Que felizes devem ser os anfíbios!

Como todos sabem no princípio era o Verbo
não havia mais nada e era preciso que alguém
abrisse a boca e começasse a palrar sem tossir
surgiram então os papagaios e as cigarras e as vespas
e uma peculiar janela de abrir e fechar portas
com uma suástica no buraco dos bilros

só mais tarde nasceram os eucaliptos e as comunicações
e os especialistas de incêndios
e os tanques de lavar a roupa depois do padre antónio vieira
ter pregado aos peixinhos

Estes continuavam de boca aberta por causa da água que faltava
e do calor que fazia mas enfim acabaram por chegar todos
a Belém em movimentos rápidos

Lá estava o velho Sol a recebê-los na pedra branca da história
com medalhas aos ombros num murmúrio de ventos que não sossegavam
um deles soprou em posição respeitosa fazendo várias vénias e genuflexões
misturadas com posições de yoga e disse:
“parece ser conveniente que todos possam ver
as tábuas da lei não fosse no passado a tábua eletrónica do Magalhães ter sido inventada por um homem de banda desenhada.“
E começaram a soprar ciclones em  memória dos Bancos
— notava-se a ausência de alguns pardais —
Para outros que vieram à paisana
o vento-secretário entrou de rompante
e fazia aparecer e desaparecer helicópteros
como comboios ciclópicos para percorrer a europa num instante

Pela noite fora uma mesa posta com iguarias
com palavras em código como por exemplo salgado __ comendador __  tancos e outros
Os convivas em discussões
discursavam em redes sociais como no twitter
e tudo parecia uma ordem sem oscilações

mas por causa dos sermões do padre antónio vieira
—  hoje com outros nomes —

começaram a compreender como é possível fazer desaparecer e aparecer instrumentos de alta refinaria

ou outros artigos de primeira necessidade como por exemplo algum grão de bico
para combate

ainda me lembro das peras do vestido de uma senhora extraordinária
— capaz de beijar todos os eucaliptos —
a distribuir papéis
para castigo
em circos democráticos

A única arrelia é que já não me lembro do dia 6 passado
que bem podia chamar-se o luna-parque dos abraços
ou dos vencedores e dos vencidos
– todos eles cabeças-de-vento –
Foi de arromba o dia
sem querer ofender a minha Mãe ou o tio Xico da mercearia
que achou muita graça ao dia seis depois do cinco

Como todos sabem no princípio era o V
e era preciso que alguém abrisse a boca e começasse a soprar e a falar
Quando cheguei a casa depois de três dias no campo
depois de ter apanhado um susto por causa de uma minhoca fria
(já me tinha esquecido __ num muro)
percebi que há todo o ano um mau turismo

“Que felizes devem ser os anfíbios!”

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Livro do absurdo”

O grafómano andante

O rio é o autor de um incansável
arquivo em páginas de água.
Anota o olhar das árvores
ribeirinhas. Examina
a ortografia na correspondência
que chega aos pilares
da ponte. Alegra-se
com a intensidade carinhosa
dos amantes entre juncos
escondidos.

Os amantes também
querem que o rio se demore
nas suas carícias
e lhes dedique muitas linhas.
Alguns substantivos, verbo, um único
adjetivo e interjeições várias.
Com isto se contentam. Embora saibam que o texto
depressa chegará ao oceano,
biblioteca de escribas
fluviais, onde todas as histórias
de amor se confundem.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EL GRAFÓMANO CAMINANTE

 

El río es el autor de un incansable
dietario en páginas de agua.
Anota las miradas de los árboles
de ribera. Examina
la ortografía en la correspondencia
que llega a los sillares
del puente. Se complace
con la intensidad afectuosa
de los amantes entre juncos
ocultos.

Los amantes también
quieren que el río se detenga
en sus caricias
y les dedique muchas líneas.
Algunos sustantivos, verbo, un único
adjetivo e interjecciones varias.
Con eso se contentan. Aunque sepan que el texto
llega pronto al océano,
biblioteca de escribas
fluviales, donde todas las historias
de amor acaban confundidas.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

 

 

atrás do atrás

pode levar muito tempo
até que o escondido de suas pálpebras
deixe de ser gelo para habitar uma nova casa
atrás do atrás estão os verdadeiros motivos
que fizeram você se despir
e aceitar meu convite para tomarmos um banho
atrás de nós apenas o tempo passa
as floriculturas _ inclusive _ fecham as suas portas
porque não recebem clientes após as 22 horas
a moça diz _ sinto muito estamos fechados
o que não importa
porque não queremos nos presentear com flores

ontem quando voltei uma neblina espessa
cobria o mundo e o vidro do meu carro
podia jurar que o lugar que passo todos os dias
não era o mesmo lugar
pois havia uma nuvem branca
como o gelo que se esconde em nossas pálpebras

ninguém inventou um instrumento
para medir as expectativas do vento (ou as nossas)
nós e o vento somos os mesmos
:
vivemos e gemeremos sobre um nicho de porta
translúcida _ opaca _ ou de chumbo
nada um importa
:
o que está escondido está atrás do atrás
e vindo para a frente
como uma centena de centopéias
atrás de uma flor de açúcar
e a vida humana
atrás do atrás _ sempre atrasada
esperando um trem ou coisa parecida
para levar seus cadáveres para a bolsa de valores
haverá chuva?
alguém incomodará nosso sexo durante a tarde?
atrás do lençol deixaremos um suor petrificado
guardado como um precioso caco de vidro
que entretanto não cortará nossa pele

gosto de inventar matérias novas
para esconder as matérias velhas
de sufocar o conhecido
andar de teleférico
e fazer têmpera com areia

atrás de mim está você
e eu atrás de você
sem que ninguém saiba
quem chegou primeiro
ou quem sairá depois
quando o que estiver escondido
se revelar para sempre
como o mais visível
e sempre presente
etc.

 

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▪ Augusto Meneghin
(Brasil 🇧🇷)
in “O mar sem nós”, 2ª edição, Editora Urutau, Brasil – Galiza – Portugal, 2019