A VELHICE ENSINOU-ME ALGUMAS COISAS

A velhice ensinou-me algumas coisas.
E algumas coisas devem ficar claras.
Estou do lado dos que perdem.
Dos humilhados.
Dos que sofrem.
Dos abandonados.
Os vencedores quase sempre esmagam.
Em minha vida já perdi quase tudo.
E quase tudo foi um milagre aberto ao Nada.
Sei o que é passar fome. Sei o que é chorar noites inteiras.
Sei o que é estar aqui para que uma árvore não nasça fora da Terra.
Sei o que é ser mulher e invisível ao mesmo tempo.
Sei o quanto custa olhar um crucificado
E ficar cega de repente.
As igrejas contemplam-no e aplaudem-no
Em comunidades de grande ferocidade.
E mantêm-no acorrentado a um qualquer animal
No chão do quarto,
Como um Deus doméstico para uso interno,
Ou para ter orgasmos místicos na capital da Realidade.

Eu sou ateia. Conscientemente ateia.
Amorosamente ateia.
Visceralmente ateia.
Vulneravelmente ateia.
Abandonadamente ateia.
Tranquilamente ateia.

Que faria eu da minha vida se tivesse permanecido crente?
Certa vez um homem à beira da morte confessou-me
Que Deus era a mulher que ele nunca encontrou.
Ele fez-me ver que Deus é o maior Ateu que fez descer Deus da Cruz.
E é mulher.
Porque só o Amor nos torna vulneráveis.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

ALVOS

Eu não vou dar um tiro
na cabeça, não vou dar um tiro
nas costas, não me vou enforcar
com um saco do lixo, e se o fizer,
prometo-te, não o fazer
num carro da polícia, algemado,
ou na cela da prisão de uma cidade
de que só sei o nome,
porque tenho de atravessá-la
para chegar a casa. Sim, eu posso estar em risco,
mas prometo-te, confio mais nos vermes
que vivem por baixo do soalho
da minha casa para fazerem o que devem
a qualquer carcaça, do que confio
num representante da lei
para me fechar os olhos como um homem
de Deus, ou para me cobrir com um lençol
tão limpo que a minha mãe poderia tê-lo usado
para me aconchegar. Quando me matar, vou
fazê-lo como a maioria dos americanos,
prometo-te: fumo de cigarro
ou engasgar-me com um pedaço de carne
ou sem dinheiro, congelado,
num desses invernos que recordamos
como o pior dos invernos. Prometo-te, se ouvires dizer
que morri em qualquer lugar perto
de um polícia, foi esse polícia que me matou. Retirou-me
do meio de nós e deixou o meu corpo, que vale mais,
não importa aquilo que nos ensinaram,
do que a indemnização
que uma cidade pode pagar a uma mãe para ela parar de chorar,
e é mais bonito que a nova bala
pescada entre as circunvoluções do meu cérebro.

 

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▪ Jericho Brown
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “The Tradition”, Copper Canyon Press, 2019

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

Bullet Points

 

I will not shoot myself
In the head, and I will not shoot myself
In the back, and I will not hang myself
With a trashbag, and if I do,
I promise you, I will not do it
In a police car while handcuffed
Or in the jail cell of a town
I only know the name of
Because I have to drive through it
To get home. Yes, I may be at risk,
But I promise you, I trust the maggots
Who live beneath the floorboards
Of my house to do what they must
To any carcass more than I trust
An officer of the law of the land
To shut my eyes like a man
Of God might, or to cover me with a
sheet
So clean my mother could have used it
To tuck me in. When I kill me, I will
Do it the same way most Americans do,
I promise you: cigarette smoke
Or a piece of meat on which I choke
Or so broke I freeze
In one of these winters we keep
Calling worst. I promise if you hear
Of me dead anywhere near
A cop, then that cop killed me. He took
Me from us and left my body, which is,
No matter what we’ve been taught,
Greater than the settlement
A city can pay a mother to stop crying,
And more beautiful than the new bullet
Fished from the folds of my brain.

 

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▪ Jericho Brown
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Tradition”, Copper Canyon Press, 2019

LAÇO DE SANGUE

tu trazes a peste na língua
o deus velho que pediu ao pai o sacrifício do filho
o mesmo que não diferenciou crianças e demônios em
Sodoma.
tu trazes algemas no sangue
uma ponte vermelha que liga teus músculos ao caos.

já não há tempo para a infância
envelhecemos em algum ocaso distante
agora somos feitos de pó
e qualquer vento nos guia.

tu trazes o corpo infectado
os olhos furados de Édipo
o amanhecer engatinhando em direção ao abismo.
tu trazes a loucura dos deformados de alma
dos que se enraízam no céu por temor à queda.

estamos rasgados pelos desastres
nossas línguas de loucos estão sedimentadas pela areia de
todos os dias.

tu trazes as canções dos anjos libertando o apocalipse
o fiapo de carne arrancada do dente do Cérbero
tu trazes as feridas que não se estancam
as chagas nascidas sem luz
algo sempre morto em ti.

 

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▪ Tiago Fabris Rendelli
( Brasil 🇧🇷 )
in “Terra Seca”, Editora Urutau, Bragança Paulista SP-BR, 2017

SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

 

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▪ Antonio Cicero
( Brasil 🇧🇷 )
in “A cidade e os livros”, Editora Record, Brasil RJ, 2002