QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ

Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exacto de
onde pudesse explorar sua profundidade.

Foi diferente com as pessoas:
Construi-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,
por vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.

 

_

▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
Poesia mudada para português por João Luis Barreto Guimarães

PRISIONEIROS

Os prisioneiros
culpados ou não
têm sempre o mesmo ar quando são libertados:
patriarcas destronados.

Aquele acabou de atravessar o portão
de cabeça pendida apesar de não ser alto
gestos iguais aos de um beduíno
ao entrar na tenda
que acartou às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a lima queimada
fazem-no recuar ao momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia penduraram o seu lençol no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
após a morte de núpcias.

Rostos deslustrados pelo sol
Rodeiam-no, só olhos e ouvidos:
«Com que é que sonhaste ontem à noite?»
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminho
sacralizado pelos seus trechos em falta.

A irmã ainda está a descobrir os seus hábitos estranhos:
os nacos de pão escondidos em bolsos e debaixo da cama
o rachar incessante da lenha para o inverno.

Porquê este medo?
Que poderá ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
Mas ser-se incapaz de escolher.

 

_
▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
in “Lacrau” – Traduções e Versões de Poesia, Língua Morta, Lisboa, 2021

*

Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹  Tradutor e Poeta 

 

░ O MISTÉRIO DAS ORAÇÕES

Na minha família
as orações eram rezadas secretamente,
em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor;
quase murmuradas,
com um suspiro no princípio e no fim,
fino e limpo como uma gaze.

Junto à casa
havia apenas uma escada para subir,
de madeira, encostada à parede o ano inteiro,
de modo a reparar o telhado em Agosto, antes das chuvas.
Mas, em vez de anjos,
subiam e desciam homens
sofrendo de ciática.

Rezavam-Lhe olhos nos olhos,
na esperança de renegociar os seus contratos
ou adiar os respectivos prazos.

“Senhor, dá-me forças”, nada mais,
pois eram descendentes de Esaú,
abençoados com a única bênção que restara de Jacob
– a espada.

Na minha casa
a oração era considerada uma fraqueza
que nunca se devia mencionar,
tal como fazer amor.
E, tal como fazer amor,
era seguida pela assustadora noite do corpo.

 

_
▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia, n. 1968)
in “Telhados de Vidro n.º 22”, Averno, Lisboa, 2017

Mudado para português por _Inês Dias_ e _Marjeta Mendes_