costume. Mas vi a minha
humanidade ali a olhar para mim. É para assinalar as contradições diárias
do amor que escrevi isto. Contra a poesia de amor.

 

_
▪ Eavan Boland
( Irlanda 🇨🇮 )
in “Against Love Poetry”, W. W. Norton & Company, New York , 2001

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

AGAINST LOVE POETRY

 

We were married in summer, thirty years ago. I have loved you
deeply from that moment to this. I have loved other things as well.
Among them the idea of women’s freedom. Why do I put these
words side by side? Because I am a woman. Because marriage is not
freedom. Therefore, every word here is written against love poetry.
Love poetry can do no justice to this. Here, instead, is a remembered
story from a faraway history: A great king lost a war and was paraded
in chains through the city of his enemy. They taunted him. They
brought his wife and children to him—he showed no emotion. They
brought his former courtiers—he showed no emotion. They brought
his old servant—only then did he break down and weep. I did not
find my womanhood in the servitudes of custom. But I saw my
humanity look back at me there. It is to mark the contradictions of
a daily love that I have written this. Against love poetry.

 

_
▪ Eavan Boland
(Ireland 🇨🇮 )
From “Against Love Poetry”, W. W. Norton & Company, New York , 2001

 

E no entanto o dia é fundo

O horizonte abre-se na cal que maio lava
e no entanto o dia é fundo
de armários, invernos e cheiros
a madeira encerada.
No côncavo de maio existem
antigos sons de respiração,
crianças perdidas no escuro
procurando saídas que não encontram.
Lembro-me –
eu brincava no vão da escada
e vieram dizer (seria maio
ou julho talvez) a mãe morreu.

 

_
▪ Soledade Santos
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sob os teus pés a terra”, Editora Artefacto, Lisboa, 2010

COISINHAS PRECIOSAS PARA METER NO CU

o menino reuniu as suas bonecas e
ralhou com elas. portaram-se mal quando
lhes pediu que fizessem silêncio na
hora de pôr a mesa. a cristiana e a barbie na neve
querem sempre ficar ao seu lado. mas
não pode ser. o menino ouve as
bonecas chorarem noite inteira. ouve-as
com uma angústia constante
crescendo pelo seu próprio peito. cuidadoso,
antes de adormecer, deita-lhes um pequeno
candeeiro aceso sobre os olhos de vidro e
recomenda-lhes todo o amor do mundo. o amor,
explica, é ser uno com o que está apartado

penteou uma a uma pacientemente. as suas
bonecas terão um domingo especial, agora que
lhes comprou um sofá vermelho, pequeno, à
medida dos seus corpinhos perfeitos. não há lugar
para todas, por isso, sabe que vai ter de as substituir
de meia em meia hora. estabelece as regras
pormenorizadamente. anuncia, a partir de hoje
a nossa casa está mais bonita, e esta beleza
deve contribuir para os nossos corações. quero que
os nossos corações se ponham de
festa, quero que exista senão alegria

o menino observou o sofá vermelho intenso, apreciou
como era incrível ali estendido o vestido da
elizabete, feito de tule muito branco
com um corpete de veludo dourado

o pai bate-lhe ao fim da tarde. chega a
casa cansado e não diz nada. e, sem dizer nada,
arranca-o do quarto de brincar e obriga-o a
ficar na cama. pela janela, vê o fim
da tarde a entristecer as casas, e fica à espera da mãe
como se pudesse o sol chegar de novo àquela hora.
e a mãe chega, fecha-se na sala a discutir com o
pai. o menino tira de sob a almofada o ken. gosta do
ken. tem quatro diferentes. o polícia é o seu
preferido. sonha sempre que, um dia, virá prender o
pai levando-o para longe para espancá-lo sem
piedade. um pouco depois, a mãe estende os seus
raios por toda a parte. de tão brilhante, o menino
fecha os olhos ofuscados e abraça-se a ela a ver
só por dentro

o joaquim não gosta do ken. o menino disse que
lho deixava para assumir a barbie na
neve. mas ele nem assim aceitou. o menino
não o obrigaria a ser a barbie. e não se importa
nada de fazer esse papel. mas o joaquim
não quis mesmo. passou com o seu tractor em cima do
boneco e foi-se embora. o menino
ficou zangado. mas os melhores amigos, diz a mãe,
também se zangam. por isso, ficou à espera que
ele viesse falar consigo. eu posso
brincar com a bicicleta, dizia, podemos ir lá baixo
até ao mosteiro a ver as campas antigas de pedra. depois,
pensava, talvez ele aceite ser o ken. o ken polícia,
que deixou no sofá vermelho para que se
anime, porque não se passa assim com um
tractor por cima da autoridade. o papá
deixa-te ficar no sofá a tarde inteira. tirou a
elizabete e pô-lo ali sentado, subitamente mais feliz

o pai afastou a mãe da frente e
voltou a puxá-lo. sempre que o faz
marca-lhe os braços com as mãos
apertadas sobre pele como aguilhões. o menino
estendeu-lhe o ken e disse entre dentes, estás preso e
és um filho da puta. mas ele não parou de
lhe bater, por mais que repetisse a ordem de
prisão, por mais que visse o ken fardado,
tão furiosos os dois

a mãe ficou a ver-lhe o rabo inchar à força do
sapato. o pai pensava que
as bonecas da mariana não podiam ser de
outra pessoa. a mãe sentou-se, depois, no sofá e
tomou o menino ao colo. então, o menino chorou e
espremeu contra o peito o homem aranha que
lhe fez uma teia de protecção

outro dia, o pai pegou fogo ao quarto de brincar.
não avisou. disse, no fim, vai ver o que sobrou das tuas
coisinhas de meter no cu. o menino não foi ver. morreu.
tombou no chão e morreu

no dia seguinte, ele era outra pessoa. viu tudo e
todos com novos nomes e deixou de brincar com
bonecas. compreendeu a diferença entre
as pessoas e os brinquedos mudos. procurou o
joaquim, sorriu como nunca, e foi com ele ver as
campas de pedra antigas
com o prazer inaudito de, certo modo, também já estar
sepultado

 

_
▪ Valter Hugo Mãe
( Portugal 🇵🇹 )
in “Folclore íntimo”, Edições Cosmorama, Porto, 2008