Coloco sobre a mão a luz para que o rosto me deslumbre

Coloco sobre a mão a luz para que o rosto me deslumbre nesse jogo de sombras.
É um meridiano amargo o sangue que une agora os nossos corpos – as aves
afadigam-se sobre os ninhos, neste inverno.

A minha mão vazia segura uma escada para o teu corpo,
um tapete de lume ferido pela obscuridade –

enquanto que da alma tudo ignoramos.

 

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▪ Jorge Velhote
( Portugal 🇵🇹 )
In “Máquina de Relâmpagos”, Edições Afrontamento, 2005

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

 
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▪ Luís Filipe Parrado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Entre a Carne e o Osso”, Língua Morta, Lisboa, 2012
 

BLUES DA MORTE DE AMOR

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

 

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▪ Vasco Graça Moura
( Portugal 🇵🇹 )
in “Antologia dos Sessenta Anos”, Edições Asa

A terceira miséria é esta, a de hoje

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

 
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▪ Hélia Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Terceira Miséria”, Lisboa, Relógio d’Água, 2012
 

UM DIA, SE QUISERES

Continuas aí, Norma Jeane,
a romper os espelhos de Los Angeles
à espera de uma porta que se abra
e que te diga “amo-te”?
Deves saber
que os orfanatos não têm telefones
para o silêncio.
Um dia, se quiseres,
manda-me pelo WhatsApp uma mensagem.
Sabes que estou aqui.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )

DO LIVRO DAS MEDITAÇÕES

Portanto farei uma escada no coração.
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo.
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavras
Em silêncio, portanto, pisando o coração.

 

▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”