COISINHAS PRECIOSAS PARA METER NO CU

o menino reuniu as suas bonecas e
ralhou com elas. portaram-se mal quando
lhes pediu que fizessem silêncio na
hora de pôr a mesa. a cristiana e a barbie na neve
querem sempre ficar ao seu lado. mas
não pode ser. o menino ouve as
bonecas chorarem noite inteira. ouve-as
com uma angústia constante
crescendo pelo seu próprio peito. cuidadoso,
antes de adormecer, deita-lhes um pequeno
candeeiro aceso sobre os olhos de vidro e
recomenda-lhes todo o amor do mundo. o amor,
explica, é ser uno com o que está apartado

penteou uma a uma pacientemente. as suas
bonecas terão um domingo especial, agora que
lhes comprou um sofá vermelho, pequeno, à
medida dos seus corpinhos perfeitos. não há lugar
para todas, por isso, sabe que vai ter de as substituir
de meia em meia hora. estabelece as regras
pormenorizadamente. anuncia, a partir de hoje
a nossa casa está mais bonita, e esta beleza
deve contribuir para os nossos corações. quero que
os nossos corações se ponham de
festa, quero que exista senão alegria

o menino observou o sofá vermelho intenso, apreciou
como era incrível ali estendido o vestido da
elizabete, feito de tule muito branco
com um corpete de veludo dourado

o pai bate-lhe ao fim da tarde. chega a
casa cansado e não diz nada. e, sem dizer nada,
arranca-o do quarto de brincar e obriga-o a
ficar na cama. pela janela, vê o fim
da tarde a entristecer as casas, e fica à espera da mãe
como se pudesse o sol chegar de novo àquela hora.
e a mãe chega, fecha-se na sala a discutir com o
pai. o menino tira de sob a almofada o ken. gosta do
ken. tem quatro diferentes. o polícia é o seu
preferido. sonha sempre que, um dia, virá prender o
pai levando-o para longe para espancá-lo sem
piedade. um pouco depois, a mãe estende os seus
raios por toda a parte. de tão brilhante, o menino
fecha os olhos ofuscados e abraça-se a ela a ver
só por dentro

o joaquim não gosta do ken. o menino disse que
lho deixava para assumir a barbie na
neve. mas ele nem assim aceitou. o menino
não o obrigaria a ser a barbie. e não se importa
nada de fazer esse papel. mas o joaquim
não quis mesmo. passou com o seu tractor em cima do
boneco e foi-se embora. o menino
ficou zangado. mas os melhores amigos, diz a mãe,
também se zangam. por isso, ficou à espera que
ele viesse falar consigo. eu posso
brincar com a bicicleta, dizia, podemos ir lá baixo
até ao mosteiro a ver as campas antigas de pedra. depois,
pensava, talvez ele aceite ser o ken. o ken polícia,
que deixou no sofá vermelho para que se
anime, porque não se passa assim com um
tractor por cima da autoridade. o papá
deixa-te ficar no sofá a tarde inteira. tirou a
elizabete e pô-lo ali sentado, subitamente mais feliz

o pai afastou a mãe da frente e
voltou a puxá-lo. sempre que o faz
marca-lhe os braços com as mãos
apertadas sobre pele como aguilhões. o menino
estendeu-lhe o ken e disse entre dentes, estás preso e
és um filho da puta. mas ele não parou de
lhe bater, por mais que repetisse a ordem de
prisão, por mais que visse o ken fardado,
tão furiosos os dois

a mãe ficou a ver-lhe o rabo inchar à força do
sapato. o pai pensava que
as bonecas da mariana não podiam ser de
outra pessoa. a mãe sentou-se, depois, no sofá e
tomou o menino ao colo. então, o menino chorou e
espremeu contra o peito o homem aranha que
lhe fez uma teia de protecção

outro dia, o pai pegou fogo ao quarto de brincar.
não avisou. disse, no fim, vai ver o que sobrou das tuas
coisinhas de meter no cu. o menino não foi ver. morreu.
tombou no chão e morreu

no dia seguinte, ele era outra pessoa. viu tudo e
todos com novos nomes e deixou de brincar com
bonecas. compreendeu a diferença entre
as pessoas e os brinquedos mudos. procurou o
joaquim, sorriu como nunca, e foi com ele ver as
campas de pedra antigas
com o prazer inaudito de, certo modo, também já estar
sepultado

 

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▪ Valter Hugo Mãe
( Portugal 🇵🇹 )
in “Folclore íntimo”, Edições Cosmorama, Porto, 2008