░ INCERTO

que hora foi essa
que saltou do ventre
dos relógios
como um garrote
de cinzas?

devo ainda
esperar por mim,
enlouquecer no regaço
das catedrais como
pingo de sol num
peito de viúva?

eu quero dançar
sobre as lâminas rombas
deste tempo
quero cortar-me até ao osso
porque só a dor
é capaz de nos revelar
a grande mentira
que há por detrás
de todas as coisas

tranquilo, assim sereno
de saber que nunca
a posterioridade se
interessará por mim

 

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▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014

░ UMA NOVA ALIANÇA

Uma nova aliança atravessa
a descoberta do tempo

exploração periódica e lisa
da instabilidade dos sonhos.

Haverá asas no olhar
prisões nas partículas do sentir.

Haverá silêncios intermitentes
gritos, risos, turbulências
como febre em águas de passagem.

Mas os limites serão terra povoada
e o tilintar dos dias
dilatará de febre o círculo
imprevisível
de todas as solidões.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

░ Na cidade breve as ilustres criaturas

Na cidade breve as ilustres criaturas
apodrecem de vidinha inveja e conversata
entre voracidade e íngreme bajulação

descuidadamente espirram teorias
enquanto os pés ensaiam uma dança
de fulgor e desencanto
tão longe já do voo imaginado

recolhidas viajam no silêncio
enquanto os olhos se fecham

levemente ausentes

com a certeza de que acabou
a incandescência.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Pequeno bestiário académico”, Ed. Licorne, Évora, 2014

░ Sede

Está vazio o teu peito__No lugar
do coração talvez um ataúde
ou nem isso__uma sombra
igual a essa noite onde procuras
o mar__o imenso mar__e só encontras
sede

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Revista Relâmpago, nº. 35″, Lisboa, 2014

░ Abdicação

Aceito morrer em breve
mas não irei ter contigo
às salinas escuras
por onde tens andado
ficando à minha espera.

Também não quero o mar
nem a montanha
locais de iniciação

Quero um regato ameno
de água fina correndo
por entre arbustos rasteiros.

E então ao longe
a figueira
de folhas enganadoras

com uma sombra que oculta
o gesto da maldição.
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▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Canções do Rio Profundo”, Asa Editores, Porto, 2002

░ Destino

Não bordo por destino
nem me dobro

Não cedo à mão da vida
nem me encubro

Não cumpro_ não aceito
nem me calo

Não amo o que é imposto
nem me afundo.

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom quixote, Lisboa, 2009

Conselho aos críticos do novo século

Desdenha de quem escreve coisas simples
e desconfia, desconfia sempre
dos sentimentos, das convicções.

Diz mal da tua época,
procura dar a tudo um ar difícil
e cita alguns autores que ninguém leu.

Se queres que te respeitem,
reserva a admiração e o elogio
pra certos mortos bem escolhidos,
de preferência estrangeiros,
e acima de tudo
não caias nunca na vulgaridade
de ser compreendido pelos que te lerem.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Pena Suspensa”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004