ALMADA NEGREIROS

Sonhei ser Eu e descobri a Tela
Onde o Sol pintou em várias esferas
O Círculo, a Hora oculta, o Espaço, a Vela
Onde Portugal sagrou diversas eras.

E, Hoje, Alcântara-porto é cais do Céu
Que abriga Orpheu, o mar e as estrelas,
Com que El-Rei irá nascer do véu
Que o nevoeiro, em Ser, lhe trouxe em telas.

E a orla da Europa, olhando a Terra
Onde outrora só havia Forma e Zeus,
Assinala o Oceano, o Vento, a Serra,

As cinco Quinas navegadas pelos seus.
E, em febre, aponta a ‘strada que não erra,
À noite gloriosa onde o Ser encontra Deus …

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Último Rei de Portugal”, Edição Fundação Lusíada, Lisboa, 1992

 

LÍRIOS

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
– sem frio nem perda nem desastre –
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.

 

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▪ Rosa Maria Martelo
( Portugal 🇵🇹 )
in “Matéria”, Editora Averno, Lisboa, 2014

 

TIVE UMA AMIGA

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel branco
com uma jóia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem jóias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela

 

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▪ Helder Macedo
( África do Sul 🇿🇦 )
in “Poemas Novos e Velhos”, Editorial Presença Lisboa, 2011

ICONOGRAFIAS

As barbas que recordo do passado
são as de Deus sentado
numa nuvem, em moldura dourada
e transversal.
Na moldura do lado, um coração
em lágrimas e espinhos.
E no canto mais curto e mais final,
a lição repetida.

Há um tempo de vida e
um tempo de morte, um
tempo de lavrar e um tempo
de colher.

Ah! que ao menos na nuvem,
no mesmo patamar:
a face da mulher!

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Inversos” [Poesia 1990-2010], Publicações D. Quixote, Lisboa, 2010

RECANTO 12

Vinha ___ do outro lado do tempo ___ do inverno seguinte
um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,
anfíbio
como alguém em trânsito para o seu mar
ao sair do emprego, e o instrumento
sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abençoe-te-
-etecetera-amen-
a buzinar-lhe aos ouvidos

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais
em potência de tortura passou imediatamente a ser
útil vertiginosamente indispensável
porque é uma rosa e só por isso
porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo
e na mesma roda de espaço que nós em tudo
e só por isso
quando a caixa toráxica passa a ser de metal
por assimilação
e de plástico por fora e roda no corpo
e só no sexo o circuito é uma onda fundente
liquidamente

lemos o capítulo do sangue
quando em transe se descarrega como a campainha
de que as palavras são o toque e os silêncios
o clarão da música.

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos
por outrem
de que as palavras se chamassem fala
e o terror ventriloquia.

 

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▪ Luiza Neto Jorge
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia 1960-1989”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993