O LOUCO

 

Lembro-me de um homem que, ontem, vi na rua.
Trazia um caderno entre os dentes, uma bengala na mão e um telemóvel na outra.
Vinha aos tropeções pelo passeio, escoltado pelas sombras tortas das árvores e dos candeeiros. Parecia um cão que se recusava a largar um osso.
À medida que se aproximava, via aquilo que preferia não ter visto. O rosto, triturado por um riso, esticava até aos limites da sanidade.
Os olhos, ai, os olhos, vagueavam em direções diferentes, numa agitação febril, como se perseguisse pensamentos invisíveis.
Falava sozinho, entre dentes, e por vezes soltava gargalhadas repentinas que morriam tão depressa quanto nasciam.
O corpo era escanzelado, como um ramo seco; a camisa pendia-lhe quase até ao chão, como um pano abandonado. A bengala parecia ser a única coisa que o impedia de tombar.
Fiquei num lugar escondido, de modo a que ele não me pudesse ver. Permaneci imóvel, quase sem respirar. Havia qualquer coisa nele que me prendia o olhar.
Talvez fosse o absurdo da figura: o caderno entre os dentes, o telemóvel numa mão e a bengala na outra, como se tentasse carregar o peso de três mundos diferentes ao mesmo tempo.
Observei-o até ele desaparecer definitivamente.
À noite, fechei-me no quarto e, já deitada na cama, pensei que talvez tivesse tido uma visão.
Mas quando fechei os olhos, percebi que ele ainda estava ali.
Não do lado de fora — mas atrás de mim, a respirar devagar, como se tivesse aprendido o meu nome.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

A MINHA MÃE FAZ BACKUPS DE MIM

 

A MINHA MÃE FAZ BACKUPS DE MIM

 

A minha mãe faz backups de mim
em estórias que não reconheço
e eu guardo-a em rascunhos
que nunca envio.

No fim, desinstalei o dia da mãe
mas ficou um ficheiro escondido
com o nome:

“Há mães felizes em promoção”

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )