░ Bebendo vinho com alguns contemporâneos

Os malefícios da multidão.
As sequóias sequiosas na sequência das secas.
As consequências de um choro na configuração do rosto.
A erva destrói o exterior da moradia.
O tédio é fraca compensação dos compromissos.

Que dizeis a este fim de caminho, onde o escritor recupera
a verdadeira solenidade da Afirmação?
Não conheço outro modo de escrever, isto é,
de substituir ao arrojo invertebrado da juventude
a coragem de uma lúcida conveniência. Assim,
renuncio ao pessimismo em proveito de outros sentimentos
mais fecundos – o nojo, o orgulho, o desejo nunca satisfeito.

Se acaso me ouvis
– não terei eu razão?

 

__
▪Nuno Júdice
(Mexilhoeira Grande, n. 1949)
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

░ Contraluz

A luz do fundo imprime o seu perfil
com a nitidez de um acordar em Setembro,
sentindo o ar frio do outono contra
as faces rosadas. No entanto, é como se
tivesse mil anos na sua alma, mil…
gavetas de recordações que não quer
abrir, deixando para outros o trabalho
de descobrirem, num ou noutro papel,
os apontamentos de um tempo em que
foi livre. Agora, deixa para trás de si
o dia, o brilho da manhã, o voo dos
enxames que abandonam o continente,
e que desejaria seguir para onde não
tivesse de voltar. Ficará fechada
na moldura de uma obscura sala, e
lentamente a madeira que a prende ir-se-á
desfazendo. Ela, no entanto, não perde
a altivez, e entrega-se à eternidade efémera
de quem a vê para logo a esquecer.

 

__
▪ Nuno Júdice
(Mexilhoeira Grande, n. 1949)
in “O Fruto da Gramática”, D. Quixote, Lisboa, Setembro, 2014

░ Descrição de um lugar

Sou um reflexo no vidro. Olho-me
Fixamente, e o poema capta-me nesta atitude.
Pudesse eu conhecer-me como se conhece
o poema…
Deixo um retrato de mim, morto,
há um ano por esta altura. Que me aconteceu,
entretanto? De quem é este corpo
que me é estranho, pálido habitante de um movimento
indeciso e aparente? Quem sinto quando me toco,
quem me dorme, quem me pensa,
quem me escreve? O meu rosto encobre um pronome. Vivo
uma sintaxe corrupta no patamar marítimo
do mito. Quem me impede o sentimento? Quem me abre
um caminho que não sigo, condenado a outro
de mim próprio?
No entanto, estou aqui. Entre mim e o poema,
opaco a ambos, sem nada para dizer.

 

__
▪ Nuno Júdice
(Mexilhoeira Grande, n. 1949)
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999