ANAMNESE

Não procures atravessar o espelho,
Não há nada atrás dele e nada nele,
Não é de vidro e prata a tua pele,
Nem te mira invertido o que há adiante —
É parede, não porta, esse aparelho
Que faz a luz mentir, presa no instante.

Mas no que há atrás de ti, e não se espelha
Ao fundo do teu simulado rosto,
Ali fica o portal, jamais exposto,
Que espera a chave nova e há eras lavrada,
Ali há um que contigo se assemelha,
E que a empunha a te olhar, e não diz nada.

 

21-9-2015
 
_
▪ Alexei Bueno
( Brasil 🇧🇷 )
in “Desaparições”, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva, Editora Exclamação, Porto, 2017