IMAGENS

Interrompi os versos por laranjas.
E volto sempre a ti mesmo que não.
É estranho que pacíficas laranjas
não me consigam afastar de ti.
E que senil te pendure outra vez
na mesma corda, as molas sempre iguais
e que se chove corra a apanhar
-te,
não te vás desbotar ou romper,
ou sei lá, por húmida metáfora
ou bolorenta imagem de cordel.

 

▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Coisas de partir”

ICONOGRAFIAS

As barbas que recordo do passado
são as de Deus sentado
numa nuvem, em moldura dourada
e transversal.
Na moldura do lado, um coração
em lágrimas e espinhos.
E no canto mais curto e mais final,
a lição repetida.

Há um tempo de vida e
um tempo de morte, um
tempo de lavrar e um tempo
de colher.

Ah! que ao menos na nuvem,
no mesmo patamar:
a face da mulher!

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” [Poesia 1990-2010], Publicações D. Quixote, Lisboa, 2010

PRECE NO MEDITERRÂNEO

Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com o coração de ver,
vozes que nos aceitem.

E tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão, cega
durante a travessia

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar

que é também nosso

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ágora”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2020

INTERLÚDIO

essa insónia era gentil, diferente da outra, a da noite não madrugada ainda,
geralmente depois de um pesadelo. dessa insónia maior que a própria insónia
não havia desejo nenhum: só um medo de fazer recolher mãos, dedos, pulsos,
olhos fechados. suficiente de imaginar dentro dos olhos um sítio alto, e o
medo reproduzido: cair na cama tão pungente como um precipício.

 
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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” Poesia 1990-2010, Dom Quixote, Lisboa, 2010

 

O NEVOEIRO

Comecei a formar-me
a partir do mito

Sabia-me água
condensada entre o mar e o céu,
mas pouco mais sabia,
até ouvir dizer, muito em baixo e ao fundo,
sobre a sua vinda.

Aprendi-lhes as palavras
e a ler o que diziam:
que ele desaparecera junto a longa batalha,
abandonando o galgo
que lhe era companheiro

E mais diziam:
que, com ele, entre a fé cega e o sonho,
haviam ido também
os de olhos mais de luz

Muito mais tarde havia eu de ouvir
que esses de olhos de luz
pertenciam aos que não tinham nunca
lutado pelo pão ou uma terra sua,
e que ser de mais luz, de ter mais sonhos,
vive na proporção das moedas
que povoam os bolsos

Não me viam, os seus olhos cegos,
entre o ardor e o rugir da batalha

E eu soube sempre,
mesmo quando era só água em finíssimos átomos ,
espalhada pelo céu e rente ao mar,
que ser tão poderoso ou menos poderoso:
uma deslocação de ar
sem peso que contasse

Nunca o vi, a ele,
antes de me ver eu feito nevoeiro,
e ele continua a ser-me
leve sombra sem corpo

Formei-me a partir de uma península,
e fui avançando devagar,
cobrindo tudo,
ano após ano,
século após século,
com ele atravessando-me o corpo,
o seu corpo e o meu sem formas definidas

Se ele não existisse,
Ele não existia,
e ainda hoje, de vez em quando,
se ouve dele falar,
com outras formas, outros nomes,
um ser vindo de outras paragens

Era preciso o brilho de um farol
de linhas sólidas e unidas
para que eu desaparecesse
para sempre do mito

Mas o farol não há,
e eu habito entre tempos,
aprisionado a elipses de tempo,
e a ele:
os dois presos à história

Se ao menos esse galgo que ele amava
nos guiasse, por fim,
como fio ou farol,
para dentro do tempo

E eu voltasse a ser nuvem,
e ele, só imagens –

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Escuro”, Assirio & Alvim, Lisboa, 2014