MÃOS DE PEDRA

 

 Queria a noite sempre ao meu lado
E um barco onde reclinar a cabeça
Queria sempre o braço de minha mãe
A baloiçar as amarras que me prendem
Às marés
 
E as minhas mãos são grandes
E pesam como um rochedo
Como a espada suspensa
Sobre a minha boca
 
E a minha alma é pequena para gritar
O nome dos navios
 
O nome de todos os navios
O nome dos navios o nome
Dos meus amigos.

 

Daniel Faria
(1971 – 1999)
in “Poesia”

DO LIVRO DAS MEDITAÇÕES

Portanto farei uma escada no coração.
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo.
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavras
Em silêncio, portanto, pisando o coração.

 

▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”