Para os meus dias peço,
Senhor dos naufrágios,
não água para a sede, mas a sede,
não sonhos
mas o desejo de sonhar.
Para as noites,
toda a escuridão que seja necessária
para afogar a minha própria escuridão.
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▪ Piedad Bonnett
( Colômbia 🇨🇴 ) Mudado para português por_ Jorge de Sousa Braga
A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem camiões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exata,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do nascimento até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! Nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, com filhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 20 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras causas mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a tricotar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro ali, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
calmamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram jovens, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Mariazinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
Agora já não eram marido e mulher.
Encontravam-se, às vezes, na pastelaria
do costume, e falavam só de poesia
até que não houvesse nada para dizer.
Depois, ficavam em silêncio alguns minutos,
a contemplar o movimento e o som da rua,
ele também a contemplava, toda nua,
por dentro dos seus olhos castos muito abertos.
Mas, ela já se ergue alta da cadeira,
na elegância do seu corpo, musa magra,
cuja beleza, encanto e alma são de cabra
de montanha, com maquilhagem muito sábia.
Ele também se ergue e oferece o seu braço
e sente um peso que é leveza e lhe dá asas,
e, enquanto caminha, plana sobre as casas,
com a alegria da morte ao rubro, passo a passo.
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