Arte poética com melancolia

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo
como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem
as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita
primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro
palavras de dentro do que penso e do que faço, como
se elas pudessem viver aí, peixes verbais no
aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem
da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;
quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem
o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,
e servem de alimento a outros que as leem como se, nelas,
estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me
das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,
de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e
vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços
a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É
então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das
palavras que te descrevem, hesita numa das entradas
do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome
com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra
portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens
inúteis que me separaram de ti.

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

ÀS VEZES

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.

 
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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

 

SE UM QUARTO SE PODE ABRIR PARA O SONHO

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho
cobertor. Então o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.

 
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▪Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “«Fórmulas de uma luz inexplicável», D. Quixote”
 

░ Bebendo vinho com alguns contemporâneos

Os malefícios da multidão.
As sequóias sequiosas na sequência das secas.
As consequências de um choro na configuração do rosto.
A erva destrói o exterior da moradia.
O tédio é fraca compensação dos compromissos.

Que dizeis a este fim de caminho, onde o escritor recupera
a verdadeira solenidade da Afirmação?
Não conheço outro modo de escrever, isto é,
de substituir ao arrojo invertebrado da juventude
a coragem de uma lúcida conveniência. Assim,
renuncio ao pessimismo em proveito de outros sentimentos
mais fecundos – o nojo, o orgulho, o desejo nunca satisfeito.

Se acaso me ouvis
– não terei eu razão?

 

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▪Nuno Júdice
(Mexilhoeira Grande, n. 1949)
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

░ Contraluz

A luz do fundo imprime o seu perfil
com a nitidez de um acordar em Setembro,
sentindo o ar frio do outono contra
as faces rosadas. No entanto, é como se
tivesse mil anos na sua alma, mil…
gavetas de recordações que não quer
abrir, deixando para outros o trabalho
de descobrirem, num ou noutro papel,
os apontamentos de um tempo em que
foi livre. Agora, deixa para trás de si
o dia, o brilho da manhã, o voo dos
enxames que abandonam o continente,
e que desejaria seguir para onde não
tivesse de voltar. Ficará fechada
na moldura de uma obscura sala, e
lentamente a madeira que a prende ir-se-á
desfazendo. Ela, no entanto, não perde
a altivez, e entrega-se à eternidade efémera
de quem a vê para logo a esquecer.

 

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▪ Nuno Júdice
(Mexilhoeira Grande, n. 1949)
in “O Fruto da Gramática”, D. Quixote, Lisboa, Setembro, 2014