A ESCRITA DAS ÁGUAS

Arrancado o primeiro fruto nenhuma data é fiel.
Para a sua margem correrá o rio numa carta de inverno
ou a festa das águas.
E sob o trovão e a chuva e o clarão da memória
já o peito do Homem se feriu.
A ave caminha por um ofício de pedras e, súbita,
a mão se dirige para o cume do fogo: uma busca cruel.
Também o vento empunhará a sua espada de lume,
a sua noite nos cachos d’inverno, e ainda um gesto
caminhará por uma seta de dúvidas.

Toda a Noite é enorme e um crime, um fulgor,
mapa de fendas, égua de cinzas.

Pelo porte secreto da luz, tombará
a árvore e uma pedra antiga do Sol.

Lembra-te:

Arrancado o primeiro fruto,
nenhuma data é fiel.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
In “Madrugada 3 “, 1982
Movimento de Escritores Novos

A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito ou passe

Subsolo

A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo.

Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Nãos se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também.» E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.

Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros—chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.

Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem.

s.d.

 
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▪ Fenando Pessoa
( Portugal 🇵🇹 )
in “Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética – Fragmentos do espólio.”
Fernando Pessoa- (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985.
“Subsolo”

CARTA DA INFÂNCIA


Poesia dita por Fátima Murta

 

 

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

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▪ Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético” Sá da Costa, 1998 (3ª ed.)

POEMA DA MORTE NA ESTRADA

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

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▪ 
António Gedeão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas Escolhidos” – Edições João Sá da Costa, 1996

SILÊNCIO INTACTO

Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insetos,
a linguagem perfumada das flores.

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▪ Albano Martins
( Portugal 🇵🇹 )
in “Antologia Poética”

Poesia de Ana Soares

Ana Soares nasceu a 29 de outubro de 1900. Casou em 1924, tendo enviuvado em 1930.
Durante quinze anos escreve a sua pequena obra literária, vindo a falecer em 1945.
Uma tia entrega todos os escritos “cartas e poemas” a uma amiga de Ana Soares. Esta fica com a incumbência de os publicar, o que não veio a acontecer.
Por razões que só o Destino conhece, vieram ter às mãos de Maria Azenha todos os seus poemas e cartas com a nota de serem publicados.

POEMA XVIII

Nenhum poema é verdadeiro,
Nenhum poema é falso,
Finge ser só companheiro.
O Poeta é um percalço.

Ana Soares

POEMA XIX

É a vitória dum rei
Que me segreda ao ouvido
Um eco do que sonhei,
Um porto que achei perdido.

Que música ele me vem dar?
Que harpa me pôs nos dedos?
Sou uma estrangeira a tocar
No leque dos seus segredos.

Ana Soares