░ 6 haiku de Nick Virgilio

 

in the empty church
at nightfall, a lone firefly
deepens the silence

na igreja vazia ao anoitecer,
um pirilampo solitário
adensa o silêncio

*

ever present
in the cicada’s cry:
hot summer

presente sempre
no cantar da cigarra:
o verão quente

*

the incoming tide:
a tiny crab emerges
from a deep footprint

maré cheia:
um caranguejozito emerge
de uma pegada funda

*

in the old pond
beside the monk’s reflection
the autumn moon

no velho lago
ao lado da reflexão do monge
a lua de outono

*

an old scarecrow –
for a moment
forgetting my loneliness

um espantalho velho –
esquecendo a minha solidão
por um momento

*

filling the silence
on the long distance telefone:
the things unsaid

a preencherem o silêncio
na chamada de longa distância:
as coisas por dizer

 

_
▪ Nick Virgilio
(EUA, n. 1928 – 1989)

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)

Nick Virgilio

 

 

 

░ Receita para a felicidade em Khaborovsk ou um lugar qualquer

Uma grande avenida com árvores
e um grande café ao sol
com café bem forte em pequenas chávenas.

Um homem ou uma mulher que nos ame
Não necessariamente muito bonitos.

Um belo dia.

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, n. 1919)
in “Recipe For Endless Life_The Selected Poems”, New Directions, EUA, 1981

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Recipe For Happiness in Khaborovsk Or Anyplace

 

One grand boulevard with trees
with one grand cafe in sun
with strong black coffee in very small cups.

One not necessarily very beautiful
man or woman who loves you.

One fine day.

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, b. 1919)
From “Recipe For Endless Life_The Selected Poems”, New Directions, United States, 1981

 

░ Poema

Ao início da noite, como agora, um homem está curvado
sobre a sua secretária. Lentamente ergue a cabeça; uma mulher
surge, trazendo rosas.
O seu rosto flutua até à superfície do espelho,
marcado pelos raios verdes dos pés das rosas.

É uma forma
de sofrimento: depois a página transparente
levada sempre à janela até as suas veias aparecerem
como palavras por fim cheias de tinta.

E é minha obrigação compreender
o que as une
ou à casa cinzenta mantida no sítio com firmeza pelo crepúsculo

porque eu devo entrar nas suas vidas:
é primavera, a pereira
a cobrir-se com uma fina camada de flores brancas e frágeis.

 

_
▪ Louise Glück
(EUA, n. 1943)
in “Poems 1962-2012”, Editora Farrar, Straus and Giroux, First Edition, USA, 2012

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Poem

In the early evening, as now, a man is bending
over his writing table.
Slowly he lifts his head; a woman
appears, carrying roses.
Her face floats to the surface of the mirror,
marked with the green spokes of rose stems.

It is a form
of suffering: then always the transparent page
raised to the window until its veins emerge
as words finally filled with ink.

And I am meant to understand
what binds them together
or to the gray house held firmly in place by dusk

because I must enter their lives:
it is spring, the pear tree
filming with weak, white blossoms.

 

_
▪ Louise Glück
(USA, b. 1943)
From “Poems 1962-2012”, Farrar, Straus and Giroux, First Edition, USA, 2012

 

░ Adormeci num rio

Adormeci num rio, acordei num rio,
da minha misteriosa
incapacidade de morrer nada sei
dizer-te, nem
de quem me salvou ou por que razão –

Havia um silêncio imenso.
Nenhum vento. Nenhum som humano.
O século amargo

tinha chegado ao fim,
o glorioso, o duradouro,

o sol frio
persistia como uma antiqualha, um memento,
com o tempo a correr por detrás –

O céu parecia muito límpido,
como no inverno,
o solo seco, inculto,

a luz oficial atravessava
calmamente uma fresta no ar

digna, complacente,
desfazia a esperança,
subordinava imagens do futuro aos sinais da passagem do futuro –

Julgo que caí.
Só à força pude tentar levantar-me,
tão estranha me era a dor física –

Tinha esquecido
a dureza destas condições:

a terra, não obsoleta,
mas quieta, o rio frio, pouco profundo –

Do meu sono não recordo
nada. Quando gritei,
a minha voz trouxe-me um inesperado consolo.

No silêncio da consciência, perguntei-me:
porque rejeitei a minha vida? E respondi
Die Erde überwältigt mich:
a terra derrota-me.

Tentei ser exacta nesta descrição,
para o caso de alguém me seguir. Posso garantir
que o pôr-do-sol no inverno é
incomparavelmente belo e a memória dele
dura muito tempo. Julgo que isto significa

que não havia noite.
A noite estava dentro de mim.

 

__
▪ Louise Glück
(E.U.A., n. 1943)
in “Telhados de Vidro”, nº. 12, Averno, Lisboa, 2009
Tradução – Rui Pires Cabral

░ O barco fantasma

Flutua
Pela rua apinhada de gente,

A sua tonelagem
Imprecisa como o vento.

Desliza
Pela tristeza

Dos bairros de lata
Para os campos da periferia.

Lentamente,
Ora junto a um boi,

Ora junto a um moinho de vento,
Vai-se deslocando.

Passando
De noite como um sonho

Da morte,
Não se consegue ouvir;

Desloca-se clandestinamente
Sob as estrelas.

Tripulação
E passageiros de olhos fixos;

Mais brancos do que os ossos
Os seus olhos

Não
Se viram ou fecham.

 

_
▪ Mark Strand
(Norte-americano nascido no Canadá, 1934-2014)
in “Reasons for Moving”, Atheneum, New York , 1968

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ The Ghost Ship

 

Through the crowded street
It floats

Its vague
Tonnage like wind.

It glides
Through the sadness

Of slums
To the outlying fields.

Slowly,
Now by an ox,

Now by a windmill,
It moves.

Passing
At night like a dream

Of death,
it cannot be heard;

under the stars
It steals.

Its crew
And passengers stare;

Whiter than bone,
Their eyes

Do not
Turn or close.

 

_
▪ Mark Strand
(North American born in Canada, 1934-2014)
From “Reasons for Moving”, Atheneum, New York , 1968

 

░ Silêncio

O meu pai costumava dizer
“Pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas,
não precisam que se lhes mostre o túmulo de Longfellow
nem as flores de vidro em Harvard.
Independentes como o gato —
que leva a presa para a sua intimidade,
a cauda frouxa a cair da boca como um atacador —
têm prazer por vezes na solidão e podem ficar sem palavras
roubadas por outras que os encantaram.
O sentimento mais profundo revela-se no silêncio;
não no silêncio, mas na contenção”.
Nem faltava à verdade quando dizia “Façam da minha casa a vossa estalagem.”
Estalagens não são residências.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– Poema de domínio público –

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Silence

 

My father used to say,
“Superior people never make long visits,
have to be shown Longfellow’s grave
nor the glass flowers at Harvard.
Self reliant like the cat —
that takes its prey to privacy,
the mouse’s limp tail hanging like a shoelace from its mouth —
they sometimes enjoy solitude,
and can be robbed of speech
by speech which has delighted them.
The deepest feeling always shows itself in silence;
not in silence, but restraint.”
Nor was he insincere in saying, “Make my house your inn”.
Inns are not residences.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– This poem is in the public domain –

 

░ Número 8

Era uma cara que a escuridão podia matar
num instante
uma cara que o riso ou a claridade
podiam igual e facilmente ferir

‘À noite pensamos de forma diferente’
disse-me uma vez
recostando-se languidamente

e citava Cocteau

‘Sinto que há um anjo em mim’, dizia,
‘que estou sempre a escandalizar’

Depois ria, desviava o olhar,
acendia-me um cigarro,
suspirava, levantava-se

e alongava
a sua doce anatomia

deixava cair uma meia

 
_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, n. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Number 8

 

It was a face which darkness could kill
in an instant
a face as easily hurt
by laughter or light

‘We think differently at night’
she told me once
lying back languidly

And she would quote Cocteau

‘I feel there is an angel in me’ she’d say
‘whom I am constantly shocking’

Then she would smile and look away
light a cigarette for me
sigh and rise

and stretch
her sweet anatomy

let fall a stocking

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, b. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015