A TRISTEZA DA TERRA

 

Um dia.
Um dia haverá sobre a Terra uma sociedade do elogio da amizade. Até lá. Até lá as tristezas da Terra. A melancolia de nos estar vedado o conhecimento absoluto.
O não termos ao nosso alcance a distinção absoluta entre o bem e a malícia.

E, no entanto, todas as químicas se entretêm em nós a conspirar para alcançar a verdade. A verdade exclusiva de todas as verdades.

A nossa, a única, a que deve e só pode ser aplicada a … a todas as outras.
Do século XX aprendemos nada para o século XXI.

O século XX e o século da descoberta dos limites da ciência como arma de descoberta das certezas absolutas.

Começou o século com o limite da velocidade de propagação de seja o que for no universo.
Expandiu -se na dependência da medida de uma grandeza relativamente ao observador. Quantificou-se no princípio de incerteza de Heisenberg. Provou-se na impossibilidade de medir com absoluto rigor.
Libertou-se no teorema de Gödel. Impôs limites à lógica e à racionalidade como aríetes da busca humana da verdade absoluta.
Revelou-se nas limitações que traz o simples contar.
O simples lidar com a aritmética dos números mostrou-nos a precariedade das nossas previsões.
Mas nada destas descobertas quebrou a química do egoísmo.
Nada fez diminuir a física da agressividade. Nada.
O conhecimento envenenado da soberba humana evoluiu de técnica em técnica. Conseguiu, de cada vez, transformar mais eficazmente momento,
velocidade, em choque.
Choque que emprega em destruição. Choque cada vez mais devastador:
Aprendemos nada no século XX.
Sabemos de todos os nossos limites. Mas não resistimos a utilizar a malícia suprema. O mal que advém quando nos arrogamos do conhecimento absoluto do bem e do mal. E o utilizamos para mutilar pessoas e sociedades. E o empregamos na defesa egoísta do absoluto.
Tivéramos aprendido algo no século XX com as descobertas dos limites e das limitações ao nosso conhecimento da verdade e talvez tivéssemos tido a oportunidade de ter inventado a paz no século XXI.
No início do milénio falhámos. Neste princípio, a história é de conflito imposto pelo absoluto. Neste começo temos que voltar a ser um recomeço. Um reinício para erigir de novo a sociedade do elogio da amizade. Só falta aprender e pôr em prática os limites que a ciência do século XX descobriu e depois “Aproveita a palavra que te veio; Reza; Tudo isto vai passar”.

In ” CONVOQUEM A ALMA ”
Fernado Carvalho Rodrigues

https://www.rtp.pt/play/p14571/e835680/primeira-pessoa

É um caso sério de múltiplos talentos. Físico, foi o pai do primeiro satélite português, é comunicador de excelência e um humanista profundo.
Toca diferentes áreas da vida, revolucionou a indústria da ótica na Europa, foi diretor de ciência da NATO, é cientista e professor. Hoje vive no interior do País, em harmonia com a natureza.
Fernando Carvalho Rodrigues é o protagonista deste Primeira Pessoa

 

 

AQUI E ACOLÁ ACONTECE

Aqui e acolá acontece,
ouve-se um grito de socorro.
Imediatamente alguém se atira à água,
tudo completamente gratuito.

Em pleno desenfreado capitalismo
os cintilantes bombeiros aí estão ao dobrar
da esquina e apagam, ou no chapéu do pedinte
há de súbito uma prata a brilhar.

De manhã as ruas estão cheias
de pessoas que andam de um lado para o outro,
serenas, sem facas na mão.
apenas à compra de leite e rabanetes.

Como em plena paz.

Dá gosto ver.

_
▪ Hans Magnus Enzensberger
( Alemanha 🇩🇪 )
(Mudado para Português por Alberto Pimenta)

A CARA DE UM CANDIDATO POLÍTICO NUM CARTAZ DE RUA

A CARA DE UM CANDIDATO POLÍTICO NUM CARTAZ DE RUA.

lá está ele:
poucas ressacas
poucas discussões com mulheres
poucos pneus furados
nunca pensou em suicídio

não mais de três dores de dentes
nunca falhou uma refeição
nunca esteve na cadeia
nunca se apaixonou

7 pares de sapatos
um filho na faculdade
um carro com um ano
apólices de seguros
uma relva muito verde
caixotes do lixo bem fechados

será eleito


_
▪ Charles Bukowski
(E.U.A. 🇺🇲)
(1920-1994)
In “Os cães ladram facas”
(Antologia Poética)

VOLTAR PARA CASA

Voltar para casa,
dançar através dos passeios
atravessar um verso a cavalo
olhar para Deus deitado na rua.

É essa a arte que herdámos dos Anjos?

O Amor nunca perdoaria
derramar o sol pelo chão.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

*


VOLVER A CASA

Volver a casa,
bailar por los paseos,
cruzar un verso al trote,
mirar a Dios tumbado en una calle.

Es el arte heredado de los áangeles?

Nunca el Amor perdonaría
que se volcara el sol en un baldío.

 

__
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

Mudado para castelhano por_ José Ángel Cilleruelo ( 🇪🇸 )

 

MÃEZINHA

Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem camiões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exata,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do nascimento até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! Nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, com filhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 20 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras causas mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

 

Além destas meninas havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a tricotar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro ali, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
calmamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram jovens, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se Mariazinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

 

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▪ António Gedeão
( Portugal 🇵🇹 )

 


Poesia dita por Vitor D’Andrade