DIANTE DA MORTE

Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

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▪ Rui Caeiro
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobre a nossa morte bem muito obrigado, Edição Alambique, 2014

UM CÂNTICO PARA A MÃE

Contigo mãe
Terminaram todas as recordações
Resta-nos o esquecimento como um muro
Sobre a tragédia da vida
Tu levaste todas as dores
Para que nada fique connosco
Nem o arrependimento sequer
De não estarmos mais contigo enquanto foi móvel a tua existência
Mãe, eu já lavei o meu rosto com lágrimas
Para que não ficasse nenhuma pegada
Do teu derradeiro olhar.

 
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▪ Julián Petrovick
( Peru 🇵🇪 )

À MEMÓRIA DE MEU PAI

Era a casa do pai,
desde que ele morreu,
a árvore do quintal
nunca mais foi regada
o cão recusou-se a sair
e apareceu enforcado no varandim,
não sei se por tristeza
ou porque, entretanto, enlouquecera,
o violino ficou como estava
depois da última valsa
uma das cordas continua partida,
os livros, nas estantes de castanho,
parecem ser eternos
a alimentar a voracidade das traças
e eu nunca cheguei a saber
se toda aquela sabedoria encaixotada,
a forrar as paredes e os vãos das escadas,
não significava apenas
a volúpia de um ócio ancestral
como se fosse um culto profano,
e, naquele labirinto,
nem sequer a luz do dia
varria as sombras de todos
os antepassados que por ali viveram
e dos quais a genealogia fala.
Só os fantasmas, ainda vivos,
deambulavam aos tropeções
pelo sótão,
nas noites de temporal
ou quando fazia frio,
e era nesses momentos
que eu tinha medo
de ficar só.

 
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▪ Alexandre de Castro
( Portugal 🇵🇹 )