░ Um Chagall e uma folha de árvore

Gastei as minhas poupanças todas numa litografia de Chagall e coloquei-a junto
a uma folha de carvalho que apanhara na estrada —
uma coisa a que podemos dar um preço
e outra a que não —

algo que uma mão e um coração humanos fizeram
e algo feito pela natureza.

O Chagall é maravilhoso.
A folha de carvalho também.

Levanto-me e preparo chá,
com o sol suave da tarde a cair sobre a mesa.

Ao olhar para o Chagall,
voltam até mim aqueles dias passados com ela.

Quando olho a folha de carvalho
penso na delicadeza do criador.

Uma folha e o Chagall —
ambos insubstituíveis e preciosos

O som de Ravel ao piano eleva-se.
Hoje e a eternidade em uníssono.

O coração e o corpo misturam-se com o céu azul para lá da janela.
…… De onde vêm estas lágrimas?

 

_
▪ Shuntarō Tanikawa
(Japão 🇯🇵 )
in “A Chagall and a Tree Leaf”

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático) com base em traduções para inglês de William I. Elliott & Kazuo Kawamura.



– Version by William I. Elliott and Kazuo Kawamura –

░  A Chagall and a Tree Leaf

I spent all my savings on a Chagall lithograph and placed it beside
an oak leaf I had picked up on the road —

something we can put a price on
and something we can’t —

something that human heart and hand have produced
and something that nature has.

The Chagall is beautiful.
The oak leaf is also beautiful.

I get up and make tea,
with soft afternoon sunlight falling on the table.

Looking at the Chagall,
those days spent with her come back to me.

When I look at the oak leaf
I think of the creator’s delicacy.

A leaf and the Chagall —
both are irreplaceably precious.

The sound of Ravel on the piano heightens.
Today becomes one with the eternity.

Heart and body melt into the blue sky beyond the window.
…… Where do these tears come from?

 

_
▪ Shuntarō Tanikawa
(Japan, 🇯🇵 )
in “A Chagall and a Tree Leaf”, Translated from the Japanese by William I. Elliott and Kazuo Kawamura

OS MORTOS DO MUNDO MODERNO

Há um espelho de mortos de veludo encostados
A um muro.
Vi Abel matar Caim!
E quando falo disto às pessoas
Com todas as palavras gravadas em coroas de espinhos
Elas viram-me as costas. Não sabem o que digo.
Tive que colocar uma máscara .
Perdi a vontade de comer
Já não tenho mais nada para lhes dizer.

Vejo-as a passear os seus cães
A olhar para o chão.

As lojas, não sei como explicar-vos,
Têm o mesmo manequim nas montras,
Com as mesmas roupas,
Com os mesmos dentes,
Choram através dos meus olhos.
São quase cinco horas
E o tempo dos incêndios, dizem,
Vai começar.

Há um espelho de mortos de veludo encostados
A um muro. Os mortos pensativos e maduros
Irão para o trabalho,
Como de costume.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Livro do absurdo”

Mês de maio

Escrevo, escrevo, escrevo
e não conduzo a nada, a ninguém.
As palavras debandam ao me ver
como pombas, surdamente crepitam,
arraigam-se em seu torrão escuro,
se prevalecem com escrúpulo fino
do inegável escândalo:
sobre a imprecisa escrita sombra
mais me importa amar-te.

 

_
▪ Ida Vitale
( Uruguai 🇺🇾 )
in “Oidor andante” 1972, Arca Editorial, Uruguai

*

Mudado para português por _ Gustavo Petter _ Poeta, Tradutor, Professor / Araçatuba/SP, Brasil
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

Mes de mayo

 

Escribo, escribo, escribo
y no conduzco a nada, a nadie.
Las palabras se espantan de mí
como palomas, sordamente crepitan,
arraigan en su terrón oscuro,
se prevalecen con escrúpulo fino
del innegable escándalo:
por sobre la imprecisa escrita sombra
me importa mas amarte.

 

_
▪ Ida Vitale
( Uruguai 🇺🇾 )
De “Oidor andante” 1972, Arca Editorial, Uruguay

1984 1984

Como um icebergue que vai florir
Na terra
Por uma palavra humana apodrecida
O poema vai ser exportado para a guerra.

O poema pende e marcha
Pelos jornais
Pelas ruas de Nova Iorque
Pela maldade dos desertos
De pescoços retorcidos
Pelos generais
Pelos padres rasgados em pedaços
Pelas mídia.

Quem dá mais?
Quem dá mais?

As crianças
Coroadas por chapéus de tiros
São notícia
A toda a hora.
A toda a hora.

Há poemas vestidos de engrenagens hirtas!

Na Áustria
Na Hungria
Na Itália
Nas ilhas do mar Báltico
Em todo o lado.

Vejam como
O poema salta de sílaba em sílaba
De
Faísca em faísca
Faz troça do vento de Hiroxima.

Dança com hackers
Com fantasmas de olhos polidos
Por dentro de violinos.

O poema queima os olhos do diabo.

O Maestro da guerra está escondido!

1984
1984

Quem dá mais?
Quem dá mais ?

Bordel do século com seus discípulos e
Suas esposas de versos radioactivos.

Há uma máxima que escreve há vinte séculos
Com colheres de Nagasaki:

O poema radioactivo.
O poema radioactivo.

Não sei como enterrá-lo.
A boca da Terra cada vez mais se abre!
O meu coração é um ícone aflito!
Não conheço homem que nos perdoe.

Há mortos sem piedade. Há mortos.
Há vivos.

O sol e a lua
Abandonaram os nossos corpos.

Lembrai-vos:

1984
1984

 

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Livro do absurdo”