POEMA DA INVISIBILIDADE DAS ARANHAS

Sou uma poeta invisível.
Trabalho um alfabeto invisível.
Escrevo livros invisíveis.
Pinto telas invisíveis.
Cruzo ruas invisíveis.
Vejo mendigos invisíveis que
pedem esmolas invisíveis.
Conheço professores invisíveis que
ensinam em escolas invisíveis.
Tenho amigos invisíveis
que vivem em cidades invisíveis
que têm filhos invisíveis.
A minha mãe morreu invisível.
O meu pai tornou-se invisível.
Amo um homem invisível.
Os dias são invisíveis.
Os espelhos dão anos invisíveis.
As luzes nascem de noites invisíveis.
As pessoas pensam coisas invisíveis
em jaulas de tempo invisível.
Os loucos bebem remédios invisíveis.
Os místicos contemplam aranhas invisíveis.
A minha alma é um cavalo invisível.
As redes sociais são barcos invisíveis.
Todo o meu tempo é gasto com um país invisível.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito

2.

É de noite que ele dança, fulgurante
e ébrio, como uma espada de sangue
no deserto. A cidade esvazia-se nas casas,
inventa uma árvore morta, um sonho circular
que se escoa num novelo, entre os dedos.
E quando a noite finda e os homens ressuscitam,
ele transporta uma tábua dentro do peito
como um vírus roendo o seu próprio ninho.

 

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▪ Jaime Rocha
( Portugal 🇵🇹 )
in “Extermínio”, Relógio D’ Água, Lisboa, 2003
 

POEMA DE AMOR

Há algo sempre a ser feito de dor.
A tua mãe faz malha.
Produz cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal e aqueciam-te
enquanto ela se fartava de casar, levando-te
consigo. Como podia resultar
quando, naqueles anos todos, ela arrecadou o seu
____________________________[coração viúvo
como se os mortos voltassem.
Não surpreende que sejas como és,
com medo do sangue, parecendo as tuas mulheres
uma parede de tijolos após outra.

 

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▪ Louise Glück
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Descending Figure”, Ecco Press, Nova Iorque York, 1980

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático


LOVE POEM

 

There is always something to be made of pain.
Your mother knits.
She turns out scarves in every shade of red.
They were for Christmas, and they kept you warm
while she married over and over, taking you
along. How could it work,
when all those years she stored her widowed heart
as though the dead come back.
No wonder you are the way you are,
afraid of blood, your women
like one brick wall after another.

 

_
▪ Louise Glück
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Descending Figure”, Ecco Press, New York, 1980

 

LAGOA

E o anjo disse então: vou revelar-te
o que pintam agora os mestres antigos. E
levou-me a outra sala e mostrou-me uma
paisagem: uma lagoa de águas verde-azuladas, com
vestígios de um naufrágio e uma multidão em cada
margem.
Quem são, perguntei; porque choram.
Os que nasceram no século da morte da
morte, respondeu; os que nunca mais poderão
atravessar para o outro lado.

 

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▪ Abraham Gragera
(Espanha 🇪🇸 )
in “El tiempo menos solo”, Editorial Pre-Textos, Valencia, 2013

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, Tradutora e Professora.

Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: Metade do Mundo Mudanças & Cia


 
LAGUNA

 

Y el ángel dijo entonces: te enseñaré qué
pintan ahora los maestros antiguos. Y
me llevó a otra sala, y me mostró un
paisaje: una laguna de aguas verdiazules, con
huellas de un naufragio, y una multitud en cada
orilla.
Quiénes son, pregunté; por qué lloran.
Los que nacieron en el siglo de la muerte de
la muerte, respondió; los que ya nunca podrán
cruzar al otro lado.

 

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▪ Abraham Gragera
(Espanha 🇪🇸 )
in “El tiempo menos solo”, Editorial Pre-Textos, Valencia, 2013

 

RECORDAÇÃO MAIS ANTIGA

Há muito tempo, eu estava magoada. Vivia
para me vingar
do meu pai, não
pelo que ele era—
por aquilo que eu era: desde o início,
na infância, pensava
que a dor indicava
que não me amavam.
Indicava que eu amava.

 

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▪ Louise Glück
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Ararat”, Ecco Press, Nova Iorque, 1990

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático



FIRST MEMORY

 

Long ago, I was wounded. I lived
to revenge myself
against my father, not
for what he was—
for what I was: from the beginning of time,
in childhood, I thought
that pain meant
I was not loved.
It meant I loved.

 

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▪ Louise Glück
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Ararat”, Ecco Press, New York, 1990