Bedford street

Ela deu-me a faca e disse: crava-a
No segundo espaço intercostal.
Onde é? perguntei-lhe. abriu a blusa
E assinalou, risonha, um ponto: aqui.

Algo devia haver naquela viagem
Que a fazia diferente. mais intensa.
Viam-se mais coisas. ascendíamos
A inéditos sons e raras cores.

Não havia confusão. até o detalhe
Mais ínfimo nos era compreensível.
Sugeri: por que não com barbitúricos?
É lento, retorquiu. já experimentei.

E o ácido gástrico é horrível
Como um trauma, porém, físico.
Substituí o seu dedo pelo meu
E ali apoiei a faca suavemente.

E cravei-a de repente. Não fosse
Mudar de ideia, se eu fosse lento.

 

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▪ José María Fonollosa
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Luís Costa

COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.
Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar te pode dar isso”.
Já tentei fazer colares
de sementes de romã.
O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.
Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.
A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

 

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▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

TRÊS POEMAS DE CHARLES SIMIC


A caixa de música

Senhoras e cavalheiros em linhas de retratos
Na sala de estar da tua casa da cidade,
Sobre uma pequena cruz e uma caixa de música
Que toca apenas silêncio nos dias de hoje
Para uma audiência de cadeiras e sofás drapeados.

Ouves a mulher sem abrigo
A confortar o cãozito assustado a seu lado
Ao estender farrapos para fazer a cama deles
Sob os degraus de mármore que os teus criados
Esfregavam todos os dias por causa das pegadas?

*

A sonhar ou acordado?

Um homem corre atrás de mim na rua
Para me vender um relógio de bolso.
Parece um pregador antigo, de outros tempos
Pálido como um fantasma e vestido de negro.

O relógio da estação de comboios
Parara nos cinco minutos para as onze.
O do banco de poupanças
Jurava serem quase três

Quando me abordou com o relógio
Cuja falta de números e ponteiros
Queria que eu examinasse e admirasse
Antes de ficar sem ar com o preço pedido.

*

O meu amigo Alguém

Por causa da repentina corrente de ar frio,
É possível, uma porta abriu-se
Algures na quietude do anoitecer.
Alguém hesita à entrada
Com um sorriso leve
De premonição feliz.

Neste dia sem data,
Numa rua secundária, escura
Tirando a luz de uma TV
Aqui e além,
E uma árvore solitária em flor
Arrastando uma cauda longa
De pétalas brancas e sombras.

 

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▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

OS PRIMEIROS MOMENTOS

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados

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▪Coral Rumble
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

 

MISTÉRIOS, SIM

Na verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
para serem entendidos.
Como pode a erva ser nutritiva
na boca dos cordeiros.
Como podem os rios e as pedras estar em permanente
aliança com a gravidade
enquanto nós ansiamos elevar-nos.
Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
que nunca mais se quebram.
Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
das cicatrizes dos golpes,
chegam ao conforto de um poema.

Deixem-me manter sempre a distância
dos que pensam ter todas as respostas.

Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
“Olhem!” e riem de assombro
e inclinam reverentes a cabeça.

 

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▪ Mary Oliver
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por Soledade Santos