DEUS VISITOU O MEU PAÍS

Deus visitou o meu país.
O meu país escolheu o número 3.
O número 3 inspeccionou a Luz.
A Luz foi até à varanda e
tossiu.
A mãe, que estava na cozinha
sem sapatos
num grande dia de calor,
derreteu-se numa folha de gelatina.

O país então apareceu de novo, mas num local completamente diferente.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “ P.P.

PÁGINA ANTIGA DE UM DIÁRIO INEXISTENTE

Mandei hoje cortar a araucária do
jardim.
_____Plantei-a ali há cerca de dezasseis
anos. Tinha um palmo de altura, como os
companheiros da Branca de Neve. Cresceu,
agigantou-se, ultrapassou o telhado da casa,
impregnou-se de azul.
_____Há dias, pelo S. João, pousou-lhe nos
ramos ásperos, penetrantes como agulhas,
um balão aceso. Ficou chamuscada, perdeu
a compostura, a elegância. Há nela, agora,
alguns ramos secos. Também em mim algo
vai secando, morrendo.
_____Mandei hoje cortar a araucária do
Jardim…

No mesmo dia

_____Adiei a decisão. Adiei-a, não: anulei-a.
Há feridas que não saram, males para os
quais não há remédio.
_____Ao subir, há pouco, ao terraço, reparei,
ajudado pelos olhos do Frederico e pela sua
sensibilidade ecológica, naqueles ramos
verdes a roçar as telhas. E recuei, então.
Emendei o gesto.
Cresce, minha araucária, cresce! De mim
não se dirá que tirei a vida a quem dei.

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▪ Albano Martins
( Portugal 🇵🇹 )
in “Assim São As Algas” – Poesia 1950-2000, Campo das Letras, Porto, 2000

NO VAGAR DOS ROCHEDOS

Eu ia devagar.
Caminhava por dentro dos rochedos e seguia
o acre fio das algas particulares
que eu – ao mesmo tempo comovido e cansado-
lambia como se sustento fossem
de um viagem longa, atribulada.

No som vertiginoso que se ouvia
e ecoava desde muito longe
até às grandes e clamorosas aberturas
descidas de repente sobre o mar,
sentia-me a pairar no coração das turfas
que se vestem de alegria.

___________________ Ou seja,
que brandamente seguem a luz íntima
que vai da consciência à temperança.

Em vão eu tentaria ali lembrar (recuperar)
as outras tristes músicas:
o deve e o haver doutros tumultos
e mesmo as renúncias que são dores
que roem todo o corpo e o desgastam.

Eu ia devagar.
Passava por caminhos que, de facto,
poisos eram, clamorosas aberturas.

E dissolvia-me no mar.

 

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▪ João Rui de Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
in “Enquanto a noite, a folhagem”, Editora Tertúlia, Sintra, 1991