INTRODUÇÃO

Atei uma ligadura ao mundo.
Seguindo uma estratégia diferente, há quem o aparafuse ajoelhan-
do-se na terra, ou abra nele um olho, uma pupila.
Por cima dele o céu é elástico.
Elástico, adesivo, eis dois dos atributos que, ao dar por acabado o livro
de que este texto pode, entre outros, ser a introdução, mais me fascinam.
A própria alma é elástica: podemos, assentando um dedo sobre a sua
superfície e pressionando-a, levá-la a tocar nas coisas mais inesperadas.
O real é um vidro pintado sob o sol berrante, as coisas prendem-se-
-me ao espírito. Do mar, para não dar senão um exemplo, fiz a minha
máscara integral.

 

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▪ Luís Miguel Nava
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia”, Assírio & Alvim, 2020

 

AS MÃOS DA NOITE

As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.

Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite :  as figuras quebradas.

A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou

a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde

O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa

 

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▪ Manuel Gusmão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Contra todas as evidências”  Poemas reunidos – I
Editorial Avante, Lisboa, 2013

NESTE SILÊNCIO

Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vazio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.

 

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▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas e Pedras”, Ed. Autor, Lisboa, 1962