A ESCRITA DAS ÁGUAS

Arrancado o primeiro fruto nenhuma data é fiel.
Para a sua margem correrá o rio numa carta de inverno
ou a festa das águas.
E sob o trovão e a chuva e o clarão da memória
já o peito do Homem se feriu.
A ave caminha por um ofício de pedras e, súbita,
a mão se dirige para o cume do fogo: uma busca cruel.
Também o vento empunhará a sua espada de lume,
a sua noite nos cachos d’inverno, e ainda um gesto
caminhará por uma seta de dúvidas.

Toda a Noite é enorme e um crime, um fulgor,
mapa de fendas, égua de cinzas.

Pelo porte secreto da luz, tombará
a árvore e uma pedra antiga do Sol.

Lembra-te:

Arrancado o primeiro fruto,
nenhuma data é fiel.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
In “Madrugada 3 “, 1982
Movimento de Escritores Novos

CARTA DA INFÂNCIA


Poesia dita por Fátima Murta

 

 

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

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▪ Carlos de Oliveira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Trabalho Poético” Sá da Costa, 1998 (3ª ed.)

POEMA DA MORTE NA ESTRADA

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

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▪ 
António Gedeão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas Escolhidos” – Edições João Sá da Costa, 1996

SILÊNCIO INTACTO

Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insetos,
a linguagem perfumada das flores.

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▪ Albano Martins
( Portugal 🇵🇹 )
in “Antologia Poética”

Poesia de Ana Soares

Ana Soares nasceu a 29 de outubro de 1900. Casou em 1924, tendo enviuvado em 1930.
Durante quinze anos escreve a sua pequena obra literária, vindo a falecer em 1945.
Uma tia entrega todos os escritos “cartas e poemas” a uma amiga de Ana Soares. Esta fica com a incumbência de os publicar, o que não veio a acontecer.
Por razões que só o Destino conhece, vieram ter às mãos de Maria Azenha todos os seus poemas e cartas com a nota de serem publicados.

POEMA XVIII

Nenhum poema é verdadeiro,
Nenhum poema é falso,
Finge ser só companheiro.
O Poeta é um percalço.

Ana Soares

POEMA XIX

É a vitória dum rei
Que me segreda ao ouvido
Um eco do que sonhei,
Um porto que achei perdido.

Que música ele me vem dar?
Que harpa me pôs nos dedos?
Sou uma estrangeira a tocar
No leque dos seus segredos.

Ana Soares

Canção do rio profundo

Desci o rio profundo
com as sereias cantando
nos rochedos
espelhos na mão
penteando ao pôr do sol
os cabelos

E vi o gnomo
escondido
guarda fiel dos segredos
que nenhum canto revela
nenhum pente
nenhum espelho
só o fulgor deste mundo

 

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▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
in “Canções do Rio Profundo”, Edições Asa, Porto, 2002

A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

 

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▪ Cecília Meireles
(Brasil 🇧🇷 )