░ BOGOTÁ, DEPOIS DE UMA VISITA A HELENA IRIARTE

Não há relação entre as coisas
e aquilo que as encarna.
A realidade acaso é um vazio
e o reflexo nos espelhos
a evidência de sua precariedade.
Os homens vão pelo mundo
retratando a angústia de não ser o que nomeiam.
Pessoas correm perseverantes rumo aos vagões do metrô
ou dos ônibus porque a vida depende de um conceito.
Tampouco a pontualidade corresponde a sua palavra,
Pois não se pode chegar com atraso ao destino.
É possível que convivam alma e corpo?
não serão um binômio inseparável
uma só coisa que não sabemos nomear ainda?
Nestes temas, como em tantos outros,
me atropela a retórica,
e volto a me perguntar se será possível
nada mais viver.

 

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▪ Lauren Mendinueta
(Colombia, n. 1977)
in “Del tiempo, un paso”, Editorial Denes, España, 2011

Mudado para português por _Gustavo Petter_ (Poeta e tradutor), mora em Araçatuba/SP-Brasil, trabalha como professor da rede estadual. Mantém o blog agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

░ BOGOTÁ, DESPUÉS DE UNA VISITA A HELENA IRIARTE

 

No hay relación entre las cosas
y aquello que las encarna.
La realidad acaso es un vacío
y el reflejo en los espejos
la evidencia de su precariedad.
Los nombres van por el mundo
retratando la angustia de no ser lo que nombran.
La gente corre afanada hacia el vagón del metro
o el autobús porque la vida depende de un concepto.
Tampoco la puntualidad corresponde a su palabra,
Pues no se puede llegar con retraso al destino.
¿Es posible que convivan alma y cuerpo?
¿no serán un binomio inseparable,
una sola cosa que no sabemos nombrar aún?
En estos temas, como en tantos otros,
me atropella la retórica,
y vuelvo a preguntarme si será posible

nada más vivir.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colômbia, n. 1977)
Poema del libro “Del tiempo, un paso”, Editorial Denes, España, 2011

 

░ A BORDA

Terrível é a borda, não o abismo.
Na borda
há um anjo de luz no lado esquerdo,
um longo rio escuro no direito
e um estrondo de trens que abandonam os trilhos
rumo ao silêncio.
Tudo
quanto treme na borda é nascimento.
Somente da borda vê-se a luz primeira
o branco-branco
que nos cresce no peito.
Nunca somos mais homens
que quando a borda queima nossas plantas desnudas.
Nunca estamos mais solitários.
Nunca somos mais órfãos.

 

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▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EN EL BORDE

 

Lo terrible es el borde, no el abismo.
En el borde
hay un ángel de luz del lado izquierdo,
un largo río oscuro del derecho
y un estruendo de trenes que abandonan los rieles
y van hacia el silencio.
Todo
cuanto tiembla en el borde es nacimiento.
Y sólo desde el borde se ve la luz primera
el blanco -blanco
que nos crece en el pecho.
Nunca somos más hombres
que cuando el borde quema nuestras plantas desnudas.
Nunca estamos más solos.
Nunca somos más huérfanos.

 

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▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

 

░ O REAL

 

Nunca perguntes pela história real
Margaret Atwood

 

Nunca perguntes pela história real.

A realidade, já sabes, está sempre
mais além dos feitos,
mais aquém da sombra que cresce nas palavras.
Como esses reflexos de quando éramos pequenos
que morriam ao nascer em nossas mãos
deixando-nos desiludidos.

Ademais,
uma história não o é até ser contada.
Se vivida foram pedaços de tempo que enleamos,
contada é ramo seco
que colhemos do gelo coalhada de cristais.

Não perguntes
pela história real:
nunca teve voz o deus que a conhece.
 
 
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▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.
 
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão Original / Version Original

 

LO REAL

Nunca preguntes por la historia real
Margaret Atwood

 

Nunca preguntes por la historia real.

La realidad, ya sabes, está siempre
más allá de los hechos,
más acá de la sombra que crece en las palabras.
Es como esos reflejos que cuando éramos niños
morían al nacer en nuestras manos
dejándonos burlados.

Por lo demás,
una historia no es tal hasta que no se cuenta.
Si vivida fue trozos de tiempo que anudamos,
contada es rama seca
que sacamos del hielo cuajada de cristales.

No preguntes
por la historia real:
nunca ha tenido voz el dios que la conoce.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.