A VELHICE ENSINOU-ME ALGUMAS COISAS

A velhice ensinou-me algumas coisas.
E algumas coisas devem ficar claras.
Estou do lado dos que perdem.
Dos humilhados.
Dos que sofrem.
Dos abandonados.
Os vencedores quase sempre esmagam.
Em minha vida já perdi quase tudo.
E quase tudo foi um milagre aberto ao Nada.
Sei o que é passar fome. Sei o que é chorar noites inteiras.
Sei o que é estar aqui para que uma árvore não nasça fora da Terra.
Sei o que é ser mulher e invisível ao mesmo tempo.
Sei o quanto custa olhar um crucificado
E ficar cega de repente.
As igrejas contemplam-no e aplaudem-no
Em comunidades de grande ferocidade.
E mantêm-no acorrentado a um qualquer animal
No chão do quarto,
Como um Deus doméstico para uso interno,
Ou para ter orgasmos místicos na capital da Realidade.

Eu sou ateia. Conscientemente ateia.
Amorosamente ateia.
Visceralmente ateia.
Vulneravelmente ateia.
Abandonadamente ateia.
Tranquilamente ateia.

Que faria eu da minha vida se tivesse permanecido crente?
Certa vez um homem à beira da morte confessou-me
Que Deus era a mulher que ele nunca encontrou.
Ele fez-me ver que Deus é o maior Ateu que fez descer Deus da Cruz.
E é mulher.
Porque só o Amor nos torna vulneráveis.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

MENTALIDADE ou

aqui estou!, disseste

depois de eu ter feito
a pergunta ordinária: está lá?
estavas a falar da Marmeleira,
“aqui”, disseste
em vez do nome da terra, questão
só de mentalidade, porque
Marmeleira é um nome
como outro qualquer,
conheço muitos assim,
não precisa de ser com árvores,
nem sequer de fruto…
olha os Carvalhos, por exemplo,
e há mais! Enfim, tu viajas, sabes,
enquanto eu é o que se sabe;
eu vou só daqui para ali
e vice-versa…
e vice-versa, é claro,
porque ali é só para me lavar
e o resto… tem piada
porque primeiro o que escrevi li
rosto, mas o rosto já está,
claro que é o resto , está certo,
nenhum autor do meu conhecimento
em vez de resto escreveria cagar;
eles nem conhecem a palavra,
nunca a ouviram, ou se ouviram
pensaram que era uma “plataforma”
para outra coisa, talvez simplificação
de carregar, há autoclismos assim.
Voltaire, o maganão, dizia
também que não dizia, não precisava,
bom proveito lhe faça,
mas há quanto tempo foi isso?
é tudo mentalidade, ou não será
mental idade, pois passaram séculos,
houve muita coisa de cima para baixo:
o pudim, por exemplo, foi na cozinha,
a cozinha, centro de luculações e
lucubrações, na tua preparas tu
o teu ensopado, enquanto eu na panela
mexo a minha sopa de pacote, e assim
se vão passando os dias,
e de noite não se come. é a natureza,
“de noite comem os animais nocturnos”,
é uma das grandes observações
da revista científica, embora como tudo
tenha excepções: as excepções
às vezes são só uma questão
de mentalidade, mas outras não.
não foi na Marmeleira, também
dizes “vou entrar” quando
estás a entrar para o metro,
mas sempre que vais a sair
nunca dizes nada. mentalidade,
excepção? é mas é
um notável ponto de partida
para iniciar a filosofia
de que já te falei, lembras-te?,
segundo a qual embora o meu de transporte
seja o mesmo, e as mesmas pessoas
as implicadas, os dois actos
de entrar e sair, aproximação e afastamento,
têm um sentido tão apartado e — cuidado! —
parece mas não é sempre apertado,
pois num caso o “saio aqui” aproxima,
mesmo que a estação fique muito
distante, e o silêncio à saída afasta,
mesmo que a estação fique junto
à minha casa! mas a reflexão vai
por água abaixo (em caso de chuva)
porque junto à minha casa, é notável ,
não há nada. desse nada podia nascer
uma estação e um mundo de bilhetes,
e de turistas, claro, era onde eu queria chegar:
o tema é a mentalidade, não é?
é mesmo mentalidade há muito chula,
desde as especiarias, escravos, esbulhos
de muita espécie, sempre um esquema ,
e do pior, e dura, dura, dura,
sim, muito dura para os (e eis o x da questão)
expostos, os postos fora de sua casa.

 

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▪ Alberto Pimenta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Zombo”, Edições do Saguão, Lisboa, 2019

 

O POETA NO SEU ATELIER DE LÁGRIMAS

Onde está
mãe         onde está
entre todos os leitos
da terra
a pedra   o nó do vento
o azul de todas as cores
que te falam
no fogo da Noite?

o amor soluça tempestades!
há homens desmaiados!

onde está mãe
onde está
onde o vento sopra
onde o vento compreende
e sabe
que brilha nesta Terra
esta ciência

esta conta feita
que não vem de volta?

o amor é uma águia
voando assustadoramente
para além das lágrimas!

onde está
mãe       onde está
a rotação do fogo
a estrela do mar-alto
os cavalos-frases com
bordados infindáveis
na hélice da Noite?

o amor é um passo ao lado
como um cão que ladra!

onde está mãe
onde está
o vapor dos barcos
que fogem das águas
no sangue incolor  redistribuído
pelas casas
pelas lâmpadas         pelas covas
pelas árvores
que comigo bebem
copos enlouquecidos
de
cantos telegráficos?

o amor é um automóvel
a dividir por quatro rodas!

onde está
mãe      onde está
o teu filho de dedos ciclópicos
feito com os teus olhos
cheios de contornos
que eu recordo que eu
recordo

o amor é uma bruxa
a perguntar por tudo!

onde está mãe
onde está
o coração velho das fábricas
agora
transformado
em supermercados    em hipermercados
em hiperhipermercados
condenados
à fealdade dos homens?

o amor tem voz fanhosa!
anda constipado.
não tem rosas no lugar adequado!

onde está mãe
onde está
o céu riscado
o outro Lado
onde andava de comboio pelo Cosmos
entre cativas margens
onde Deus fecundava as páginas?

o amor é um calendário!
uma cidade doida
com espelhos nas escadas!

onde está
mãe onde está o mar
a sua flauta mágica?

os dois cornetos de nuvens
que eu amava
que eu amava,

onde flutuam?

o amor é uma máquina de números!
um dois três !
um dois três !

uma picadora eléctrica
que faz parar o trânsito
entre Deus
e
os
Poetas!

Belos semáforos telegráficos!

olha mãe olha
mãe
eu vou acelerar vertiginosamente
estou farta de ser homem   tristeza de menina
sou     marianalfabeta
sou     marianalfabeta
sou Poeta.

e as rosas
hoje
incomodam-me

olha mãe olha
mãe      o amor
é uma grande guerra
que abre
e fecha as portas
põe luzes no Caminho
uma tragédia d’águas

olha mãe olha
mãe,
que vou acelerar vertiginosamente
fujo atrás dos figos
os mais esbeltos os mais livres
em carne e sangue vivos…

o amor é um rapaz na estrada
à espera de uma mulher
que é um violino!

olha mãe olha
há muito tempo que é domingo
e  vou sozinha
intensamente livre
angélica e fantasma,

dei um pulo para a Outra margem.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “P.I.M.”, Universitária Editora, Lisboa, 1999

II

De um emboscado deus os sons que escreves
Vêm secretamente do infinito.
É p’ra escrever que as tuas mãos são leves,
Submissas asas de um misterioso espírito.

Alheia te é a música que atreves;
Teu é o fado, o precipício, o rito
Da dor que faz passar entre horas breves
A voz de um deus escondido no teu grito.

Cercado por crepúsculos de sabres,
A vida perfumar com as rosas que abres
Te é mister, poeta grácil de olhos tristes.

Desafias os astros? Não te gabes.
És sábio de saber que nada sabes.
Estás a mais no mundo e não existes.

 

_
▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sonetos Românticos”, Edições “O Jornal”, Lisboa, 1990

 

PRECE NO MEDITERRÂNEO

Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com o coração de ver,
vozes que nos aceitem.

E tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão, cega
durante a travessia

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser,
do mar

que é também nosso

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ágora”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2020