A VELHICE ENSINOU-ME ALGUMAS COISAS

A velhice ensinou-me algumas coisas.
E algumas coisas devem ficar claras.
Estou do lado dos que perdem.
Dos humilhados.
Dos que sofrem.
Dos abandonados.
Os vencedores quase sempre esmagam.
Em minha vida já perdi quase tudo.
E quase tudo foi um milagre aberto ao Nada.
Sei o que é passar fome. Sei o que é chorar noites inteiras.
Sei o que é estar aqui para que uma árvore não nasça fora da Terra.
Sei o que é ser mulher e invisível ao mesmo tempo.
Sei o quanto custa olhar um crucificado
E ficar cega de repente.
As igrejas contemplam-no e aplaudem-no
Em comunidades de grande ferocidade.
E mantêm-no acorrentado a um qualquer animal
No chão do quarto,
Como um Deus doméstico para uso interno,
Ou para ter orgasmos místicos na capital da Realidade.

Eu sou ateia. Conscientemente ateia.
Amorosamente ateia.
Visceralmente ateia.
Vulneravelmente ateia.
Abandonadamente ateia.
Tranquilamente ateia.

Que faria eu da minha vida se tivesse permanecido crente?
Certa vez um homem à beira da morte confessou-me
Que Deus era a mulher que ele nunca encontrou.
Ele fez-me ver que Deus é o maior Ateu que fez descer Deus da Cruz.
E é mulher.
Porque só o Amor nos torna vulneráveis.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

O POETA NO SEU ATELIER DE LÁGRIMAS

Onde está
mãe         onde está
entre todos os leitos
da terra
a pedra   o nó do vento
o azul de todas as cores
que te falam
no fogo da Noite?

o amor soluça tempestades!
há homens desmaiados!

onde está mãe
onde está
onde o vento sopra
onde o vento compreende
e sabe
que brilha nesta Terra
esta ciência

esta conta feita
que não vem de volta?

o amor é uma águia
voando assustadoramente
para além das lágrimas!

onde está
mãe       onde está
a rotação do fogo
a estrela do mar-alto
os cavalos-frases com
bordados infindáveis
na hélice da Noite?

o amor é um passo ao lado
como um cão que ladra!

onde está mãe
onde está
o vapor dos barcos
que fogem das águas
no sangue incolor  redistribuído
pelas casas
pelas lâmpadas         pelas covas
pelas árvores
que comigo bebem
copos enlouquecidos
de
cantos telegráficos?

o amor é um automóvel
a dividir por quatro rodas!

onde está
mãe      onde está
o teu filho de dedos ciclópicos
feito com os teus olhos
cheios de contornos
que eu recordo que eu
recordo

o amor é uma bruxa
a perguntar por tudo!

onde está mãe
onde está
o coração velho das fábricas
agora
transformado
em supermercados    em hipermercados
em hiperhipermercados
condenados
à fealdade dos homens?

o amor tem voz fanhosa!
anda constipado.
não tem rosas no lugar adequado!

onde está mãe
onde está
o céu riscado
o outro Lado
onde andava de comboio pelo Cosmos
entre cativas margens
onde Deus fecundava as páginas?

o amor é um calendário!
uma cidade doida
com espelhos nas escadas!

onde está
mãe onde está o mar
a sua flauta mágica?

os dois cornetos de nuvens
que eu amava
que eu amava,

onde flutuam?

o amor é uma máquina de números!
um dois três !
um dois três !

uma picadora eléctrica
que faz parar o trânsito
entre Deus
e
os
Poetas!

Belos semáforos telegráficos!

olha mãe olha
mãe
eu vou acelerar vertiginosamente
estou farta de ser homem   tristeza de menina
sou     marianalfabeta
sou     marianalfabeta
sou Poeta.

e as rosas
hoje
incomodam-me

olha mãe olha
mãe      o amor
é uma grande guerra
que abre
e fecha as portas
põe luzes no Caminho
uma tragédia d’águas

olha mãe olha
mãe,
que vou acelerar vertiginosamente
fujo atrás dos figos
os mais esbeltos os mais livres
em carne e sangue vivos…

o amor é um rapaz na estrada
à espera de uma mulher
que é um violino!

olha mãe olha
há muito tempo que é domingo
e  vou sozinha
intensamente livre
angélica e fantasma,

dei um pulo para a Outra margem.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “P.I.M.”, Universitária Editora, Lisboa, 1999

E ASSIM FOI

assim que deus me apareceu peguei na máquina dos anjos
e comecei a escrever
certo é que sou mãe mas não uma qualquer
ando de um lado para outro com o paraíso dentro
conheço a cor intensa das mulheres que se sentam em casa
à espera que o seu corpo rebente
e penso:

agora escrevo como uma matrioska
estou sempre a deitar cá para fora mundos que fazem aumentar o universo
o Pessoa sabia-o e mudava frequentemente de ADN
estava farto de coisas visíveis como eu que nunca estou
na mesma cabine nem no mesmo laboratório de sombras
com a mão aberta à ciência

que hei de fazer se sou de dentro para fora
estou sempre grávida
repleta de objetos exóticos que se espantam de
tudo nada existir realmente

tenho o ar leve
sou uma nave

o meu corpo é uma metáfora

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Integra a Antologia Poética “Quem dera o sangue fosse só o da menstruação” – Volume II, Organização Debora Ribeiro 🇧🇷, Editora Urutau, Brasil/Galiza e Portugal, 2020

 

TRE MADRI. TRE POESIE DI SABBIA

Ho sognato che avevo tre madri.
Tutte e tre stanno sotto un albero con gli occhi in alto.
La prima è trasparente e cuce pezzi fini di un cratere
dentro il mio petto.
La seconda brilla nel deserto nelle pareti della mia stanza.
E piange fili di seta in un caverna.
La terza suona il Silenzio di un Flauto,
cantando musiche antiche,
per gli anni che non abbiamo vissuto insieme.
Tutte e tre appartengono a un paese di sabbia e stanno tutte su un’isola.
noi abbiamo visto i prigionieri che ci hanno fatto compagnia.
Uno di loro è mia Madre. L’altro, mia figlia.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



TRÊS MÃES. TRÊS POEMAS DE AREIA

 

 

Sonhei que tinha três mães.
As três estão debaixo de uma árvore de olhos para cima.
A primeira é transparente e cose pedaços finos de uma cratera
dentro do meu peito.

A segunda brilha no deserto nas paredes do meu quarto.
E chora fios de seda numa caverna.

A terceira toca o Silêncio de uma Flauta,
cantando músicas antigas,
pelos anos que não vivemos juntas.

As três pertencem a um país de areia, e estão todas numa ilha.
nós vimos os prisioneiros que nos fizeram companhia.
Um deles é minha Mãe. Outro, minha filha.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M”

 

* Áudio: “Três Mães. Três poemas de areia” — Maria Azenha [Poema e voz]
Música – ‘Beyond’ (excertos) , Tina Turner