COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.
Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar te pode dar isso”.
Já tentei fazer colares
de sementes de romã.
O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.
Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.
A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

 

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▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

A PALAVRA CERTA

Lá fora, à porta,
escondido pelas sombras,
está um terrorista.

A descrição está incorrecta?
Lá fora, àquela porta,
abrigando-se nas sombras,
está um combatente pela liberdade.

Não me exprimi bem.
Lá fora, à espera na sombra,
está um militante hostil.

As palavras não são mais
do que bandeiras que se agitam, titubeantes?
À sua porta,
vigilante na sombra,
está um guerrilheiro.

Deus me ajude.
Lá fora, desafiando todas as sombras,
está um mártir.
Vi o seu rosto.

Nenhumas palavras me podem ajudar agora.
Mesmo à porta,
perdido nas sombras,
está uma criança como as minhas.

Uma palavra para si.
À minha porta,
a mão bem firme,
os olhos muito duros,
está um jovem parecido com o seu filho, também.

Abro a porta.
Entra, digo-lhe.
Anda comer connosco.

O miúdo entra
e cuidadosamente, à porta,
tira os sapatos.

 

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▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

*

Mudado para português por — Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

Nota: Poema que integrará a “Revista LÓGOS – Biblioteca do tempo” a publicar em 2021.



 

THE RIGHT WORD

 

Outside the door,
lurking in the shadows,
is a terrorist.

Is that the wrong description?
Outside that door,
taking shelter in the shadows,
is a freedom fighter.

I haven’t got this right .
Outside, waiting in the shadows,
is a hostile militant.

Are words no more
than waving, wavering flags?
Outside your door,
watchful in the shadows,
is a guerrilla warrior.

God help me.
Outside, defying every shadow,
stands a martyr.
I saw his face.

No words can help me now.
Just outside the door,
lost in shadows,
is a child who looks like mine.

One word for you.
Outside my door,
his hand too steady,
his eyes too hard
is a boy who looks like your son, too.

I open the door.
Come in, I say.
Come in and eat with us.

The child steps in
and carefully, at my door,
takes off his shoes.

 

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▪ Imtiaz Dharker
( Uk 🇬🇧 )
From “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006