O SR. ESPÍRITO SANTO E A MINHA PORTEIRA

Os poetas nunca deviam escrever coisas verdadeiras.
As coisas verdadeiras só servem para rir.
Por exemplo, quando digo que a minha musa é a virgem maria
estou a falar de um movimento futurista.
Ela está sempre a escrever e a pensar com uma pomba em cima da cabeça.
O marido,  S. José , trabalhava para o espírito santo,
era carpinteiro, e está sempre a dormir.
S. José é onde está internada a minha porteira
que nunca engravidou por não ter encontrado o porteiro.
Eu bem avisei!
Os poetas nunca deviam escrever coisas verdadeiras.
As coisas verdadeiras são para pendurar nas orelhas.
Vejam só!
A minha porteira nunca se avistou com a minha porteira,
-desencontraram-se –
Nenhuma delas faz horas extraordinárias.
Enquanto uma limpa o chão do espírito santo
a outra lava as mãos da padeira de aljubarrota.
O menino jesus
(o do carpinteiro)
foi parar a casa dum banqueiro que seguiu o exemplo
da minha porteira
que nunca se encontrou com a minha porteira.

E foi para sempre.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in ” Livro do absurdo ”

DO LIVRO DAS MEDITAÇÕES

Portanto farei uma escada no coração.
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo.
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavras
Em silêncio, portanto, pisando o coração.

 

▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”

ANIVERSÁRIO

Hoje fazes anos, Mãe,
não de ter nascido mas de ter morrido.
Não quero fazer contas para saber quantos.
Não é preciso, não te vamos acender velas num bolo
nem cantar os parabéns.
Vamos lembrar-te de ti, eu e os teus netos,
como algo que desapareceu do Universo
que, sem ti, se tornou imperfeito e incompleto.
Só então ficámos mesmo a saber
o que morrer quer dizer
– e como faz doer!
Foi-se a última infância
para os que de nós ainda mantinham essa pele
– as cobrinhas mais jovens da família.
A minha tinha ficado esfarrapada
no arame farpado do exílio
e também dos amores imperfeitos
e desfeitos.
Sei que não morreste infeliz
porque, três meses antes, anunciaste:
“Quero viver ainda mais dez anos!”
O Tempo não te fez a vontade.
“Amaldeçoado!” – se diz na nossa terra algarvia
donde nunca saíste, apesar de teres andado comigo pelo mundo.
Agora onde estarás?
Juro-te que para lá partiria agora mesmo
se soubesse o teu endereço!
Há tanto tempo que não dás notícias!
É a única coisa que me espanta em ti
e não consigo entender nem perdoar!
Será que a morte é o fim?
Mas contigo não deveria ser assim!
Sorrio:
Talvez que esta rima a brincar
Sejas tu a mandar-me sorrisos e beijos!

 

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▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

 

SAI DE CASA

Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,
Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.

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▪ Manuel Resende
( Portugal 🇵🇹 )

AUSCHWITZ

Porque e ainda, ainda perdura no discurso de Duma
uma exacerbada violência
acusatória
de impropérios de dilaceração e
despedaçamento — em que o filho a mãe acusa
de ser a tempo inteiro, de ser
Mãe mais que mulher ou amante
amanhecida — aquém e além da luz do dia: a acusa de ser
seu natural direito separar de si o filho. — Somos
programados para nos dissolvermos na origem
em que, por fim, o pó chorará “de alívio”.
Que significado terão hoje os
recentes Anjos da Noite
na claridade e crueldade espantosas
de uma sem lua: ausência sem retorno,
numa dor sem sinal de emoção; de graça e empatia?

 

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▪ Eduarda Chiote
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘NERVO / 13 – colectivo de poesia’, Editora Maria F. Roldão, janeiro-abril, 2022