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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
A MINHA MÃE FAZ BACKUPS DE MIM
A minha mãe faz backups de mim
em estórias que não reconheço
e eu guardo-a em rascunhos
que nunca envio.
No fim, desinstalei o dia da mãe
mas ficou um ficheiro escondido
com o nome:
“Há mães felizes em promoção”
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Senhoras e Senhores!
apresento-vos o país:
nasceu numa tenda
no Martim Moniz!
Sim, sim!
não havia ouro, nem hino
apenas sacos de plástico
e crianças que corriam descalças
como se fossem atores
dum palco.
O país nasceu
numa tenda sem abrigo
no Martim Moniz!
Não tinha bandeira
nem hino
apenas sacos de lixo
e o cheiro a pão duro
e urina.
Os políticos passaram de carro
como se o chão fosse invisível.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Entre o céu e o inferno
fica a cozinha.
O pão queimou.
Talvez seja um sinal.
No céu
ninguém lava a loiça.
Fico aqui, agora,
a decidir
se raspo o fundo do tacho
ou se rezo.
O diabo ri-se.
Deus não responde.
O café arrefece.
Entre o céu e o inferno
há esta cadeira
onde me sento,
sem asas
nem cornos,
mas com fome.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Voltar para casa,
dançar através dos passeios
atravessar um verso a cavalo
olhar para Deus deitado na rua.
É essa a arte que herdámos dos Anjos?
O Amor nunca perdoaria
derramar o sol pelo chão.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
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VOLVER A CASA
Volver a casa,
bailar por los paseos,
cruzar un verso al trote,
mirar a Dios tumbado en una calle.
Es el arte heredado de los áangeles?
Nunca el Amor perdonaría
que se volcara el sol en un baldío.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Mudado para castelhano por_ José Ángel Cilleruelo ( 🇪🇸 )
Para os meus dias peço,
Senhor dos naufrágios,
não água para a sede, mas a sede,
não sonhos
mas o desejo de sonhar.
Para as noites,
toda a escuridão que seja necessária
para afogar a minha própria escuridão.
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▪ Piedad Bonnett
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por_ Jorge de Sousa Braga
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