NUM SAPATO DE DANTE

    

Num Sapato de Dante

Deram as onze badaladas.
deram as onze
no meu quarto.
e espero por ti,Líli ,toda a noite
para que me venhas ver.

mas,ai!,…
todos os ponteiros dos relógios voaram pela sala!
todos os livros das estantes caíram como um grito!
o meu coração soltou-se aos bocados
para de ti me esconder…

entrarás então,de repente,no meu quarto
e verás todo o meu corpo a arder!…
e como uma florinha de calças pegarás fogo às cortinas
para te poder ver…

ai,Líli,
vem depressa,
queimei-me com versos
quando por ti esperava!

olha,
todos os crisântemos carbonizaram
pelas árvores fora… a arder!…
ouves,Líli? sentes?…
olha os séculos distantes quando passam
por mim!
repara como os meus beijos vão em cavalgada
cambaleando como um Baco
numa gotinha incendiada
da chuva!…

mas clamarei por ti
mais uma vez,
disfarçada de Goethe,
até que um verso meu se solte pela janela fora
pela janela do meu quarto a arder…

ai,Líli!
todo o meu corpo pegou fogo
ao riso abalado de Van Gogh!
as minhas orelhas fugiram pela sala
através da minha carne fogosa!
soltou-se-me um braço!
uma perna minha foi parar à Malásia !

e eu espero por ti toda a noite
escondida entre montanhas
entre risos disfarçados de anjos…

e deram as doze badaladas.
deram mais doze badaladas no meu quarto
e Líli ainda não veio!

ah! como um brutamontes
arrancarei todas as fechaduras à dentada!
tomarei todos os livros de assalto
das estantes!
e entre nuvens sonharei versos gigantes,
para de ti me esconder!…
e quando tu vieres,
dentro dum til no meu peito,
abrirei todas as chaves dos crisântemos
para veres toda a nossa casa a arder…

cantarei pois versos toda a noite
até que me venhas ver…
como um mendigo
clamarei por ti,Líli, uma última vez
até darem as cinco
e as sete badaladas,
com todo o meu quarto iluminado…

(o meu semblante
tenta discorrer porque ela
ainda não veio…)

ouves ,Líli?
sentes?

olha como apunhalei a Terra
só com um verso de Nietzche !

todos os loucos e enfermos dos hospícios
me vieram ver,
todos os mendigos me trouxeram uma trincheira
de beijos
para de ti me esconder!

ah !,não me ralo,
tenho comigo a orelha cortada
do Van Gogh ,
e o oiro todo que corre agora
pelas vossas salas…
sou o maior dos amantes
a teu lado a arder…

mostrarei então a Deus todos os meus versos feitos,
que não trocarei por nada !
e quando Ele vier, disfarçado de Goethe,
porei o meu monóculo bem aberto
numa garrafa ébria de gin!
tocarei para ti Líli,a flauta verbal dos milagres
com Deus em todo o meu quarto
para te poder ver…

o meu coração viaja agora pela europa fora!

que inferno,Líli!
o meu choro copioso
caiu na última lágrima de Dante,
derramada às seis em ponto!

peguei fogo às janelas!
ardo pelas chaminés fora
pelas paredes da casa incendiadas em Kant!

ai,Líli,
não tenho para onde fugir,
o meu corpo
mudou-se todo para a sala,
voa, para cima ,
num sapato de Dante!

tomarei, então,
como um grito de terror,
todo o fogo pegado às janelas
para de ti me esconder e me poderes
ver!…

rubra,
como um diamante soltarei então o meu último grito
pela Via-Láctea dentro,
dentro de ti… a arder…

Ai,Líli, brilharei como um rubi para sempre
no último dos amantes…
brilharei eternamente
quando
passar
por
ti!…

__
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

 

*

Poema – Maria Azenha
Voz e Música – IA

Pintura digital- Maria Azenha

 

Memória de Líli

 

Poema – Maria Azenha
Voz – Maria Azenha

 

Que pena que não conheças Líli,
A mulher mais triste que eu conheço,
A mais triste flor extraída da Beleza.
Saiu de noite à procura de um poço
E fala comigo com estrelas nos ouvidos.
Centenas de vezes grita e ninguém a ouve,
As neves derretem sobre os seus cabelos.
E bebemos uma música verde a cada impulso
Em bosques extraídos das cinzas.
O seu brilho é um infinito silêncio,
O seu suspiro… uma hóstia limpa.

__
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

*

Poema – Maria Azenha
Voz e Música – IA

MÃOS DE PEDRA

 

 Queria a noite sempre ao meu lado
E um barco onde reclinar a cabeça
Queria sempre o braço de minha mãe
A baloiçar as amarras que me prendem
Às marés
 
E as minhas mãos são grandes
E pesam como um rochedo
Como a espada suspensa
Sobre a minha boca
 
E a minha alma é pequena para gritar
O nome dos navios
 
O nome de todos os navios
O nome dos navios o nome
Dos meus amigos.

 

Daniel Faria
(1971 – 1999)
in “Poesia”

A TRISTEZA DA TERRA

 

Um dia.
Um dia haverá sobre a Terra uma sociedade do elogio da amizade. Até lá. Até lá as tristezas da Terra. A melancolia de nos estar vedado o conhecimento absoluto.
O não termos ao nosso alcance a distinção absoluta entre o bem e a malícia.

E, no entanto, todas as químicas se entretêm em nós a conspirar para alcançar a verdade. A verdade exclusiva de todas as verdades.

A nossa, a única, a que deve e só pode ser aplicada a … a todas as outras.
Do século XX aprendemos nada para o século XXI.

O século XX e o século da descoberta dos limites da ciência como arma de descoberta das certezas absolutas.

Começou o século com o limite da velocidade de propagação de seja o que for no universo.
Expandiu -se na dependência da medida de uma grandeza relativamente ao observador. Quantificou-se no princípio de incerteza de Heisenberg. Provou-se na impossibilidade de medir com absoluto rigor.
Libertou-se no teorema de Gödel. Impôs limites à lógica e à racionalidade como aríetes da busca humana da verdade absoluta.
Revelou-se nas limitações que traz o simples contar.
O simples lidar com a aritmética dos números mostrou-nos a precariedade das nossas previsões.
Mas nada destas descobertas quebrou a química do egoísmo.
Nada fez diminuir a física da agressividade. Nada.
O conhecimento envenenado da soberba humana evoluiu de técnica em técnica. Conseguiu, de cada vez, transformar mais eficazmente momento,
velocidade, em choque.
Choque que emprega em destruição. Choque cada vez mais devastador:
Aprendemos nada no século XX.
Sabemos de todos os nossos limites. Mas não resistimos a utilizar a malícia suprema. O mal que advém quando nos arrogamos do conhecimento absoluto do bem e do mal. E o utilizamos para mutilar pessoas e sociedades. E o empregamos na defesa egoísta do absoluto.
Tivéramos aprendido algo no século XX com as descobertas dos limites e das limitações ao nosso conhecimento da verdade e talvez tivéssemos tido a oportunidade de ter inventado a paz no século XXI.
No início do milénio falhámos. Neste princípio, a história é de conflito imposto pelo absoluto. Neste começo temos que voltar a ser um recomeço. Um reinício para erigir de novo a sociedade do elogio da amizade. Só falta aprender e pôr em prática os limites que a ciência do século XX descobriu e depois “Aproveita a palavra que te veio; Reza; Tudo isto vai passar”.

In ” CONVOQUEM A ALMA ”
Fernado Carvalho Rodrigues

https://www.rtp.pt/play/p14571/e835680/primeira-pessoa

É um caso sério de múltiplos talentos. Físico, foi o pai do primeiro satélite português, é comunicador de excelência e um humanista profundo.
Toca diferentes áreas da vida, revolucionou a indústria da ótica na Europa, foi diretor de ciência da NATO, é cientista e professor. Hoje vive no interior do País, em harmonia com a natureza.
Fernando Carvalho Rodrigues é o protagonista deste Primeira Pessoa

 

 

AQUI E ACOLÁ ACONTECE

Aqui e acolá acontece,
ouve-se um grito de socorro.
Imediatamente alguém se atira à água,
tudo completamente gratuito.

Em pleno desenfreado capitalismo
os cintilantes bombeiros aí estão ao dobrar
da esquina e apagam, ou no chapéu do pedinte
há de súbito uma prata a brilhar.

De manhã as ruas estão cheias
de pessoas que andam de um lado para o outro,
serenas, sem facas na mão.
apenas à compra de leite e rabanetes.

Como em plena paz.

Dá gosto ver.

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▪ Hans Magnus Enzensberger
( Alemanha 🇩🇪 )
(Mudado para Português por Alberto Pimenta)

A CARA DE UM CANDIDATO POLÍTICO NUM CARTAZ DE RUA

A CARA DE UM CANDIDATO POLÍTICO NUM CARTAZ DE RUA.

lá está ele:
poucas ressacas
poucas discussões com mulheres
poucos pneus furados
nunca pensou em suicídio

não mais de três dores de dentes
nunca falhou uma refeição
nunca esteve na cadeia
nunca se apaixonou

7 pares de sapatos
um filho na faculdade
um carro com um ano
apólices de seguros
uma relva muito verde
caixotes do lixo bem fechados

será eleito


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▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
(1920-1994)
In “Os cães ladram facas”
(Antologia Poética)