OS ESPELHOS – XXI, XXII

 

VIGÉSIMO PRIMEIRO ESPELHO

 

Não sei como poderei ter sono… Passei a noite a escrever.
Tudo se tornava líquido para as minhas veias. Os objectos, do alto das suas máscaras, fitavam-me e olhavam-me como uma antiga Esfinge.
A renúncia seria o melhor remédio para me alhear.
Mas até o simples facto de afastar ou colocar uma vírgula, levava-me secretamente a uma pulsão ambígua.
Algo dessa ordem conduzia-me a uma busca intensa… uma busca obsessiva pela escrita, como algo que me queimava e me iluminava por dentro.
Que me recorde, sempre quis escrever, deixando esta marca, desenhada, como selo da minha existência.
Por exemplo quando digo: “Estou no escuro. No escuro não faz sol.”, o que isto me quer dizer?
Ora, eu não afirmo que não há sol. Apenas omito essa frase.
Isto faz-me lembrar um facto que se deu no passado.
Lembrá-lo, talvez me traga uma certa claridade…
“Pedia a uma amiga que me marcasse uma ida ao cabeleireiro… pois assim talvez começasse a entrar nos eixos… e a ser amada por outros.
Enquanto arranjava o cabelo, falei durante todo o tempo com a cabeleireira.
Estava outra, quando me vi ao espelho.
À noite, a minha mãe ralhou-me. Não aprovou.
– A frase que foi omitida é simples, como todas as realidades que estão à frente dos olhos :
“não acredites que és linda”.

Esta distante recordação deixou os seus vestígios.
Tomei horror às tesouras. E aos novelos da escrita. E aos espelhos.
Passei então a criar as minhas próprias personagens como se falasse em francês todo o tempo.
É por isso que não durmo. Às vezes aparece um tradutor.
É nessa altura que corto o meu jejum… Outras, na escrita, um recurso para amenizar a angústia de não ter sono…
Mas nem sempre o texto cumpre o seu destino …
Hoje, que não durmo, transformou-se numa ferida, mostrando-se mortífero.

Leio de Sylvia Plath – “The arrival of the Bee Box”:

A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS

Encomendei esta clara caixa de madeira
Quadrada como uma cadeira e pesada demais para segurar.
Eu diria que é o ataúde de um anão
Ou um bebé quadrado
Se não houvesse esse barulho ensurdecedor que dela escapa.

A caixa está trancada, é perigosa
Tenho de passar a noite com ela e
Não me posso afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena abertura e nenhuma saída.

Como deixá-las sair?
E o barulho que mais me apavora
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, desprezíveis, mas meu deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.

Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária

(…)

 

VIGÉSIMO SEGUNDO ESPELHO

 

Leu Kafka de um modo
nunca antes feito,
num pedaço de quarto
a enterrar os seus mortos.

 
 
_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
inédito
 

NÚMEROS

Gosto da generosidade dos números.
Do modo como, por exemplo,
desejam contar
alguma coisa ou alguém:
dois legumes em vinagre, uma porta para o quarto,
oito bailarinas vestidas de cisnes.

Gosto da domesticidade da adição —
adicione dois copos de leite e agite —
do sentido da abundância: seis ameixas
no chão, mais três
a cair da árvore.

E das multiplicações escolares
de peixes vezes peixes,
os seus corpos prateados aumentando
sob a sombra
de um barco.

Mesmo a subtracção nunca significa perda,
apenas soma em qualquer outro lugar:
de cinco pardais tiram-se dois,
os dois que estão agora
no jardim de alguém.

Há uma amplitude imensa na divisão,
dentro de uma caixa chinesa
abre-se uma caixa de papel,
dentro de cada biscoito dobrado
uma nova fortuna.

E nunca deixa de me surpreender
a dádiva de um excedente que resta,
liberto no fim de tudo:
quarenta e sete divididos por onze dá quatro,
e sobram três.

Três rapazes para além do chamamento das suas mães,
dois italianos livres do mar,
uma meia que nunca está onde a procuras.

 

_
▪ Mary Cornish
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Trocando Dólares por cêntimos” / Alguma Poesia Norte-Americana, Editora Contracapa, 2020

*

Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Professor



 

NUMBERS

 

I like the generosity of numbers.
The way, for example,
they are willing to count
anything or anyone:
two pickles, one door to the room,
eight dancers dressed as swans.

I like the domesticity of addition—
add two cups of milk and stir—
the sense of plenty: six plums
on the ground, three more
falling from the tree.

And multiplication’s school
of fish times fish,
whose silver bodies breed
beneath the shadow
of a boat.

Even subtraction is never loss,
just addition somewhere else:
five sparrows take away two,
the two in someone else’s
garden now.

There’s an amplitude to long division,
as it opens Chinese take-out
box by paper box,
inside every folded cookie
a new fortune.

And I never fail to be surprised
by the gift of an odd remainder,
footloose at the end:
forty-seven divided by eleven equals four,
with three remaining.

Three boys beyond their mother’s call,
two Italians off to the sea,
one sock that isn’t anywhere you look.

 
_
▪ Mary Cornish
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Red Studio”, Oberlin College Press, 2007

 

ALGUMA COISA NA BARRIGA

Eu queria escrever um poema e estava grávida. Estava muito magra. Como se vivesse de ar. Um poeta deve ser capaz de viver de ar, mas uma mãe nem deve tentar. A minha mãe queria que eu comprasse um conjunto de panelas de alumínio Wearever, iguais às que ela tinha. Eram pesadas e tinham tampas bem ajustadas, de forma que a comida não se queimaria. O meu marido queria que desse jantares de festa. John F. Kennedy corria para o escritório.

Eu senti o perigo. Kennedy não era contra a bomba ou pelo desarmamento nuclear. Juntei-me ao SANE no seu início. Também aos Cientistas Preocupados. Falei com Linus Pauling e incentivei o meu marido a ajudar o seu colega a organizar os Médicos para a Responsabilidade Social.

Tinha um bebé na minha barriga. Queria escrever poemas. Tinha a ideia maluca de que uma mulher poderia escrever um romance de verdade, daqueles que vão abalar o mundo. Tive alucinações de que uma mulher podia ser poeta, mas teria de ser livre. Eu não podia imaginar essa liberdade para mim, embora a pudesse ver na Isla Negra, enquanto seguia o Pablo Neruda. Eu podia reconhecê-lo na maneira como ele andava. Mesmo que estivesse a andar dentro de uma ditadura, entre armas, soldados e espiões, não havia nada entre ele e a sua visão. Qualquer coisa que visse, era capaz de apreendê-la, não havia nenhum olhar, nenhuma imagem, nenhuma visão a que ele não tivesse direito. No seu coração, tudo – tudo – lhe pertencia. Pablo Neruda era mais do que qualquer coisa – um poeta, e assim era um homem que tinha direito a tudo.

Eu era mulher e não tinha direito a nada. Eu não tinha nada além de um marido, uma casa alugada, um conjunto de panelas, móveis de sala, um frenesi de obrigações, cartões de crédito, parentes ansiosos, muitos conhecidos, um presente para um futuro serviço de fraldas, dois telefones, falta de tempo para ler, um livro de receitas embrulhado em plástico colhidas das páginas do New York Times, e uma fome, uma fome terrível pela inimaginável e ilimitada liberdade de ser poeta, e um bebé na minha barriga.

Teria telefonado ao Pablo (um telefonema de longa distância) se tivesse coragem, se soubesse falar espanhol fluentemente, se alguma vez tivéssemos falado de coisas reais. Mas, o que poderia saber um homem sobre um bebé na barriga? E o que importava se houvesse um poeta a mais ou a menos no mundo, quando tantos no seu país estavam a morrer?

Acordei uma manhã e pensei – Não posso ter esta criança. O meu marido disse, “Terás de arranjar trabalho a seguir ao parto, para podermos comprar uma casa. Vais precisar de um diploma avançado.” Pensei, eu não posso. Eu tenho de escrever poemas. A minha mãe encontrou um berço. Alguém o pintou de branco. Um amigo ofereceu-nos um espanta espíritos com mansos animais de madeira. Pensei em cortinas azuis, colchas e abortos.

Pablo permanecia silencioso. Caminhava longe de mim e eu não podia ouvi-lo. O meu marido opôs-se a prestar mais cuidados médicos gratuitos aos Panteras Negras. Tentei fazer trouxas a partir do zero e encontrei folhas de uva preservadas em salmoura no Boys’ Market a 30 km de distância. Organizei um movimento de escritores pela paz para desafiar o JFK. O meu marido achou que seria bom tomar chá com as crianças e termos jantares românticos sozinhos. Os novos frascos de leite alinhavam-se na pia como pequenas bombas. Os Estados Unidos estavam a realizar testes debaixo da terra; eu estava com medo que a radiação atravessasse a barreira do leite. Tinha um poema em mim uivando para a vida real, mas nenhuma linguagem para o escrever. O nevoeiro veio espesso, batendo ao redor dos meus pés como cobertores desenrolando-se. Fiquei com medo de ter uma filha.

Liguei para o Pablo Neruda a meio da noite, enquanto ele caminhava debaixo de água na Isla Negra. Movia-se como uma toninha de sonho. Parecia grávido de palavras. Saíam do seu pénis em longas e milagrosas cordas. As criaturas do mar tremiam de alegria. Eu disse, “Pablo, quero saber como carregar uma criança na minha barriga nesta cama de urânio e quero saber se uma mulher pode ser poeta.” Ele era grande como uma baleia. Bebeu o mar e jorrou-o em odes cintilantes, negras e lustrosas. Eu disse: “Não posso ter esta criança”, e ele riu como se nunca tivesse feito mais nada, além de carregar bebés e dar à luz .

Então arrumei a minha pequena mala como se fosse para o hospital e deixei um bilhete e as panelas Wearever e os mamilos esterilizados sobre os mísseis de vidro, e levei a mochila que um amigo índio me tinha me dado para transportar o bebé e que tinha feito o meu marido roncar- “Não vais carregar essa coisa nas costas, pois não?” Peguei em algum dinheiro, o carro, alguns livros, papel e canetas, os meus sapatos de caminhar, uma máquina de escrever elétrica da IBM, a minha barriga grávida e uma dúzia de fraldas de pano, e saí.

Eu sabia como carregar um bebé e como carregar um poema e iria aprender a dar à luz um bebé e até a dar à luz um poema. Teria leite suficiente para ambos. Aprenderia a andar com eles. Mas não sabia, e não queria saber, como ter um marido e um conjunto de panelas Wearever.

 

_
▪ Deena Metzger
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Editora Red Hen Press, 2009

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Médico



 

SOMETHING IN THE BELLY

 

I wanted to have a poem and I was pregnant. I was very thin. As if I’d lived on air. A poet must be able to live on air, but a mother must not attempt it. My mother wanted me to buy a set of matching pots, Wearever aluminum, like the ones she had. They were heavy and had well fitting lids so my suppers wouldn’t burn. My husband wanted me to give dinner parties. John F. Kennedy was running for office.

I sensed danger. Kennedy wasn’t against the Bomb or for nuclear disarmament. I joined SANE at its inception. Also Concerned Scientists. I spoke with Linus Pauling and encouraged my husband to help his partner organize Physicians for Social Responsibility.

There was a baby in my belly. I wanted to write poems. I had a crazy idea that a woman could write a real novel, the kind that shook the world. I hallucinated that a woman could be a poet, but she would have to be free. I couldn’t imagine that freedom for myself even though I could see it in Isla Negra when I followed Pablo Neruda. I could see it in the way he walked. Even if he were walking inside a dictatorship, among guns, soldiers and spies, there was nothing between him and his vision. Anything he saw, he was able to take into himself–there was no sight, no image, no vision to which he didn’t feel entitled. In his heart, everything–everything–belonged to him. Pablo Neruda was–more than anything–a poet, and so he was an entitled man.

I was a woman and entitled to nothing. I had nothing except a husband, a rented house, a set of pots, living room furniture, a frenzy of obligations, credit cards, anxious relatives, too many acquaintances, a gift of future diaper service, two telephones, no time to read, a plastic wrapped cookbook of recipes gleaned from the pages of the New York Times, and a hunger, a terrible hunger for the unimaginable, unlimited freedom of being a poet, and a baby in my belly.

I would have called Pablo long distance if I had the courage, if I had the ability to speak Spanish fluently, if we had ever talked about real things. But, what would a man know about a baby in the belly? And what did it matter if there were to be one poet more or less in the world when so many in his country were dying?

I woke up one morning and thought–I can’t have this child. My husband said, “You’ll have to get a job after it’s born so we can buy a house. You’ll need an advanced degree so you can do something.” I thought, I can’t. I have to write poems. My mother found a crib. Someone painted it white. A friend sent a pastel mobile with tame wood animals. I thought about blue curtains, making bedspreads, and abortions.

Pablo was silent. He was walking so far from me, I couldn’t hear him. My husband objected to donating more free medical care to the Black Panthers. I tried to make dolmades from scratch and located grape leaves preserved in brine at the Boys’ Market twenty miles away. I organized a write-in campaign for peace to challenge JFK. My husband thought it would be nice to have teatime with the children and romantic dinners by ourselves. The new formula bottles lined up on the sink like tiny bombs. The U.S. was pursuing over ground testing; I was afraid the radiation would cross the milk barrier. I had a poem in me howling for real life but no language to write in. The fog came in thick, flapping about my feet like blankets unraveling. I became afraid to have a daughter.

I called Pablo Neruda in the middle of the night as he walked underwater by Isla Negra. He moved like a dream porpoise. He seemed pregnant with words. They came out of his penis in long miraculous strings. The sea creatures quivered with joy. I said, “Pablo, I want to know how to bear the child in my belly onto this bed of uranium and I want to know if a woman can a be a poet.” He was large as a whale. He drank the sea and spouted it in glistening odes, black and shiny. I said, “I can’t have this child,” and he laughed as if he had never done anything but carry and birth children.

So I packed my little bag as if I were going to the hospital and I left a note and the Wearever pots and sterilized nipples upon the glass missiles, and took the cradle board that an American Indian friend had given me for the baby and that had made my husband snort– “You’re not going to carry the thing on your back, are you?” I took some money, the car, some books, paper and pens, my walking shoes, an unwieldly IBM electric typewriter, my pregnant belly and a dozen cloth diapers, and I went out.

I knew how to carry a baby and how to carry a poem and I would learn how to have a baby and even how to have a poem. I would have enough milk for both. I would learn how to walk with them. But I didn’t know, and I didn’t want to know, how to have a husband and a matched set of Wearever pots.

 

_
▪ Deena Metzger
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Ruin and Beauty: New and Selected Poems”, Red Hen Press, 2009

 

OS ESPELHOS – I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X, XI, XII, XIII, XIV, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX

 

Hoje falei com R. ,um ser humano em que as palavras  e o silêncio brilham na noite mais escura.
É a R. que dedico esta voz mais oculta esperando nela a minha conversão.

 

PRIMEIRO ESPELHO

 

Quase a rebentar, as imagens soltavam-se num íntimo silêncio de escuta.
E eu ia percorrendo traumas, que vinham à superfície, deste tempo de confinamento.
A consulta a que fui, de vigilância, deixou-me nua, deitada numa marquesa e com máscara.
– Uma imagem a que nunca tinha assistido de mim própria.-
Senti a humilhação de um corpo observado à lupa.
Apetecia-me chorar, arrancar as lágrimas com pinças. Mas de nada me valeria.
Ninguém as poderia ver, só eu e a máscara.
O médico, delicadamente, ir-se-ia afastando até à sua secretária para um jardim proibido, herdeiro da visão de estrelas  semeadas num corpo.

(…)

 

SEGUNDO ESPELHO
 
Em um outro dia , quando já quase atingia a porta principal do prédio por onde iria  sair
sou tomada de assalto por uma daquelas figuras , quase de ficção,  com uma ferramenta de desinfeção,  virada para o alto , numa das mãos escondidas pelo branco.
Todo ele era espacial.
Tentei entrar em contacto, mas essa figura fechava as perguntas com um “ não posso dizer”.
Senti-me aflita, numa aterragem forçada sem qualquer preparação física ou emocional.
Apenas fiquei a saber que ia para o quinto andar. Senti-me excomungada pelo meu planeta.
Lá fora, as cores amarelas de uma ambulância e de um automóvel com um médico a bordo esperavam o inquilino do quinto andar.
Optei por sair pelas traseiras do prédio  na tentativa de  diminuir esta visão.
Era-me impossível, as imagens buzinavam cá dentro , não paravam. Era uma agonia dolorosa,
como um cão espancado sem ninguém ver.
Para me tranquilizar liguei para o quinto andar. Fui desacolhida por alguém, que na altura não identifiquei, e  que ouvi do lado de lá  com uma voz atirando pedras ao meu coração.
Afinal um AVC  e uma cegueira total, aos 98 anos, é trivial e não merece, no dizer de quem me atendeu, uma   pequena atenção.
Aqui, como uma mendiga,  entendi  todas as palavras afogadas numa  música  impossível .
O arquitecto, dos anos e de profissão, vive agora numa cadeira de rodas, vê a escuridão à beira do abismo.
Um dos filhos compara-o a um condenado que se recusa a dar o salto para o Desconhecido.

(…)

 

TERCEIRO ESPELHO
 
Alguém, num domingo à tarde, toca à campainha.
Espreito pelo olho da terceira visão da porta. Vejo um homem que parece ser o vizinho do lado, mas de máscara que quase lhe tapa os olhos.
Rapidamente abro a porta para o atender.
De repente sem nenhuma fala, os olhos de fogo  e o resto da face vermelha,  eis de facto  o vizinho.
Sinto-me agarrada pelo braço enquanto me entrega as chaves do elevador.
Perplexa, não habituada a estes diálogos presos na garganta, fico estacionada mediante
uma pergunta que atabalhoadamente é proferida.
Dir-lhe-ia, se ele entendesse a sua confusão, que o sol moraria no quinto andar, o mesmo do arquitecto.
Mas limitei-me a apontar com  a mão direita , lenta e cuidadosamente, a direcção exacta do meu estremecimento para o apartamento inferior.
Diria então a R. , que não  o disse: “Levanta-me do chão que sou uma criança  perdida num  jardim de outono.
Percebo o meu medo de estar tudo louco. Ou não.
Mas sei que estou fora da cena. Talvez viva no Coração das moradas do Abandono.

(…)

 

QUARTO ESPELHO
 
penso na madrugada em que ela saiu do paraíso
o corpo florescendo de águas e a chuva abandonando
os muros
alguém que a observasse a uma distância razoável
diria que a sua pequeníssima face
trazida pelas ondas luminosas do escuro
vinha acompanhada do êxtase das algas

havia noites em que a única coisa existente
era a voz do vento numa mão coberta de relâmpagos

recordo
em pedras verdes muito verdes
muito fundas
a forma pura de abandono
um coração misterioso
com sua máscara de fogo

(…)

 

QUINTO ESPELHO

(A queda)
 
Uma mulher vestiu-se de mulher e ficou invisível.
Uma outra caiu dum corpo e despedaçou-se na Terra.
Uma criança descobriu a morte
num pássaro
ferido.

 

QUINTO ESPEJO

(La caída)

 

Una mujer se vistió de mujer y quedó invisible.
Una otra cayó de un cuerpo y se despedazó en la Tierra.
Una niña descubrió la muerte
en un pájaro
herido.

(…)

 

SEXTO ESPELHO

(Espelho incendiado)

 

estamos numa gruta de fogo _______  crisálida d’Ele
onde todos os nomes se apagam

extraordinário silêncio o desta Hora
a encher-nos a boca de ouro

(…)

 

SÉTIMO ESPELHO

 

estrelas afogadas ___ vozes frágeis
atravessam os meus pulsos ___entram no deserto

os pés compondo o sangue no lugar da morte
tanto que fazer ___coração da noite___água
desesperada

(…)

 

OITAVO ESPELHO

 

guardei o teu nome no sudário das estrelas

esta noite, disse-te:

as mães cantam ___ repletas de pedras preciosas
sílabas queimadas ___em um céu de sóis

(…)

 

NONO ESPELHO

( Iniciação )

 

De ti farei um Rei através de um grão de areia.
Colocarei em teu aposento um Vaso de Silêncio.

(…)

 

DÉCIMO ESPELHO

 

A noite, fecha-se.
De si mesma cai.

Procura o jardim amado onde sempre fui.
Onde me perdi, não sei.

(…)

 

DÉCIMO PRIMEIRO ESPELHO

( A obscuridade do Ser )

 

Toda a noite escuto a terrível luminosidade do silêncio.
E é sempre a sombra das perguntas que me faz sentir o desejo de
querer entrar.
A casa, habitada por anjos e  outros seres,
prepara o espaço para me sentir uma criança amada.
Vejo ao meu redor vozes de um âmbar pleno de formas.
O som distribui-se pelas imagens e vai para todos os poros da pele.
O meu corpo é um sigilo que engole a solidão da noite enorme.

A luz derramada sobre os espelhos reflectidos na minha escrita
vem de uma linguagem cifrada, quase perdida.

Estou assente sobre frases que me foram concedidas
e penso na pedra do vento.

Passo a passo,
os meus braços procuram um refúgio no cavalo das nuvens.

Estou mais perto do outono, quase nua,
quero dizer : “queria entrar dentro da luz
para lembrar nenhum nome”
.

(…)

 

DÉCIMO SEGUNDO ESPELHO

 

Queria escrever num espelho perfeito mas estava grávida de sangue.
O seu corpo estava todo manchado. Falava de crianças perdidas
no meio dos bosques.
O menino que trazia ao colo era o vento e a morte.
Vi essa mulher que escrevia com o sangue de Cristo:
o único sangue que existe e não existe.

(…)

 

DÉCIMO TERCEIRO ESPELHO

Mamã

 

a filha que morreu vive em lesbos
não há por onde respirar___o fumo desenha figuras
de bonecas de pálpebras fechadas
por favor vê como as pequenas caveiras estão pintadas

deve ser a floração do outono___à entrada dum templo
com centelhas de fogo em terra vermelha

toda a noite escuto vozes num leito de ouro
toda a noite escrevo numa flor que treme
na tua voz

tenho de fazer alguma coisa

(…)

 

DÉCIMO QUARTO ESPELHO

 

alguém entra___anuncia-se no mar
desnuda-se na água___desconhece o paraíso

um anjo dorme em silêncio no seu ventre
– coisas que parecem impossíveis –

coisas que se perdem por causa
dos seus nomes

(…)

 

DÉCIMO QUINTO ESPELHO

 

debaixo do teu nome
estou eu
não estou eu

resta-me senão servir o belo

(…)

 

DÉCIMO SEXTO ESPELHO

 

À roda da água do teu nome
na mortalha da Noite
as estrelas caem com a forma de uma nascente.

Dos teus ombros tombam sonhos
incrustados de cicatrizes e diamantes.

E no entanto quando o coração estende as suas redes
os rostos tristes, como os rostos dos cegos,
afundam-se num barco
repleto
de
espelhos.

(…)

 

DÉCIMO SÉTIMO ESPELHO

 

esta noite rezarei por Marylin
uma mulher que estendeu a mão a cegos
com a vacina do riso

encontrei no seu coração
um poço de petróleo

regista aí!

Malditos! “,
para uso público.

(…)

 

DÉCIMO OITAVO ESPELHO

 

Quando a minha mãe morreu
eu pensei: “já não morrerá outra vez.”
E afirmei para cada uma das minhas mãos:
“inúmeros são os que estão contigo,
não contando com os meus escritos.”

Então o meu sangue começou a agitar-se
com a experiência de cada letra.
E escrevi mil poemas sem parar,
o que ainda não terminou.

(…)

DÉCIMO NONO ESPELHO

(moradas)

 

há alguém aqui que treme
aqui há alguém sem nome
aqui tudo começa
tudo acontece

o vento tem o nome do deserto

o vento quer salvar o vento
a sua última palavra é o silêncio

pedras negras
pedras negras na casa da noite

(…)

 

VIGÉSIMO ESPELHO

 

com cinco anos aprendeu que estava só
_________ficava com os séculos e um quarto
onde podia arrumar os pés
pensava: o universo é mais perfeito com os mortos
os seus cabelos foram raptos
de Rimbaud

a noite é uma maçã podre que sobra do inferno

(…)

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
inédito

*

Quinto espelho” mudado para castelhano por _ Arturo Jiménez Martínez 🇲🇽  Poeta, tradutor e biólogo.

VELHO POETA

Recebi tudo de vós:
Prêmios, honrarias, reconhecimento.

Renderam-se a meus méritos, com unânime aplauso,
as difíceis portas da Academia.

Os jovens me chamam mestre e procuram emular-me.

Com a idade logrei domesticar o tigre
que levo dentro; ser cortês,
amável, agradecido.

E, orgulhoso, em meu peito sustento as medalhas
das mais altas distinções.

Medalhas…
_____________ ¡Infantis miçangas,
desapiedados cencerros da glória!

Quanto, quanto daria para ser torpe, inexperiente,
maravilhado, jovem balbuciante
com todos os poemas pela frente.

 

_
▪ José Luis Parra
(Espanha 🇪🇸 )
in “De la frontera”,València, Pre-Textos, 2009

*

Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



 

VIEJO POETA

 

He recibido todo de vosotros:
premios, honores, reconocimientos.

Se han rendido a mis méritos, con unánime aplauso,
las difíciles puertas de la Academia.

Los jóvenes me llaman maestro y procuran emularme.

Con la edad he logrado domesticar al tigre
que llevo dentro; ser cortés,
amable, agradecido.

Y, orgulloso, en mi pecho ostento las medallas
de las más altas distinciones.

Medallas…
_____________   ¡Infantiles abalorios,
despiadados cencerros de la gloria!

Cuánto, cuánto daría por ser torpe, inexperto,
maravillado, joven balbuceante
con todos los poemas por delante.

 

_
▪ José Luis Parra
(España 🇪🇸 )
in “De la frontera”,València, Pre-Textos, 2009