Ausencia

No hay flores.
Nieva.

Solo nieva.

Nieva.
Nieva.

 

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▪ Maria Azenha
(Portugal 🇵🇹)
in “La casa de leer en lo oscuro”,
Traducción de José Ángel Cilleruelo (🇪🇸), Edición bilingüe, Ediciones Trea, España, 2019



Versão original

 

░ Ausência

 

Não há flores.
Neva.

Apenas neva.

Neva.
Neva.

 

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▪ Maria Azenha
(Portugal 🇵🇹)
in “La casa de leer en lo oscuro”, Tradução José Ángel Cilleruelo (🇪🇸), Edição bilingue, Ediciones Trea, Espanha, 2019

Mudança

Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Selecção e Tradução de Marco Bruno, Editora Tinta da China, Lisboa, 2017

Papel de jornal

Este poema começa nas escadas de um prédio abandonado,
um grupo de rapazes em poses pouco ou nada coreográficas
de tão inevitáveis que são os gestos
dobrados sobre a seringa,
à procura da veia mais saliente, roxa
de tanto procurarem o azul, a flor
que desabrocha à sombra das raparigas.
Apenas uma os acompanha pela cidade,
pelos desvios prematuros;
as demais estiolam diante do mar.
Este poema começa na cozinha de uma casa suburbana, as mãos,
de uma mulher recém-casada, depostas numa bacia amarela;
na sala, o zumbido de uma mosca, um homem
que cambaleia até ao sofá.
Do lado de fora da vidraça uma criança arrasta uma boneca
pelo chão.
Este poema segue uma família, em tumulto, no meio da estrada
enquanto um buldozzer se prepara para demolir a casa,
ilegal e dissonante.
Este poema, na cidade de ruas que desaguam no mar, continua
por uma que termina abruptamente num muro.
Suja os dedos com papel de jornal,
aceita o empurrão das vendedoras de flores,
ajuda as peixeiras a levantarem a canastra.
E é tão útil como um solo de trompete
no Verão.

 

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▪️ Jorge Gomes Miranda
(Portugal 🇵🇹)
in “Este mundo, sem abrigo”, Relógio D’ Água, 2003

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

 

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▪️Rogel Samuel
(Brasil 🇧🇷)
_ inédito _