Revista Incomunidade

 

 

NAQUELA MANHÃ

Ao funeral de meu pai não assistiu ninguém
não chegou uma coroa de flores
nem padre
nem irmãos
nem as nuvens quiseram saber
da piscina dos meus olhos
foi terrível chorar com o corpo acima da terra
compor a dor
antes da primavera
passava um comboio
os carris tinham o nome dos anjos
exalavam um perfume a óleo
levavam o meu choro banhado a ouro

 

MULHER VESTIDA DE NEGRO

Trazia um vestido negro,
uma mala ao ombro. Deu uma queda.
Tropeçou numa pedra. Caiu ao chão.
A seu lado, sapatos e sangue.
Ninguém quis saber. Ninguém se mexeu.
Desde então a mulher tornou-se estrangeira.
A cidade, no lugar do coração, plantou um cedro.

 

CABEÇA VOLTADA PARA O SILÊNCIO

Cabeça voltada para o Silêncio – realização e fotografia de Maria Azenha
Música – Mikael Karlsson | in ” Vimeo ”

 

CURTA METRAGEM – UE

Ela morreu. Ninguém a informou.
Ao contrário do Messias não ressuscitou.

 

in   Poemas | Maria Azenha – Incomunidade

TINDER

Preenche o vazio com cartas guardadas em caixas
para que recordes que dizer adeus é normal;

Ouve a Petula Clark por um momento
e enche-te dessa felicidade pré-fabricada:
“ when you’re alone and life is making you lonely
you can alaways go downtown “

liga-te de novo
aos apps, aos desconhecidos noite afora,
nada tem maior significado do que a tristeza
com que encho os lábios para distribuir beijos
vermelhos, rosa, hálito fresco a solidão

passeio agora os vestidos que despias,
devia ser proibido seguir sempre a razão
arriscar o tudo por um pouco de sossego
e agora vou de novo atrás de quem saiba
puxar o laço e abrir o fecho às verdades
que dissemos na escuridão.

 

Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )
in ”Amantes ocasionais”

 

SOU DE VIDRO

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

 

▪ Lídia Jorge
( Portugal 🇵🇹 )

PALAVRAS, ACTOS

A ironia ensina a sabotar uma frase
como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
no verbo ou numa letra do substantivo,
a frase trágica torna-se divertida,
e a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
a linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.

 

▪ Gonçalo M. Tavares
( Portugal 🇵🇹 )

Amor peixe e outras loucuras

Amor peixe e outras loucuras
é um processo extenso de recuperação. Recuperar de anos mergulhada na doença mental; recuperar de uma ideia de amor (que no fim era outra coisa qualquer); recuperar de um término doloroso e injusto. A melhor parte do Amor peixe, é que realmente se tratou de uma cura, de um testemunho que deixei pela causa da saúde mental, mas também de uma última conversa que nunca teve lugar.

Fui o Diabo de alguém a troco de compulsivo
Amor nos braços de outrem. Queixava-se do tempo
que tinha o corpo trocado com o inferno
vestidos de Lolita, uma ninfeta sem amparo —
e um pacto quebrado que impede os sobrelimites
da escrita – e do andamento nefasto da morte:
do consumo exasperado de literatura a troco
de umas poucas moedas de vida. Banalidades
que desaprendo com a virtude de desconhecer
a mão perversa que guia todos os poemas:
Sou-o por mim e de mais ninguém, alegras-me,
solidão de memória, inventada para todas as ocasiões
tal qual o vestido negro que dispo perante
Anjos Caídos, figuras celestiais à coca
de paranoias inventadas – redenções e outros
desgostos vívidos da fantasia que teima a vigilância
do demónio Maior Amor, Corpo torpe que cai-cai
e brilha a música que preenche o vazio e é
orquestra de espirito sem maestro.

Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )