O POEMA NO ARMÁRIO DA FÍSICA QUÂNTICA

Um dos fundadores da teoria quântica, Schrödinger,
contou a famosa história do gato, para enfatizar
que a teoria quântica diz algo “absurdo”.
O gato não observado de Schrödinger,
está simultaneamente morto e vivo — até que observá-lo
faça com que esteja ou morto ou vivo.
Digo, então, para ti:
Este poema, que não foi observado por Schrödinger,
está ao mesmo tempo morto e vivo.
Se tu, leitor, o observas morto o poema está morto.
Se o observas vivo, o poema está vivo.
O poema não existe. Nunca existirá sem ti.
Não foi afinal uma criança que gritou que o rei ia nu?
E tu alguma vez viste o rei nu?
O misterioso do poema não está no que o poema diz.
Está na criança que o observa e entre eles acontece
uma história privada.
Digo assim:
Este poema é uma onda — umas vezes partícula
outras vezes luz.
E brinca ao absurdo com o gato de Schrödinger.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito

 

FALÁVAMOS DO IMPREVISTO

Falávamos do imprevisto
Das oportunidades que a vida nos dá. Do esforço, do rompimento,
Da investida.
Mas foram os teus olhos que me fizeram prosseguir nesta jornada.
Acreditei-os e desejara, desde logo, tudo. Menos o corpo.
Nada percebia dessas coisas.
Na minha vida tive apenas um laranjal
Cujos frutos não tive a quem dar e eu teria gostado de certa clientela.

Falámos de amor (eu não sabia o seu significado ou já teria
esquecido, nem sei)
E esperei que resumisses o teu corpo e o meu
Na combustão da locomotiva que partira, momentos antes.

Primeiro, despi-te em pensamento
Depois encontrei-te na ideia mais concreta de seres
um pássaro entre laranjas.

(a ti, leitor: muda de página, parte na tua história).

 

___
▪ Rui Pedro Gonçalves
( Portugal 🇵🇹 )
Da revista “Telhados de Vidro”, Edições Averno, 2009

SOUS LA NUIT

 

para Y. Yván Pizarnik de Kolikovski, meu pai

 

___ Os ausentes sopram cinzentamente e noite é densa.
A noite tem a cor das pálpebras do morto.
___ Fujo toda a noite, enceto a perseguição e a fuga, canto
um canto para os meus males, pássaros negros sobre mor-
talhas negras.
___ Grito mentalmente, o vento demente desmente-me,
confino-me, afasto-me da mão crispada, não quero saber
de mais nada senão deste clamor, este arquejar da noite,
esta errância, este não se encontrar.

___ Toda a noite faço a noite.
___ Toda a noite me abandonas lentamente como a água
cai lentamente. Toda a noite escrevo para procurar quem
me procura.
___ Palavra por palavra eu escrevo a noite.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
in “Antologia Poética”, Editora Tinta da China, Lisboa, 2020

*

Mudado para português por _ Fernando Pinto do Amaral  🇵🇹  Professor, Tradutor e Poeta

 

INTRODUÇÃO

Atei uma ligadura ao mundo.
Seguindo uma estratégia diferente, há quem o aparafuse ajoelhan-
do-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila.
Por cima dele o céu é elástico.
Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao dar por acabado o livro
de que este texto pode, entre outros, ser a introdução, mais me fascinam.
A própria alma é elástica: podemos, assentando um dedo sobre a sua
superfície e pressionando-a, levá-la a tocar nas coisas mais inesperadas.
O real é um vidro pintado sob o sol berrante, as coisas prendem-se-
-me ao espírito. Do mar, para não dar senão um exemplo, fiz a minha
máscara integral.

 

_
▪ Luís Miguel Nava
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia”, Assírio & Alvim, 2020

 

NUMEROGRAFIA

onde estamos?        que revólver
campeia no deserto?             que
matriz norteia   o   objecto?

por ecos se repete na figura a equação da curva:
o invisível ceptro do seu número:
por ecos se reflecte a sua forma celeste
na cinza do contínuo:

_________________________ que luz emite?
que procura? ________que paradigma sonha
a sua sombra na figura?
em que campo celeste e em que linha de terra
se ergue  _______ a sua casa de ciprestes
na penumbra antiga do número?

 

_
▪ Alexandra Kräft
— Heterónimo de Maria Azenha 🇵🇹 —
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998


OBS: Quem é Alexandra Kräft?

Alexandra Sigmund Kräft (Londres, n. 2025 ) elege o átomo como Estátua Cósmica.
Ela pensa sobre os contornos e sombras dos objectos, não sobre os próprios objectos, que não existem.
Por isso o outro ser humano é uma ilusão: tudo é objecto do seu olhar.
E tudo é abjecto do seu ver.
É esta náusea que a define.