ISTO NÃO É UM DOCUMENTÁRIO

o modo como vivi me confundiu com o que acontecia
viver era a transformação implacável de eu em nós

desde o início essa distância dentro de nós
um por não saber em que resultava
outro por não entender o que sucedia
um não era apenas personagem tampouco o outro documentarista

a memória fiel dos começos e o sabido atrativo dos fins
não firmaram quem era o mordomo de quem
de quem era a dívida ou a quem se servia

no chiaroscuro dos pronomes, estampado no meio da tela
vê-se agora um corte uma cicatriz
ou inversamente
um rasgo para a plateia

 

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▪ Marcos Siscar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Isto não é um documentário”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2019

 

 

░ BOLERO DOS DEDOS SUSPENSOS

preciso de uma palavra
como se precisasse de uma vida
não da palavra exata
mas da palavra volátil
que dê perspectiva ao vazio onde ainda
caberia um mundo
preciso tanto dessa palavra
não a palavra imaginária
retrato brilhante de seu criador
mas a palavra ouvida
uma palavra já pensada
estou certo de que já foi dita
lançada às marés do vento
uma palavra que gire em torno de mim
que volte e embora gasta
se quede ao menos
uma vez

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Manuel de flutuação para amadores”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2015

░ DO EMPUXO

até segunda ordem tudo
flutua no vazio como um planeta
uma bexiga de gás
uma máquina do mundo
não me venham com sublimações
alucinações arquimédicas
fogueiras agnósticas
nós flutuamos
o corpo suspenso por fluidos
e no momento seguinte
já nos vejo
rodopiando no vento como sementes
sem saber onde vamos cair
e caímos
mas não sabemos bem por quê

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Manuel de flutuação para amadores”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2015