TRÊS POEMAS DE RYSZARD KRYNICKI

I can’t help you

 

Poor moth, I can’t help you,
I can only turn out the light.

 

*

Não te consigo ajudar

 

Pobre traça, não te consigo ajudar,
posso apenas apagar a luz.

 

*

We can destroy

 

We can destroy
all our evidence and still
even the mute rings of trees,
even our mute bones will tell
what times we lived in.

 

*

Podemos apagar

 

Podemos apagar
todos os nossos vestígios e contudo
até os anéis mudos das árvores
até os nossos ossos mudos dirão

em que tempos vivemos.

 

*

You’ve climbed high

 

You’ve climbed high, my little snail,
To the black lilac’s highest leaf!

But remember: September’s nearly over.

 

*

Subiste alto

 

Subiste alto, meu pequeno caracol,
até à folha mais alta do lilás negro!

Mas lembra-te: Setembro está quase a acabar.

 

_
▪ Ryszard Krynicki
( Polónia 🇵🇱 )


Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _  Poeta, Tradutor e Matemático 🇵🇹 a partir da versão inglesa de Stanislaw Baranczak & Clare Cavanagh

 
 

COMPREENDER

Das canções de embalar que as mães cantam
_______________Até às notícias que o locutor lê
Vencer no mundo a mentira, esteja onde estiver
No coração, dentro do livro, no meio da rua.
Que sorte fantástica seria compreender
Compreender o que passou e o que vem aí.

 

1948

 
_
▪ Nâzim Hikmet
(Turquia 🇹🇷)
in “Poemas da Prisão e do Exílio”, & etc, Lisboa, 2000
Mudado para português por _ Rui Caeiro _ (Poeta, Tradutor e Editor)
 

BOSQUE

Atravessa-lo ao crepúsculo.
O ar
quase tens de o separar com as mãos,
de tão denso, tão impenetrável.
Caminhas. Não deixam pegadas
os teus pés. Centenas de árvores
sustêm a respiração sobre
a tua cabeça. Um pássaro, ignorando
a tua presença, solta o canto
longo até ao outro lado da paisagem.
Altera-se a cor do mundo: é como o eco
do mundo. Eco distante
que tu abalas, atravessando
as últimas fronteiras da tarde.

 

_
▪ Ángel González
(Espanha 🇪🇸 )
in “Áspero mundo”, M., Col. Adonais, 1956.(Accésit Premio Adonáis 1955). 2ª ed. Ediciones Vitruvio, 2012.

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/


VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

BOSQUE

 

Cruzas por el crepúsculo.
El aire
tienes que separarlo casi con las manos
de tan denso, de tan impenetrable.
Andas. No dejan huellas
tus pies. Cientos de árboles
contienen el aliento sobre tu
cabeza. Un pájaro no sabe
que estás allí, y lanza su silbido
largo al otro lado del paisaje.
El mundo cambia de color: es como el eco
del mundo. Eco distante
que tú estremeces, traspasando
las últimas fronteras de la tarde.

 

_

▪ Ángel González
(Espanha 🇪🇸 )
in “Áspero mundo”, M., Col. Adonais, 1956.(Accésit Premio Adonáis 1955). 2ª ed. Ediciones Vitruvio, 2012.

ESTA TARDE E A SUA CHUVA

O dia está claro e seguro, agora. Choveu.
Há uma vaga lembrança da chuva no ar.
As folhas grandes conservam dela as pequenas ruínas
— Inúmeros olhos claros, gotas limpas e frágeis —
Mas já o céu está singelamente azul
(É verdade que também há grandes nuvens brancas
Que ondulam o orgulhoso algodão e sorriem),
E o ar e a sua lembrança reclinam-se e adormecem.
Nesta tarde e sua chuva, pensei nos teus olhos.
Esta chuva pensei na tua pele, e esta tarde,
Com seu céu e suas nuvens, pensei nos teus olhos.

Uma destas tardes, disse para comigo, choverá frescamente,
Choverá nas nossas flores, choverá nas nossas folhas,
A nossa casa será regida pela chuva.
(Cujos fios longos, de cristal muito fino
Talvez se enredem nos nossos passos.)

Numa tarde tão clara como esta,
Choverá em nossa casa.
É por isso que hoje, inexplicavelmente,
Enquanto na sua rede sem peixes descia a chuva,
Enquanto as grandes flores aproximavam os lábios
Para esse longo beijo, pensei nos teus olhos
Tão tristes como meus, e nas tuas mãos, e em ti,
E numa outra tarde, quase como esta.

 

_
▪ Roberto Fernández Retamar
(Cuba 🇨🇺)
in “Patrias, 1949-1951”, La Habana, 1952

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░  Esta tarde y su lluvia

 

El día es claro y firme ahora. Ha llovido.
Hay un vago recuerdo de la lluvia en el aire.
Las grandes hojas guardan sus minúsculas ruinas
—Múltiples ojos claros, gotas limpias y débiles―
Pero ya el cielo está sencillamente azul
(También, es cierto, hay grandes nubes blancas
Que ondean su orgulloso algodón y sonríen),
Y el aire y su recuerdo se recuestan y duermen.
Esta tarde y su lluvia, he pensado en tus ojos.
Esta lluvia he pensado en tu piel, y esta tarde,
Con su cielo y sus nubes, he pensado en tus ojos.

Una tarde, me he dicho, lloverá frescamente,
Lloverá en nuestras flores, lloverá en nuestras hojas,
Nuestra casa será regida por la lluvia.
(Allí sus hilos largos, de cristal delgadísimo,
Se enredarán quizá en nuestros propios pasos.)
Una tarde tan clara como esta misma tarde,
Lloverá en nuestra casa.
Por eso hoy, inexplicablemente,
Mientras su red sin peces descendía la lluvia,
Mientras las grandes flores acercaban sus labios
Hacia ese largo beso, yo pensaba en tus ojos
Tan tristes como míos, y en tus manos, y en ti,
Y en otra tarde casi como ésta.

 

_
▪ Roberto Fernández Retamar
(Cuba, n. 1930)
in “Patrias, 1949-1951”, La Habana, 1952