A EUROPA TINHA QUE SABER

Poema – Maria Azenha
Interpretação e Voz – Elisa Scarpa

 

A EUROPA TINHA QUE SABER

deus não me deu nem avô nem avó
nem nenhuma irmã que soubesse ballet
nem sequer uma fotocópia
em ponto pequenino
de nossa senhora ou de são josé
tenho pouca sorte
por causa da milú
e é um nome que detesto
ela é muito má
é capaz de andar com um pé descalço
e outro com uma pedra no sapato
comprei então um baralho de cartas
para escrever
como fazem todos os poetas
que não querem morrer
imaginem que ontem fui despedida
faltei ao trabalho
por não poder ser operada
por não haver mais camas
desatei a chorar
abracei-me às mamas
e como uma desgraça nunca vem só
mordeu-me uma cobra
constipei-me com pó
fazia-me falta agora falar com alguém
com o dom afonso henriques
para lhe dizer que me sinto muito triste
porque ele bateu na mãe
e que portugal não existe

bem feito

mais tarde ou mais cedo
a europa tinha que saber
que estamos todos no rossio
com ar condicionado
a jogar às cartas

nada
nada nos falta

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

 

P.S. O Poema apresenta uma visão crítica da Europa contemporânea, usando  uma “voz” que parece infantil ou ingénua para denunciar problemas muito sérios. A autora coloca a Europa perante a obrigação de “saber” o que realmente acontece às pessoas comuns, contrapondo a grande política ao quotidiano. A imagem de “estarmos todos no Rossio a jogar às cartas” transforma-se numa metáfora de uma sociedade que convive com o absurdo, a indiferença e o jogo do poder.

MÃOS DE PEDRA

 

 Queria a noite sempre ao meu lado
E um barco onde reclinar a cabeça
Queria sempre o braço de minha mãe
A baloiçar as amarras que me prendem
Às marés
 
E as minhas mãos são grandes
E pesam como um rochedo
Como a espada suspensa
Sobre a minha boca
 
E a minha alma é pequena para gritar
O nome dos navios
 
O nome de todos os navios
O nome dos navios o nome
Dos meus amigos.

 

Daniel Faria
(1971 – 1999)
in “Poesia”

A TRISTEZA DA TERRA

 

Um dia.
Um dia haverá sobre a Terra uma sociedade do elogio da amizade. Até lá. Até lá as tristezas da Terra. A melancolia de nos estar vedado o conhecimento absoluto.
O não termos ao nosso alcance a distinção absoluta entre o bem e a malícia.

E, no entanto, todas as químicas se entretêm em nós a conspirar para alcançar a verdade. A verdade exclusiva de todas as verdades.

A nossa, a única, a que deve e só pode ser aplicada a … a todas as outras.
Do século XX aprendemos nada para o século XXI.

O século XX e o século da descoberta dos limites da ciência como arma de descoberta das certezas absolutas.

Começou o século com o limite da velocidade de propagação de seja o que for no universo.
Expandiu -se na dependência da medida de uma grandeza relativamente ao observador. Quantificou-se no princípio de incerteza de Heisenberg. Provou-se na impossibilidade de medir com absoluto rigor.
Libertou-se no teorema de Gödel. Impôs limites à lógica e à racionalidade como aríetes da busca humana da verdade absoluta.
Revelou-se nas limitações que traz o simples contar.
O simples lidar com a aritmética dos números mostrou-nos a precariedade das nossas previsões.
Mas nada destas descobertas quebrou a química do egoísmo.
Nada fez diminuir a física da agressividade. Nada.
O conhecimento envenenado da soberba humana evoluiu de técnica em técnica. Conseguiu, de cada vez, transformar mais eficazmente momento,
velocidade, em choque.
Choque que emprega em destruição. Choque cada vez mais devastador:
Aprendemos nada no século XX.
Sabemos de todos os nossos limites. Mas não resistimos a utilizar a malícia suprema. O mal que advém quando nos arrogamos do conhecimento absoluto do bem e do mal. E o utilizamos para mutilar pessoas e sociedades. E o empregamos na defesa egoísta do absoluto.
Tivéramos aprendido algo no século XX com as descobertas dos limites e das limitações ao nosso conhecimento da verdade e talvez tivéssemos tido a oportunidade de ter inventado a paz no século XXI.
No início do milénio falhámos. Neste princípio, a história é de conflito imposto pelo absoluto. Neste começo temos que voltar a ser um recomeço. Um reinício para erigir de novo a sociedade do elogio da amizade. Só falta aprender e pôr em prática os limites que a ciência do século XX descobriu e depois “Aproveita a palavra que te veio; Reza; Tudo isto vai passar”.

In ” CONVOQUEM A ALMA ”
Fernado Carvalho Rodrigues

https://www.rtp.pt/play/p14571/e835680/primeira-pessoa

É um caso sério de múltiplos talentos. Físico, foi o pai do primeiro satélite português, é comunicador de excelência e um humanista profundo.
Toca diferentes áreas da vida, revolucionou a indústria da ótica na Europa, foi diretor de ciência da NATO, é cientista e professor. Hoje vive no interior do País, em harmonia com a natureza.
Fernando Carvalho Rodrigues é o protagonista deste Primeira Pessoa

 

 

AQUI E ACOLÁ ACONTECE

Aqui e acolá acontece,
ouve-se um grito de socorro.
Imediatamente alguém se atira à água,
tudo completamente gratuito.

Em pleno desenfreado capitalismo
os cintilantes bombeiros aí estão ao dobrar
da esquina e apagam, ou no chapéu do pedinte
há de súbito uma prata a brilhar.

De manhã as ruas estão cheias
de pessoas que andam de um lado para o outro,
serenas, sem facas na mão.
apenas à compra de leite e rabanetes.

Como em plena paz.

Dá gosto ver.

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▪ Hans Magnus Enzensberger
( Alemanha 🇩🇪 )
(Mudado para Português por Alberto Pimenta)