ESTE MINISTRO

Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha

 

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▪ Fernando Assis Pacheco
( Portugal 🇵🇹 )
in “Respiração Assistida” – 2003

 

TODOS OS DIAS OS ENCONTRO

Todos os dias os encontro. Evito-os.
Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem.
Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade.
Sobretudo, vençam sem me chatear.

 

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▪ Alexandre O’Neill
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

PASSEPARTOUT

estou aqui no mundo
acho eu, está nos registos
e acho que isso
não tem dúvida,
tanto para filósofos
idealistas como
realistas,
embora ambos
levantem dúvidas
acerca do que afirmam os registos
pois para uns
as palavras afirmam coisas e
nem sempre as coisas
que afirmam
confirmam as palavras
que as afirmam e,
para os outros é o contrário.
isso já se sabe,
mas a palavra estou
afirma tudo isso
ao mesmo tempo
e não é de há pouco,
afirma que estou lá
horas e horas, dias e dias, e até
meses, centenas e centenas
de meses, milhares acho que não
mas não tenho a certeza,
a matemática
é que ainda assim
ajuda a esclarecer:
dois caracóis
e dois ramos de salsa
são quatro,
mais dois alhos
são seis,
mas isso é na panela,
a magia está
nela, porque
passada meia hora
aliás vinte e tal minutos
— gosto de ser exacto —
já são outra vez
só dois, e depois
nem é nenhum,
porque a casca não conta;
volta a ser qualquer coisa
passadas horas mas não sei
se conta, nem quantos são.
mas fora a culinária,
hoje a matemática
é precisa para tudo,
não se faz nada sem ela,
nem sequer sexo: quantas são e
quais as variantes? só com algoritmo,
o simples ritmo claro que já não conta.
as excepções, além da culinária,
são só duas: apostas
na banca e no banco,
banco de futebol, claro: estas
é melhor na lua cheia,
na banca é melhor na nova,
já não pode haver mais perdas.
lua nova lua cheia
cinquenta por cento de cada,
mas com os quartos vazios, e depois
os repetidos carimbos
doze por cento por dia parece que é certo
mas pode ser mais pode ser menos,
pode-se ganhar um, pode-se perder outro,
e perto disso por dia,
mais tanto por noite,
depende dos marcados,
note-se bem!
nota-se e anota-se bem,
é a lua e a banca,
sobe, desce,
cresce mingua
daqui para ali
e depois para trás
e
de novo para a frente:
é o tempo que passa,
dito melhor passeia,
a matemática conta,
passa tempo passo eu no tempo
mas estou, fico
e pássaro (lindo jogo
tema tico-tico)

diz ela:
conhece Kirkegaard?

eu pergunto:
em que clube joga?

 

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▪ Alberto Pimenta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Zombo”, Edições do Saguão, Lisboa, 2019

ALEGRIA DEMORADA

Este poema tem um dia adormecido entre os braços.
Este dia torna-se poente a oeste do peito.
Este poente sente uma rua passar por suas veias.
Esta rua sobe ao céu em frente de uma casa.
Esta casa abre as asas quando chamo
Estas asas amparam o sono de amêndoa de Jacqueline.
Jacqueline é o retrato de uma menina de onze anos.
Esta menina aproxima-me dez horizontes com os dedos.
Estes horizontes têm uma lua sentada nos joelhos.
Esta lua nasceu numa janela minha, que já não canta.
Esta janela recupera seu céu e eu regresso pelos olhos.
Estes olhos viram uma rapariga que sorri.
Esta rapariga reclina a voz num pássaro que passa.
Esta voz é o eco dos passos do entardecer.
Este eco descansa meus caminhos e enxuga minhas estrelas.
Estas estrelas, que são filhas de tua noite e minha fronte.
Esta fronte, onde um rei de fogo governa um país de neve.

 

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▪ Francisco Luis Bernárdez
( Argentina 🇦🇷 )
in “Rosa do Mundo”, Assírio & Alvim, Porto, 2001

*

Mudado para português por _ José Bento  

 

HOJE É

Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho género ou identificação bastantes

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco

 

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▪ Helga Moreira
( Portugal 🇵🇹 )
In “Agora que falamos de morrer”, & Etc Editora, Lisboa, 2006