░ A pedra

A pedra
conserva o perfume do homem
seu gesto de cristalização cíclica
em busca de uma verdade solar.

A pedra
respira a paixão do excesso
pássaros e curvas de plenitude feliz
instrumento do oráculo.

A pedra
sangra de lucidez aflita
restitui o cântico
inventa o poema
ávido silêncio mineral
onde gritam gestos pacientes.

A pedra
é andrógina figura
atravessada de veias e rumores
ondulação das formas mais puras
entre rigidez e harmonia

sexo de mármore aberto
aos lábios do vento.

 
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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

░ Partida de xadrez com Ivan Junqueira

Disseste a um jornal é absurdo morrer,
irmo-nos sem um deus, mas não sei outro modo
de viver e morrer; e também lhes dizias
um poente não é poente sem poesia.
Todavia, assentemos, é o sol que se esconde,
ou melhor, o rodar contínuo do planeta,
e por rodar assim é que nós respiramos,
a luz nos ilumina e partimos sozinhos.
Mas isso é já sabido antes do eppur si muove,
e neste tabuleiro onde jogo contigo
os meus peões e bispos os deuses inventados
há muito o xeque-mate nos destinavam, cínicos.
E quando começamos o jogo, pensativos,
quando me falaste é absurdo morrer só,
jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,
nos bastava a alegria de um dia termos sido
altivos e distantes das mesas de xadrez.

 

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▪ Nuno Dempster
(Ponta Delgada, n. 1944)
in “Dispersão” – Poesia Reunida, Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2008

░ as velhas novembram

as velhas novembram
de outubro a dezembro
em fainas novenas
varejam os ramos com
membros canhestros
erguem-se às hastes à
cata do fruto à flor da
ramagem sacodem-na
pra panos cerzidos
desde dezembro anterior
nos janeiros da apanha
colocam-nos ao chão
no plinto das árvores
os panos ao ombro as
talhas de azeite medas
de feno ou serapilheira
as velhas janeiram quais
espantalhos siderados
em pássaros moveres.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Lisboa, n. 1979)
in “Coda”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2016

░ BIPOLAR

IJuxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
– eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
– e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

░ INCERTO

que hora foi essa
que saltou do ventre
dos relógios
como um garrote
de cinzas?

devo ainda
esperar por mim,
enlouquecer no regaço
das catedrais como
pingo de sol num
peito de viúva?

eu quero dançar
sobre as lâminas rombas
deste tempo
quero cortar-me até ao osso
porque só a dor
é capaz de nos revelar
a grande mentira
que há por detrás
de todas as coisas

tranquilo, assim sereno
de saber que nunca
a posterioridade se
interessará por mim

 

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▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014

░ UMA NOVA ALIANÇA

Uma nova aliança atravessa
a descoberta do tempo

exploração periódica e lisa
da instabilidade dos sonhos.

Haverá asas no olhar
prisões nas partículas do sentir.

Haverá silêncios intermitentes
gritos, risos, turbulências
como febre em águas de passagem.

Mas os limites serão terra povoada
e o tilintar dos dias
dilatará de febre o círculo
imprevisível
de todas as solidões.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

░ Na cidade breve as ilustres criaturas

Na cidade breve as ilustres criaturas
apodrecem de vidinha inveja e conversata
entre voracidade e íngreme bajulação

descuidadamente espirram teorias
enquanto os pés ensaiam uma dança
de fulgor e desencanto
tão longe já do voo imaginado

recolhidas viajam no silêncio
enquanto os olhos se fecham

levemente ausentes

com a certeza de que acabou
a incandescência.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Pequeno bestiário académico”, Ed. Licorne, Évora, 2014

░ Sede

Está vazio o teu peito__No lugar
do coração talvez um ataúde
ou nem isso__uma sombra
igual a essa noite onde procuras
o mar__o imenso mar__e só encontras
sede

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, n. 1960)
in “Revista Relâmpago, nº. 35″, Lisboa, 2014

░ Abdicação

Aceito morrer em breve
mas não irei ter contigo
às salinas escuras
por onde tens andado
ficando à minha espera.

Também não quero o mar
nem a montanha
locais de iniciação

Quero um regato ameno
de água fina correndo
por entre arbustos rasteiros.

E então ao longe
a figueira
de folhas enganadoras

com uma sombra que oculta
o gesto da maldição.
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▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
in “Canções do Rio Profundo”, Asa Editores, Porto, 2002