E PASSAM LENDAS E MISTÉRIOS A REZAR
“Antologia de Mulheres Esquecidas”
Vozes de Margarida Mestre, Gisela JoÃo,Patrícia Andrade e Elsa Braga
RTP ANTENA2
in – https://www.rtp.pt/play/p12636/e844209/mil-e-uma-noites
COSMOGONIA ÍNTIMA

Óleo s/ tela | Maria Azenha
*
COSMOGONIA ÍNTIMA
De vez em quando, Deus deixa cair a sua Sombra
no mar,
para entregar à Noite
ramos gelados de prata,
onde anjos glaciares e vulcões
fazem a sua casa
de branco
e
ouro.
*
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
A EUROPA TINHA QUE SABER
Poema – Maria Azenha
Interpretação e Voz – Elisa Scarpa
A EUROPA TINHA QUE SABER
deus não me deu nem avô nem avó
nem nenhuma irmã que soubesse ballet
nem sequer uma fotocópia
em ponto pequenino
de nossa senhora ou de são josé
tenho pouca sorte
por causa da milú
e é um nome que detesto
ela é muito má
é capaz de andar com um pé descalço
e outro com uma pedra no sapato
comprei então um baralho de cartas
para escrever
como fazem todos os poetas
que não querem morrer
imaginem que ontem fui despedida
faltei ao trabalho
por não poder ser operada
por não haver mais camas
desatei a chorar
abracei-me às mamas
e como uma desgraça nunca vem só
mordeu-me uma cobra
constipei-me com pó
fazia-me falta agora falar com alguém
com o dom afonso henriques
para lhe dizer que me sinto muito triste
porque ele bateu na mãe
e que portugal não existe
bem feito
mais tarde ou mais cedo
a europa tinha que saber
que estamos todos no rossio
com ar condicionado
a jogar às cartas
nada
nada nos falta
__
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
P.S. O Poema apresenta uma visão crítica da Europa contemporânea, usando uma “voz” que parece infantil ou ingénua para denunciar problemas muito sérios. A autora coloca a Europa perante a obrigação de “saber” o que realmente acontece às pessoas comuns, contrapondo a grande política ao quotidiano. A imagem de “estarmos todos no Rossio a jogar às cartas” transforma-se numa metáfora de uma sociedade que convive com o absurdo, a indiferença e o jogo do poder.
VÓRTICE DE FOGO E GELO

” VÓRTICE DE FOGO E GELO ”
Óleo s/ tela
MariaAzenha
MÃOS DE PEDRA
Queria a noite sempre ao meu lado
E um barco onde reclinar a cabeça
Queria sempre o braço de minha mãe
A baloiçar as amarras que me prendem
Às marés
E as minhas mãos são grandes
E pesam como um rochedo
Como a espada suspensa
Sobre a minha boca
E a minha alma é pequena para gritar
O nome dos navios
O nome de todos os navios
O nome dos navios o nome
Dos meus amigos.
Daniel Faria
(1971 – 1999)
in “Poesia”
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