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estas são as minhas quintas, os meus rebanhos
disfarçados de alcateia,
as azinhagas que dão
para o profundo anoitecer,
aqui os armazéns, cheios de fértil escuridão,
a grande colecção de colinas empacotadas
e minúsculas nuvens que incham com a chuva
dentro, e nenhum sino

perturba este sossego, esta mistura
que os corpos fazem e desfazem na paisagem,
e ainda as serpentes caminham a quatro patas, sem perigo algum,
e a boca beijada é quente de cordas e laços,
e o grande rio descia para a terra,
o meu amor alimentava-se de pedras e
sopro, possivelmente,
e os filhos nasciam aos molhes, um por um.

por uma fina folha entro na superfície
dos sonhos coloridos,
os cães, açoitados, ladram
aos pés do caçador,
estes são os campos que ardem para quem tem
dois olhos na cabeça,
a mesa, o guardanapo sobre o prato,
o certo limite.

 

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▪ António Franco Alexandre
(Viseu, n. 1944)
in “As moradas 1 & 2”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987

░ Conclusão

Fui amante da morte
e da beleza. Vi a loucura,
acreditei na vida.
Da infância falei
como lugar de abismo.
O prazer
foi também a grande fonte
de perturbação e alegria.
Lembrei mulheres
que recusaram submeter-se,
escrevi palavras fúnebres.

Não poupei a adolescência,
o coração magoado
e não soube que fazer
de mim fora das palavras.
Escrevi para desistir
e depender
e ter identidade.

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▪ Isabel de Sá
(Esmoriz, n. 1951)
in “Repetir o Poema”, Edições Quasi, V.N. de Famalicão, 2005

░ DECISÕES GRAVES

Rasgar fotografias
com desgosto
ritual, meticuloso na destruição
como Antero de Quental.

Escrever, por não querer dizer,
ansioso de calar-me, de
caiar-me uma noite
iluminado luto,
canção da ponte admirável
quando eu era um rio a correr
ao teu encontro.

A realidade não dá descanso a ninguém
acordado; e muito menos ao poeta
que dorme bem desperto, a sono preso
ao sonho e para além do sonho
adensado em tumulto de mistério.

Desligar as estrofes, experimentar ignorar
com consciência: sair para poder entrar
por outra porta. Há uma infinidade de portas.
Muito poucas estão abertas.

 

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▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea”, Averno, Lisboa, 2011

░ GOLPE

Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?

Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio

não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio

 


▪ Gastão Cruz
(Portugal, n. 1941)
in “Existência”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017

░ o homem que amava demais

conheci um homem que entrava pelas janelas
falava de cegueira às borboletas
e nadava em silêncio com os peixes

uma ocasião cravou no peito um poema
———————————————-disse:

————————————-sou um poço

 

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▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “Num Sapato de Dante”, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil, 2012

░ Os artistas do momento

ah, quanta da arte que agora se faz
é puro entulho: estilo baralha e volta a dar.
é só ter a compulsão de instalar
e ser um bom rapaz,
usando lixos convincentes,
e, mais do que barriga, ter bons dentes.
conquista-se espaço cultural de um jacto.
o que é preciso é ter um bom contacto.
e, o que mais interessa , pelo sim pelo não,
é aparecer na televisão.
na solene parada das vaidades,
desfila os eleitos e confrades,
qual deles o mais gabiru,
arrastando a sua instalação.

e o povoléu aplaude
e não vê que o rei vai nu.

 

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▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ Pode ser, que o terrível não tenha explicação

Pode ser, que o terrível não tenha explicação
E que a luz seja só a presença de silêncio.
Pode ser.

Pode ser que letra a letra se construa
O veneno insuficiente da palavra
De todo já perdida para a vida.
Pode ser.

Pode ser que eu seja peixe fora d’água
Sufocado na areia tonta de uma praia
Pode ser.

Pode ser que eu não passe
De cometa sossobrante
Num buraco escura da galáxia.
Pode ser.

Mas o que será que agora,
Para quem julgue ver-me,
Pareço neste instante ?

 

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▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ O tempo anterior

Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na

água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci

mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço

 

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▪ Gastão Cruz
(Faro, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

░ A HERANÇA

há uma loucura perturbadora nas sílabas dos móveis
em cuja vastidão há palavras que se perdem
mas dar-te-ei um lance neste jogo de cartas
aliviando-te do fundo da colina em que se juntam

mas será preciso que tudo se revolva como um fósforo
a forma e o ferrolho na fronteira da erva
a grande colecção dos soluços da coruja
com tubos musicais pelas veias telefónicas

dar-se-á então um truque no real pela espiral das nuvens
a fronteira e o núcleo na face das perguntas
onde os livros aí estão com sílabas imóveis
de raízes apontadas para o haxixe das dúvidas.
e pelos nomes das veias da mistura das estradas
onde viajam os números os rebanhos do futuro
passearemos juntos pelo teorema de pitágoras
em imagens na avenida pelas sílabas da chuva

 

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▪ Alexandra Kräft
(Londres, n. 2025)
Heterónimo de Maria Azenha
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998