CARTA DA INFÂNCIA

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
…………minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
…………nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
………….cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
………….da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

 

▪Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético”, 1998

 

IMAGENS

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais
e que se chove corra a apanhar
-te,
não te vás desbotar ou romper,
ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.

 

▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Coisas de partir”

CARTA DOIS

Meu Bem-Amado,

Hoje, não compreendo nada.
Sou alguém que terminou o dia sem ter acontecido a tarde.
Ainda assim, leio o que nunca escrevi, o que me faz um enorme medo…
Entro na Noite com uma mão cheia de escuro.
A lógica tornou-se-me impotente. Insuportável. O meu humor é um delírio.
Queria continuar esta escrita, com a vontade de um ” ontem”…mas não sei fazê-lo.
Toda as palavras seriam apenas uma pequena faúlha …
Meu Bem-Amado, sou tão carente que o único presente que lhe posso ofertar
sou eu.
Porque o Ontem já passou?!
Um dia, se nos chegarmos a ver, entregar-lhe-ei os versos que pousaram no pó das minhas mãos…
Retenho, de cor, este pequeno fragmento:

Levantei-me muito cedo para te chamar.
As abelhas dançam em redor do seu núcleo, e
é quase verão.
Há fendas muito fundas
nos teus olhos.
As minhas mãos fazem sombras
sobre os muros.
E tu não sabes que estou aqui.

 

 

Ternamente,
Sua,
Hanna H.

 

 

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Cartas frente ao mar”

DETIDO POR UMA MULHER

Detido por uma mulher às portas duma cidade desconhecida
supliquei-lhe: deixa-me passar, apenas entrarei
para sair de novo e voltarei entrar para sair
porque a obscuridade me mete medo como a todos os homens.

Então disse-me ela:
“Por isso deixei lá uma luz acesa!”

 


▪ Vladimir Holan
( Checoslováquia 🇨🇿)
Mudado para português por Henrique Dória

A QUEM DEIXAREI O MEU CANSAÇO

A quem deixarei o meu cansaço,
as unhas sujas, as marcas
do martelo falhado, a quem
senão a quem…?
– Serão de quem viver depois do dia de hoje
o dia de hoje que eu vivi doado
e a obra pequenina que fabrico
no silêncio que a rua me permite.

 

 


▪ Pedro Tamen
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Livro do Sapateiro”