PRISIONEIROS

Os prisioneiros
culpados ou não
têm sempre o mesmo ar quando são libertados:
patriarcas destronados.

Aquele acabou de atravessar o portão
de cabeça pendida apesar de não ser alto
gestos iguais aos de um beduíno
ao entrar na tenda
que acartou às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a lima queimada
fazem-no recuar ao momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia penduraram o seu lençol no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
após a morte de núpcias.

Rostos deslustrados pelo sol
Rodeiam-no, só olhos e ouvidos:
«Com que é que sonhaste ontem à noite?»
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminho
sacralizado pelos seus trechos em falta.

A irmã ainda está a descobrir os seus hábitos estranhos:
os nacos de pão escondidos em bolsos e debaixo da cama
o rachar incessante da lenha para o inverno.

Porquê este medo?
Que poderá ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
Mas ser-se incapaz de escolher.

 

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▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
in “Lacrau” – Traduções e Versões de Poesia, Língua Morta, Lisboa, 2021

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Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹  Tradutor e Poeta 

 

UM CÂNTICO PARA A MÃE

Contigo mãe
Terminaram todas as recordações
Resta-nos o esquecimento como um muro
Sobre a tragédia da vida
Tu levaste todas as dores
Para que nada fique connosco
Nem o arrependimento sequer
De não estarmos mais contigo enquanto foi móvel a tua existência
Mãe, eu já lavei o meu rosto com lágrimas
Para que não ficasse nenhuma pegada
Do teu derradeiro olhar.

 
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▪ Julián Petrovick
( Peru 🇵🇪 )

DOIS POEMAS DE LUIS ALBERTO DE CUENCA

 

Bébetela

 

Dile cosas bonitas a tu novia:
“Tienes un cuerpo de reloj de arena
y un alma de película de Hawks.”
Díselo muy bajito, con tus labios
pegados a su oreja, sin que nadie
pueda escuchar lo que le estás diciendo
(a saber, que sus piernas son cohetes
dirigidos al centro de la Tierra,
o que sus senos son la madriguera
de un cangrejo de mar, o que su espalda
es plata viva). Y cuando se lo crea
y comience a licuarse entre tus brazos,
no dudes ni un segundo:
bébetela.

 

Bebe-a

 

Diz coisas bonitas à tua namorada:
“Tens um corpo de relógio de areia
e uma alma de filme de Hawks.”.
Di-lo muito baixinho, com os lábios
colados à sua orelha, sem ninguém
poder escutar o que estás a dizer
(ou seja, que as suas pernas são foguetes
dirigidos para o centro da Terra
ou que os seus seios são a madrigueira
de um caranguejo ou que as costas
são prata viva). E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços,
não hesites um segundo:
bebe-a.

 

No está muerta

 

Ella dijo, después de mil besos y abrazos:
“Soy tan feliz que quiero que el tiempo se detenga.”
Y él respondió: “No sufras, ya inventaré la fórmula
de que el tiempo no pase para ti.” Y la miraba
con los ojos nublados por la melancolía.
Y entonces ella dijo: “Si logras detenerlo,
que no vaya a dolerme y, sobre todo, que haga
juego con mi vestido.”

 

Não está morta

 

Depois de mil beijos e abraços, ela disse:
“Estou tão feliz que quero que o tempo páre.”.
“Não te preocupes, vou já inventar a maneira de o tempo
não passar para ti.”, respondeu ele. E olhava-a
com os olhos nublados pela melancolia.
Diz ela então: “Se conseguires detê-lo,
que não me doa e, sobretudo, que condiga
com o meu vestido.”

 

_
▪ Luis Alberto de Cuenca
(España 🇪🇸 )

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Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho  🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático

 

TRICÍDIO

Matei meu pai e minha mãe com um garfinho
– com um garfinho – porque os confundi com dois
pássaros nas árvores do caminho. Matei os meus pais
com a pinça de catar cubos de açúcar do meu avô:
não disse uma só palavra o adorado ídolo a quem eu,
todas as manhãs, saúdo tirando o chapéu. O gato da
minha vizinha tomou-me sob a sua protecção. Veio
sentar-se a meu lado, vigiando-me constantemente – a
sua crina, de pele de coelho bestialmente escovada por
detrás e os seus olhos em forma de ovos de cegonha.

Agora estou só agora e mortalmente triste:

todo o trabalho abandonado: choro – apoiada no
caixãozinho onde dormem lado a lado.

o meu pai e a minha mãe que eu matei com um garfinho
no maldito dia dos meus dezasseis anos.

 

Marianne Van Hirtum
Bélgica (1935-1988)
Tradução de Regina Guimarães

ENCONTRO NUMA FESTA EM LONDRES

Durante um minuto permanecemos desconcertadamente juntos.
Perguntas a ti mesmo em que língua hás-de falar-me,
ofereces, antes, uma cebola avinagrada num palito.
És jovem e talvez te esqueças
de que o Império vive
apenas nos sons puros das vogais que te ofereço
acima do ruído.

 

_
▪ Eunice de Souza
( India 🇮🇳 )
in “Rosa do Mundo” [2001 Poemas para o Futuro], Assírio & Alvim, 2001

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Mudado para português por _ Cecília Rego Pinheiro 🇵🇹  Tradutora e Professora