DEUS VISITOU O MEU PAÍS

Deus visitou o meu país.
O meu país escolheu o número 3.
O número 3 inspeccionou a Luz.
A Luz foi até à varanda e
tossiu.
A mãe, que estava na cozinha
sem sapatos
num grande dia de calor,
derreteu-se numa folha de gelatina.

O país então apareceu de novo, mas num local completamente diferente.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “ P.P.

A LOUCURA DAS FACAS

UMA FACA AZUL NOS DENTES

 

O espaço é uma grande máquina de sombras e
o poema uma miragem de letras
não posso escrever os meus gritos
não posso dizer-te quem sou

escrevo um testemunho inútil numa noite imensa
e o amor para sempre é um defunto
com uma faca azul nos dentes.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A loucura das facas“, pag.13, Editora Urutau (Galiza, Brasil, Portugal), 2021

 

NUMEROGRAFIA

onde estamos?        que revólver
campeia no deserto?             que
matriz norteia   o   objecto?

por ecos se repete na figura a equação da curva:
o invisível ceptro do seu número:
por ecos se reflecte a sua forma celeste
na cinza do contínuo:

_________________________ que luz emite?
que procura? ________que paradigma sonha
a sua sombra na figura?
em que campo celeste e em que linha de terra
se ergue  _______ a sua casa de ciprestes
na penumbra antiga do número?

 

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▪ Alexandra Kräft
— Heterónimo de Maria Azenha 🇵🇹 —
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998


OBS: Quem é Alexandra Kräft?

Alexandra Sigmund Kräft (Londres, n. 2025 ) elege o átomo como Estátua Cósmica.
Ela pensa sobre os contornos e sombras dos objectos, não sobre os próprios objectos, que não existem.
Por isso o outro ser humano é uma ilusão: tudo é objecto do seu olhar.
E tudo é abjecto do seu ver.
É esta náusea que a define.