A MAN MET A WOMAN

A man met a woman and loosed a flower inside her.
Drifting on the wind the flower accompanied the woman for nine months.
And the wind laden with dead leaves cried: it is time for another flower to be born.
And the memory of the flower renounced its work.
And the woman said: I want my flower back.
And she heard her voice lost in an elsewhere.
Years later the man grew old and received the gift
of a coffin.
The woman leapt from a window.
Spring, brimming with flowers, turned unbearably beautiful.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— unpublished —

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Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist 



 

UM HOMEM ENCONTROU UMA MULHER

 

Um homem encontrou uma mulher e atirou para dentro dela uma flor.
A flor acompanhou a mulher durante nove meses arrastada pelo vento.
E o vento carregado de folhas mortas gritou: é tempo de nascer outra flor.
E a memória da flor deixou-se operar.
E a mulher disse: quero a minha flor de volta.
E ouviu a sua voz perdida noutro lugar.
Anos mais tarde o homem envelheceu e recebeu de presente
um caixão.
A mulher pulou da janela.
A primavera, repleta de flores, tornou-se insuportavelmente bela.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

A MÃE É A GRANDE NOITE

Aqui o tempo está atado com camisa de força:
é vento subjugado
que escreve o mesmo nome a giz sobre o muro.
Tudo aqui está dentro, neste grande ventre
pleno de homens sem mãe.
A mãe é cada dose de trifluoperazina
que enche de saliva nossos lábios.
Quando aproximo meu ouvido das paredes
querendo ouvir o pranto dos que ainda amam
somente ouço meus chiados. Minha escura dissonância.
O coração do medo
cantando sua monótona toada.

 

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▪ Piedad Bonnett
( Colômbia 🇨🇴 )
in ‘Los habitados’, Colección Visor de Poesía, Visor Libros, Madrid, 2017

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Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



 
LA MADRE ES LA GRAN NOCHE

 

Aquí el tiempo está atado com camisa de fuerza:
es viento sometido
que escribe el mismo nombre con tiza sobre un muro.
Todo es adentro aquí, en este gran vientre
IIeno de hombres sin madre.
La madre es la gran noche. La madre es nuestro grito.
La madre es cada dosis de trifluoperazina
que IIena de saliva nuestros labios.
Cuando acerco mi oído a las paredes
queriendo oír el IIanto de los que aún ma aman
sólo oigo mi chirrido. Mi oscura disonancia.
El corazón del miedo
cantando su monótona tonada.

 

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▪ Piedad Bonnett
( Colombia 🇨🇴 )
in ‘Los habitados’, Colección Visor de Poesía, Visor Libros, Madrid, 2017

 

FUI À RUA BUSCAR A MORTE

 

_____Fui à rua buscar a morte que andava desaustinada pelas paredes
como cão raivoso. Ofereci-lhe o braço, trouxe-a comigo, fi-la minha amante. Num leito de linho nos deitámos e em segredo me falou dias seguidos sobre a sua infância, a solidão debaixo da terra, o amor pela natureza. Explicou-me como acariciava os bichos comedores de cadáveres e dessa alegria maliciosa.
_____ A morte passou a ter para mim muita importância. Comecei a vesti-la de alvas roupas, coser-lhe flores ao crânio, amando-lhe a face lívida, iniciando-a numa sensualidade sem fim.
_____ Então, numa manhã a Morte sorriu mostrando nos seus lábios o seu carácter perfeito, isento de mesquinhez; beijou-me a boca, as pernas, o coração. Perturbou-me.
_____ No meu interior países fervilharam, milhões de rostos se viraram à luz: Tudo era claro como nunca sucedera.

_____ Começara outra vida: dera-se a iluminação.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esquizo Frenia” , &etc, Lisboa, 1979



 

SALÍ A LA CALLE A BUSCAR LA MUERTE 

 

_____ Salí a la calle a buscar la muerte que andaba sobresaltada por las paredes como un perro rabioso. Le ofrecí el brazo, la traje conmigo, la convertí en mi amante. En un lecho de lino nos acostamos en secreto me habló durante días seguidos sobre su infancia, la soledad bajo la tierra, el amor a la naturaleza. Me habló de cómo acariciaba los animales comedores de cadáveres y de esa alegría maliciosa.
_____ La muerte comenzó a tener para mí mucha importancia. Comencé a vestirla con ropas claras, a coserle flores en el cráneo, amando su faz lívida, iniciándola en una sensualidad sin fin.
_____ Entonces, en una mañana la Muerte me sonrió mostrando en sus labios su carácter perfecto, exento de mezquindad; me besó en la boca, en las piernas, en el corazón. Me perturbó.
_____ En mi interior hervían países, millones de rostros volteaban hacia la luz: Todo era claro como nunca había sucedido.

_____ Había comenzado otra vida: ocurrió la iluminación.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
in “Esquizo Frenia” , &etc, Lisboa, 1979

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Mudado para castelhano por — Carlos Ciro 🇨🇴  Editor, tradutor, poeta e ensaísta.

 

O TELEFONE NEGRO

 

_____ Marquei os números antigos com um vago desejo de respostas,
sabendo já que ninguém me esperava.
Com um desejo vão de ouvir vozes amadas
e que reconhecessem também a minha voz.
Meu telefone é negro,
e na noite ainda mais negra,
somente ouvia o som que chamava uns sepulcros.
E eu sozinho em casa.
______________________ Rasga-se a manhã
nos vidros turvos. Vai chegando o Verão.
Cantam os pássaros (os mesmos?),
E não sei se há consolo.

_____ Com a luz que nua amanhece,
nu, entro em casa,
_____________________ e toca o telefone.
Apresso-me. Digo-lhe que me fale.
Continua o silêncio, sei que estão a falar.
Sai a voz de alguma boca morta,
ou, acaso, de tão só, em mim há surdez?
Oiço outra vez os pássaros. E sei que são os mesmos
que então cantavam, tão eternos e frágeis.
Tenho que falar. Com quem,
se não saem também sons da minha boca?

 

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▪ Francisco Brines
( Espanha 🇪🇸 )
in “A última costa”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997

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Mudado para português por — José Bento 🇵🇹  Poeta e tradutor

 

RECADO DA PESTE

Está em todos os jornais, cotação do
dólar, temperatura Fahrenheit, vítimas
da cólera (soma e segue, para trás,
apenas as últimas semanas dos últimos séculos).
Há um estado de emergência, e se andam à nossa procura
é porque não fazemos parte desta podridão.
É o rancor de não haver remédio, de não saber
que verbos inventavas de boca para cima quando nos desfazíamos
só para voltarmos a refazer-nos, e aceitávamos, porque éramos dois,
o desafio.
Quão difícil, na tenacidade
do contágio, ser o último casal da terra:
aqui somos o assunto de muitíssimas pessoas
que comunicam por sinais, por telefone, que espiam
às portas, que retiram os letreiros, que tocam
para o quarto andar, que nos gritam que abandonemos
o barco em que nos salvávamos, e nos afundemos
num outro, aos poucos, abraçando-nos
gastando-nos, até os nossos ossos tocarem os nossos ossos.
Depois foste a horizontal leoa quieta.
Eu dedicava-me ao meu trabalho: voltar a pôr-te,
como se fosse uma meia, o esquecimento que a noite te roubou
e a ternura que às vezes não encontravas
entre os outros que não te diziam respeito.
Mas a carreta veio buscar-te, com seus cavalos regulamentares
e levou-te, finalmente contaminada, finalmente caída,
oh minha louca de sémen, transformada em senhora honrada
ou dama morta, e o cimento implacável
das boas maneiras vai tapando as tuas enseadas
e há um corvo fúnebre em tua memória. Como foste capaz?
Se estivéssemos no meu país, poderíamos
pelo menos chorar, pôr um disco, gozar com
o governo, mas aqui não há ninguém
para nos fazer rir ou dar-nos de beber no teu velório.
Mas então a morte já não vale a pena.
Talvez esteja fora de moda.
(Também a vida, nesta aldeia grega).

 

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▪ Jorge Enrique Adoum
( Equador 🇪🇨 )
in “El tiempo y las palabras”, Editoriaĺ Libresa, Quito – Ecuador, 1992

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Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

 



 

RECADO DE LA PESTE

 

312. Está en todos los periódicos, cotización
del dólar, temperatura Fahrenheit, víctimas
de cólera. (Suma y sigue, para atrás,
las últimas semanas de estos siglos solamente).
Hay estado de emergencia y si nos buscan
es porque no somos de esta podredumbre.
Es el rencor de no tener remedio, de no saber
qué verbos inventabas boca arriba cuando nos deshacíamos
sólo para rehacernos, y aceptábamos, porque éramos dos,
el desafío.
Qué difícil, en la tenacidad
de su contagio, ser la última pareja de la tierra:
aquí ambos somos asunto de muchísimas personas
que se entienden por señas, por teléfono, espían
por las puertas, descuelgan los letreros, llaman
al cuarto piso, gritan para que abandonemos
el barco en que nos salvábamos hundiéndonos
en el otro por mitades, gastándonos abrazándonos
hasta que toquen nuestros huesos nuestros huesos.
Después ya fuiste la horizontal leona quieta.
Yo estaba entregado a mi trabajo: reponerte
como una media el olvido que te quitó la noche
y la ternura que a veces no encontrabas
entre las otras tú que no te incumben.
Pero vino la carreta por ti, con caballos legales,
y te llevó, al fin contaminada, al fin caída,
oh mi loca de semen, en señora honorable
o dama muerta, y el cemento implacable
de las buenas costumbres va tapiando tus abras
y un cuervo funeral en tu memoria. Cómo puedes.
Si estuviéramos en mi país podríamos
por lo menos llorar, poner un disco, carajear
al gobierno, pero aquí no queda nadie
para darnos de reír o de beber en tu velorio.
Pero entonces la muerte ya no vale la pena.
Quizá la muerte es algo que ya pasó de moda.
(También la vida, en esta aldea griega).

 

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▪ Jorge Enrique Adoum
( Ecuador 🇪🇨 )
in “El tiempo y las palabras”, Editoriaĺ Libresa, Quito – Ecuador, 1992