MOSTRAS-ME O FIM DO MUNDO

MOSTRAS-ME O FIM do mundo
o Inferno de Dante
onde o Diabo nos arde na sua fogueira
com os demónios todos juntos
mesmo assim quero ir contigo
vou contigo para o fim do mundo
para o fim da Terra
para o Céu ou o Inferno
vou contigo para a fogueira do Inferno
lá quero-me arder contigo
e ardemos os dois
ao mesmo tempo trespassados pela faca do amor.

 

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▪ António Gancho
( Portugal 🇵🇹 )
in “o ar da manhã”
assírio & alvim
1995

 

MANICÓMIO SEM PAREDES

Era uma vez uma mulher que vivia numa casa sem paredes.
E falava sem paredes.
E era triste sem paredes.
E pensava sem paredes.
E chorava sem paredes.
E amava sem paredes.
E tinha medo sem paredes.
E ria sem paredes.
E escrevia sem paredes.
E tinha filhos sem paredes.
E vivia as noites sem paredes.
E olhava o mundo sem paredes.
E existia sem paredes.
E era um obstáculo à liberdade.

Um dia sem saber mais o que fazer
Decidiu pintar um quadro sem paredes.
E como o quadro não tinha paredes
Caíram todos dentro dele.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Livro do Absurdo”

DIZEM

Quando nasci tinha uma faca na mão.
Dizem: é poesia.
Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca.
Nasci para ser homem.

Alguém soluça uma felicidade apaixonada.
Dizem: é amor.
Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas!
Só contigo eu brinco.

Não recordo nada e também nada esqueço.
Dizem: como é possível?
O que deixo cair mantém-se sobre a terra.
Se o não encontro, tu o encontrarás.

A terra me aprisiona, o mar me dilacera.
Dizem: um dia morrerás.
Mas dizem-se tantas coisas a um homem
que nem sequer respondo.

 

▪ Attila József
( Hungria )
in ” Não Sou Eu Que Grito”
Mudado para português por Egito Gonçalves