OS POEMAS MAIS BELOS

Os poemas mais belos
escrevem-se sobre pedras
com os joelhos em chagas
e as mentes aguçadas pelo mistério.
Os poemas mais belos escrevem-se
diante de um altar vazio,
rodeados de agentes
da loucura divina.
Assim, doido e criminoso como és,
ditas versos à humanidade,
os versos do resgate
e as profecias bíblicas
e és irmão de Jonas.
Mas sobre a Terra Prometida
onde germinam os pomos de ouro
e a árvore do conhecimento
Deus nunca desceu nem te amaldiçoou.
Mas tu sim, amaldiçoas
hora a hora o teu canto
porque desceste ao limbo,
onde inalas o absinto
de uma sobrevivência negada.

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▪ Alda Merini
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Clara Rowland

MEU ROSTO NO ESPELHO

Meu rosto no espelho é sempre outro.
Um cabelo branco, dois, três, quatro.
Para onde foi o recém-nascido?
Onde está a criança?
Onde está o menino apaixonado?
A beleza de todos,
mortos para sempre?
Meu rosto no espelho é sempre outro.
Quantas faces
eu perdi que nunca mais voltarão.
Quantos papéis desempenharam em vão.
Quantas partes, quantas mortes
Onde eu já estive.

 

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▪Andrea Bassani
( Itália 🇮🇹 )

 

“As formas que todos conhecemos não me interessam: a verdade está atrás da ilusão, depois da matéria, além do espelho. Se você se olhar no espelho, verá o seu rosto. Se você se espelhar no seu rosto, verá os seus olhos. Se você se espelhar nos seus olhos, descobrirá o seu verdadeiro eu. É aí que a jornada começa. Retrato o que sinto, o que vejo no que sinto, quando observo as coisas, quando as penetro, porque quero que a arte seja conhecimento do invisível, porque quero que os olhos do coração se abram, que eu possa entrar em comunhão com a realidade imaterial, essencial. Uma forma diferente não é uma deformidade. Uma forma diferente é uma forma que você não conhecia. E te chama, além do espelho. Convida-o a deixar a imensa egrégora do pensamento único.”

André Bassani

Natal de ’44

Desde miúdo alegrava-se-me a face
quando chegava a festa do Natal.
Toda a noite trabalhava a peneira
e de manhã davam-me o fato bonito.

Então escapava-me de casa a correr
e andava na praça a mostrar-me;
e ao meio-dia em ponto na mesa enfeitada
comíamos todos em santa paz.

Oh, o meu Natal, o cheiro dos doces,
hoje passei-o às voltas numa estrada,
sem um pedaço de pão, a roupa emprestada,
longe de casa e sem amor de ninguém.

 


▪ Tonino Guerra
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Nuno Dempster