░ Eu sou o rio dos mortos

Eu sou o rio dos mortos
dos meus parentes mortos
e os meus mortos são o mundo inteiro.

Eu sou o rio dos mortos
nasci da sede pelo dó das lágrimas
quando mortos todos os pensamentos.

Eu sou o rio dos mortos
me criei no pântano das palavras
dos restos tudo trago.

Eu sou o rio dos mortos
minha carne é das nuvens.
Se fujo só dou em mim.

Eu sou o rio dos mortos
e o meu choro o que devolve à terra
o chão do sal da terra o chão.

Eu sou o rio dos mortos
minha margem de árvores
dos astecas que me sangraram.

Eu sou o rio dos mortos
da terra não passo
ninguém me ultrapassa sem desvão.

 

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▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Cantos de estima”, Selo de Estimas e Grama, Editora Douda Correria, Lisboa, 2015

░ LEITURA DO SER

Um texto inconcluso,
um pensamento em andamento,
potência em sua essência.

Aproximações infinitas,
tarefa em processo, avanço e retrocesso.
Incompleteza, com certeza.

Reagir, refazer, reescrever
– reformulando-se, revelando-se
na inconformidade do ser.

Que os textos se multipliquem,
frutifiquem, não se bastem;
sem medo de falhar,
sem acabar jamais, recomeçar.

Conquistar, dominar
– ou despistar.
Do outro lado do texto,
nas entrelinhas,
como um espelho
em que outros se vejam.

Ser sendo, lendo,
expandindo-se, outridade, releitura
enquanto dura. Só existe
o texto na leitura.

 

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▪ Antonio Miranda
(Maranhão BR, n. 1940)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor.

░ O futuro? Tem orelhas

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.

Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

 

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▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Seiva veneno ou fruto”, Editora Chão da Feira, Brasil, 2016

░ NINGUÉM

 

para Donaldo Mello

 

Não há princípio nem fim
na eterna diáspora
dos astros
tresloucados
deslocando-se
aos confins
do universo
em expansão.

O tempo não existe
para as estrelas
mas elas fenecem
e, de vê-las, fico triste.

Sem sombra e destino, também vagarei.
Hei de seguir o mesmo curso de ninguém.

 

_
▪ Antonio Miranda
(Maranhão BR, n. 1940)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor.

░ A FALA DAS COISAS

Desde toda vida
descompreendi inteligentemente
o xadrez, o baralho,
os bordados nas toalhas de mesa.
O que é isto? eu dizia
como quem se ajeita pra melhor fruir.
Fruir o quê? Eu sei. A mensagem secreta,
o inefável sentido de existir.
Tia Clotilde está desesperada:
‘para a minha família Deus não olha’.
Meu amor, quando tira o dia pra chorar,
não quer saber de mim, até que fala:
‘abri a porta da rua, achei três bilhas azuis,
como recado da alegria’.
É sonho, eu sei,
mas nesse dia ele não chora mais.
Se a senhora quiser, depois do almoço,
vamos no ribeirão buscar argila,
areia fina pra arear as panelas.
Olha o céu que se estende sobre nós,
seu manto cor de anil,
sua capa de veludo negro
cravejado de estrelas.
A flor-de-maio, a cravina,
viçam na terra estercada
sobre Totônio bebe,
Válter não para no emprego,
Noêmia quer casar mas não tem sorte.
Tua dor de cabeça tem origem psíquica;
tantos com à mão,
nenhum para o esquecido calor de entre as pernas,
ai, papai, me deixa namorar,
tem duas borboletas voando agarradinhas!
Meu corpo de velha quer salmodiar.
Quer ter um menino e tece,
faz tachos de doce e borda,
tapa com buchas de pano
as frestas da janela e canta
em meio de tanta dor.
Tendo orvalhado tudo,
a madrugada orvalhou a pimenteira,
cuja flor estremeces, ó minha pobre tia.
Deus mastiga com dor a nossa carne dura,
mas nem por chorar estamos abandonados.
A água do regador alçado sobre as couves
alvoroça os insectos.
A larva na hortaliça nos distrai.
Não inventamos nada.
O ponto de cruz é iluminação do Espirito;
o rei, a dama, o valete, são sérios
farandoleiros.
Se nos mastiga com dor,
é por amor que nos come.
Vamos rezar as mantinhas.

 

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▪ Adélia Prado
(Minas Gerais BR, n. 1935)
in “Poesia Reunida”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2015

░ MAR NEGRO

O mar na janela do avião
A terra acaba em Espanha
Eu choro em meu café
mar negro
os montes viram bicos
cinzas seios
seis da tarde em estado bruto
Ave Maria ao pé da nuvem
assento do alemão vizinho pai de um
menininho que chora mais que eu

O mar pela janela do avião é
pouso ou
pouco é o mar da
tela com suas linhas que sequestram
sempre os olhos do Gastão
que leu o Baudelaire florestalmente
Correspondência e beijo
a Guanabara e o Tejo
o frango a França a terra acaba e o

mar desta janela do avião
e eu nadando no café mar
negro entre a Alemanha e meus
segredos
Navego eu de mãos com Iemanjá
que fez a criancinha adormecer
de ver só céu com olho baixo
aberta boca

O mar numa janela de avião
tanto que sobe que é canhão
onda que nem o Carlos Burle ou Nazaré
Fotografei a nuvem coração que
diz você
parece mesmo um mapa de mina
sem tesouro lá os seios dos morrinhos

¿Ou mar pela janela do avião é só o
café que toma a mão do homem
tipo graxa tipo
medo invento incenso num cigarro
a farda do Vasco da Gama que minha
mãe dizia ser de gala?

O mar cá na janela do avião
acaba é França o mar conclui
a terra é outra a fresta esta fronteira a linha
e o cafezinho
fraco desta aérea e não acaba

O mar numa janela de avião
supõe contar nos dedos suas espumas
montantes traças vagas furadeiras
e vê tomar café o homem nu

Mar de janela de avião
nos olha sem
perguntar nada

Ave Maria cheia de graça
da graça do mar de meter na boca

 

_
▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor

░ an american pray

pelas quedas não mencionadas
pelas violações
pelos vícios
pelas américas devastadas
milhões de vítimas vermelhas
tribos inteiras famílias filhas
com autoritarismo
palavras palavras
palavras inteiras
pelos que sobreviveram
os que nasceram
fronteiras derrubadas
igrejas reformadas
pelos inomináveis como todos os adjetivos
malditos
possuídos
milhões
perdidos
por todos os amores caídos
pelos inconcebíveis
os marginalizados
abandonados
abusados
esquecidos
catedrais sejam altas
como as vítimas
como os milhões
as palavras
redoma fascista

 

_
▪ Fabio Riggi
(Brasil – SP, n. 1982)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autor.

░ ADAGIO

Eu também teria quebrado o vaso de porcelana da China,
falado demais,
corado todas as vezes.
Eu também teria perdido Agláia Ivánovna,
casado com Nastássia Filípovna,
enlouquecido com Rogojin.

Idiota?

 

_
▪ Maria Helena Nery Garcez
(Brasil SP, n. 1943)
in “Conta-gotas ”, Editora Scortecci, Brasil, 1987

░ 1974

Junto a um deus cheio de gosma
(¿quem me diria o gosto do açúcar do creme
do querosene do sexo amor rapto
penicilina?)
moleza e carne assada consta que
horas antes da criação do mundo e dias
antes do carnaval
(ô Xangô
as preta véia não mente não sinhô
coisa que hoje eu posso dizer que sei)
antes excessivamente de se abrirem as bicas mas depois
ó deus goto de gosma
de arder o Joelma com gente dentro que pulou
pra fora e meses antes
de Ademir entrar mudo e sair calado de uma disputa que
disputava mais nada
de Carvoeiro aparecer vivo numa outra bem antes de
sumir do mapa
de uns soldados com flores mudarem em português
de muita gente a cor do gesto
Eloy Rodrigues d’Almeida perdeu
sua carteira de motorista e desesperou calado vendo
dias dias dias
parada sua Brasília na garagem da casa em
Ponta Grossa Sobradinho Alfama Condomínio
dos funcionários do Ministério do Trabalho
Pampulha Rua Haddock Lobo esquina com
Matoso onde toda a confusão começou
(barba é coisa que não para de crescer e ninguém
ouve)
enquanto Liza Minnelli perdia a chance de entrar
cantando e sair suada sem incêndio em português claro
nem tão claro aos ouvidos de Sophia Cunha Pinheiro
que não perdera a carteira nem a chave
perderia
perdeu
(Put down the knitting the book and the broom it’s
time for a holiday)
o show de Liza Minnelli e
aquilo que deu depois da gosma e da
carne assada e que não diz
pula pra fora
ou diz
¿diz?
o gosto do repto do creme rinse da gosma
do deus da gosma
mas
¿do amor?
mas
put down the it’s time for

 

_
▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “40”, Editora Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2015