POEMA DOS MOTORISTAS OFICIAIS

 

Encontram-se um pouco por todos os lugares.
Ora fumando,
orando pelos filhos junto a um deus
secretariado por magníficos
patrões.
De fato azul e gravata preta
de anel cachucho e jornal da bola,
o rabo habituado aos bons cabedais
pousado no capot ultra-reluzente.

Trazem da província em cada bolso do corpo
e estendem olhos julgadores às mulheres solitárias
de cigarro na boca em plana rua.
Às vezes são quatro ou cinco à espera do final
de um conselho em pleno parto,
de uma portaria inacabada
ou de uma reunião de economia mística.

Derramam no passeio
o ócio inexplicável de rústicos fiéis
e contam anedotas num bocejo amarelo de melancolia.
Quem lhes dera a reforma, a courela da mãe,
ou num sonho longínquo
essa noite sem lua em que engravidaram
a prima por descuido.

Sinto por todos eles um sentimento soturno
e muito gostaria
que Cesário os conhecesse
ao passear sozinho
pelas novas avenidas ao anoitecer.

 

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▪ Armando Silva Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )

ESTE MINISTRO

Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha

 

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▪ Fernando Assis Pacheco
( Portugal 🇵🇹 )
in “Respiração Assistida” – 2003

 

POETA NO SUPERMERCADO

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

Fernando Assis Pacheco
in “Cuidar dos Vivos”, 1963

VERTIGEM

Nem sempre sou brava ou forte
Há dias que entra água na primeira palavra
confundo o Sul com o Norte
perco-me no rés do chão

Há dias em que o mundo é um caminho
é um camião que me passa
atravessado na garganta
Há dias em que tudo o que preciso é uma manta

Nem sempre sou brava
nos mais altos dos céus as palavras parecem ocas
e algo se torna mais real
salto com um amargo na boca
numa paisagem feita de sal

Nem sempre sou forte
os sonhos nascem rareados
com pouco pelo, desfiados
nos novelos dos dias nublados

nos hálitos das segundas terças feias
que embaraçam as teias
e me tornam menos humana

Há dias que me levam
arrastada pela semana
em que a dor desce dum salto
no elevador estragado
num passo mal dado
a descer um degrau
a baixar a temperatura

Olha o degrau
Olha o degrau

Esfolo o joelho a caminhar
com a sede de suar

Há dias que me passa o barco
e a vontade de remar

Nem sempre sou brava
a água entra na primeira
e na última palavra
e nem sempre sou forte
confundo o Sul com o Norte
perco-me no rés do chão

Há dias assim
em que as rimas me saltam da mão
e todas as sílabas sabem a tónicas
desequilibradas no receio
de nunca mais conseguir beber um poema inteiro

 

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▪ Alice Neto de Sousa
( Portugal 🇵🇹 )

 

SILÊNCIO

Quando os dias compridos chegam ao fim, é preciso um tempo para estar em silêncio. Como quando estou em frente da lareira e , inconscientemente, estendo as mãos tensas para o silêncio, com os dedos abertos para o seu calor fugidio.

▪ Han Kang
( Coreia do Sul 🇰🇷)
in “O livro branco”( pag. 143)
Publicações D. Quixote, 2018

 

Cubos de açúcar

Ela devia ter na altura uns dez anos. Acompanhada por uma irmã, ia a um café pela primeira vez, e foi também a primeira ocasião em que viu cubos de açúcar. Aqueles cubinhos embrulhados em papel branco eram de uma perfeição infalível, decididamente demasiado primorosos para ela. Tirou o papel com todo o cuidado e passou o dedo sobre a superfície granulosa.
Desfez um canto, tocou-lhe com a língua, mordiscou aquela doçura estonteante e, por fim, meteu-o num copo de água e suspirou enquanto o via derreter-se.
Hoje já não é grande apreciadora de coisas doces, mas ver um prato com cubos de açúcar embrulhados ainda evoca nela a sensação de estar a presenciar algo sumptuoso. Há certas memórias que se mantêm imunes à erosão do tempo. E do sofrimento. Por isso, não é afinal verdadeiro que tudo seja deturpado pelo tempo e pelo sofrimento. Nem é verdade que tudo se perca ou seja destruído.

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▪ Han Kang
( Coreia do Sul 🇰🇷)

in “O livro branco”(pag. 87)
Publicações D. Quixote, 2018