░ A mãe é a grande noite

Aqui o tempo está atado com camisa de força:
é vento subjugado
que escreve o mesmo nome a giz sobre o muro.
Tudo aqui está dentro, neste grande ventre
pleno de homens sem mãe.
A mãe é cada dose de trifluoperazina
que enche de saliva nossos lábios.
Quando aproximo meu ouvido das paredes
querendo ouvir o pranto dos que ainda amam
somente ouço meus chiados. Minha escura dissonância.
O coração do medo
cantando sua monótona toada.

 


▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
in ‘Los habitados’, Colección Visor de Poesía, Visor Libros, Madrid, 2017

*

Mudado para português por _ Gustavo Petter _ Poeta, Tradutor, Professor / Araçatuba/SP, Brasil
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ LA MADRE ES LA GRAN NOCHE

 
 

Aquí el tiempo está atado com camisa de fuerza:
es viento sometido
que escribe el mismo nombre con tiza sobre un muro.
Todo es adentro aquí, en este gran vientre
IIeno de hombres sin madre.
La madre es la gran noche. La madre es nuestro grito.
La madre es cada dosis de trifluoperazina
que IIena de saliva nuestros labios.
Cuando acerco mi oído a las paredes
queriendo oír el IIanto de los que aún ma aman
sólo oigo mi chirrido. Mi oscura disonancia.
El corazón del miedo
cantando su monótona tonada.

 
 


▪ Piedad Bonnett
(Colombia, n. 1951)
in ‘Los habitados’, Colección Visor de Poesía, Visor Libros, Madrid, 2017

 
 

░ A BORDA

Terrível é a borda, não o abismo.
Na borda
há um anjo de luz no lado esquerdo,
um longo rio escuro no direito
e um estrondo de trens que abandonam os trilhos
rumo ao silêncio.
Tudo
quanto treme na borda é nascimento.
Somente da borda vê-se a luz primeira
o branco-branco
que nos cresce no peito.
Nunca somos mais homens
que quando a borda queima nossas plantas desnudas.
Nunca estamos mais solitários.
Nunca somos mais órfãos.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EN EL BORDE

 

Lo terrible es el borde, no el abismo.
En el borde
hay un ángel de luz del lado izquierdo,
un largo río oscuro del derecho
y un estruendo de trenes que abandonan los rieles
y van hacia el silencio.
Todo
cuanto tiembla en el borde es nacimiento.
Y sólo desde el borde se ve la luz primera
el blanco -blanco
que nos crece en el pecho.
Nunca somos más hombres
que cuando el borde quema nuestras plantas desnudas.
Nunca estamos más solos.
Nunca somos más huérfanos.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

 

░ O REAL

 

Nunca perguntes pela história real
Margaret Atwood

 

Nunca perguntes pela história real.

A realidade, já sabes, está sempre
mais além dos feitos,
mais aquém da sombra que cresce nas palavras.
Como esses reflexos de quando éramos pequenos
que morriam ao nascer em nossas mãos
deixando-nos desiludidos.

Ademais,
uma história não o é até ser contada.
Se vivida foram pedaços de tempo que enleamos,
contada é ramo seco
que colhemos do gelo coalhada de cristais.

Não perguntes
pela história real:
nunca teve voz o deus que a conhece.
 
 
_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.
 
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão Original / Version Original

 

LO REAL

Nunca preguntes por la historia real
Margaret Atwood

 

Nunca preguntes por la historia real.

La realidad, ya sabes, está siempre
más allá de los hechos,
más acá de la sombra que crece en las palabras.
Es como esos reflejos que cuando éramos niños
morían al nacer en nuestras manos
dejándonos burlados.

Por lo demás,
una historia no es tal hasta que no se cuenta.
Si vivida fue trozos de tiempo que anudamos,
contada es rama seca
que sacamos del hielo cuajada de cristales.

No preguntes
por la historia real:
nunca ha tenido voz el dios que la conoce.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.