À Ponte de Brooklyn

Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de imergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade —

Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
— Até que os elevadores nos libertem do nosso dia…

Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;

E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, —
Implicitamente ficas com a tua liberdade!

De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.

Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra até à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram…
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.

E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa… tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.

Harpa e altar pelo furor unidos,
(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, —

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.

Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro…

Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóbada sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.

 

_
▪ Hart Crane
(E.U.A. 🇺🇲)
in “A ponte”, Tradução de Maria de Lourdes Guimarães 🇵🇹, Relógio D´Água, Lisboa, 1995

░ Paisagem

O tempo passou, transformou tudo em gelo.
Sob o gelo, o futuro bulia.
Se caísses lá dentro, morrias.

Era um tempo
de espera, de acção suspensa.

Eu vivia no presente, que era
a parte do futuro que podíamos ver.
O passado pairava sobre a minha cabeça,
como o sol e a lua, visível mas inalcançável.

Era um tempo
governado por contradições, como
Não sentia nada e
tinha medo.

O inverno esvaziou as árvores, voltou a enchê-las de neve.
Como eu nada sentisse, a neve caiu, o lago gelou.
Como se eu tivesse medo, permaneci imóvel;
o meu bafo era branco, uma descrição do silêncio.

O tempo passou, e uma parte dele tornou-se isto.
E outra parte evaporou-se simplesmente;
podíamos vê-la a pairar sobre as árvores brancas,
formava partículas de gelo.

Esperas a vida inteira pelo momento oportuno.
Depois o momento oportuno
revela-se acção consumada.

Eu via mover-se o passado, uma fila de nuvens a avançar
da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda,
consoante o vento. Por vezes

não havia vento. As nuvens pareciam
ficar onde estavam,
como uma pintura do mar, mais imóveis do que reais.

Por vezes o lago era um lençol de vidro.
Sob o vidro, o futuro murmurava,
modesto, convidativo:
tinhas de te concentrar para o não ouvires.

O tempo passou; chegaste a ver parte dele.
Os anos que levou eram anos de inverno;
ninguém lhes sentiria a falta. Por vezes

não havia nuvens, como se
as fontes do passado tivessem desaparecido. O mundo

perdera a cor, como um negativo; a luz atravessava-o
de lado a lado. Depois
a imagem apagava-se.

Por cima do mundo
só havia azul, azul em toda a parte.

 

 
__
▪ Louise Glück
(EUA 🇺🇲 )
Tradução – Rui Pires Cabral
in “Telhados de vidro” nº. 12, Editora Averno, Lisboa, 2009

 
 

░ Optimismo

Tenho vindo a admirar cada vez mais a resiliência.
Não a resistência simples de uma almofada cuja espuma
volta repetidamente à mesma forma, mas a tenacidade
sinuosa de uma árvore: tendo a luz de um lado sido bloqueada não há muito,
vira-se para outro. Uma inteligência cega, claro.
Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,
mitocôndria, figos – toda esta terra resinosa, que se não retrai.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “Given Sugar, Given Salt: Poems”, HarperCollins Publishers, E.U.A, 2001

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Optimism

 

More and more I have come to admire resilience.
Not the simple resistance of a pillow, whose foam
returns over and over to the same shape, but the sinuous
tenacity of a tree: finding the light newly blocked on one side,
it turns in another. A blind intelligence, true.
But out of such persistence arose turtles, rivers,
mitochondria, figs — all this resinous, unretractable earth.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “Given Sugar, Given Salt: Poems”, HarperCollins Publishers, E.U.A, 2001

 

░ 6 haiku de Nick Virgilio

 

in the empty church
at nightfall, a lone firefly
deepens the silence

na igreja vazia ao anoitecer,
um pirilampo solitário
adensa o silêncio

*

ever present
in the cicada’s cry:
hot summer

presente sempre
no cantar da cigarra:
o verão quente

*

the incoming tide:
a tiny crab emerges
from a deep footprint

maré cheia:
um caranguejozito emerge
de uma pegada funda

*

in the old pond
beside the monk’s reflection
the autumn moon

no velho lago
ao lado da reflexão do monge
a lua de outono

*

an old scarecrow –
for a moment
forgetting my loneliness

um espantalho velho –
esquecendo a minha solidão
por um momento

*

filling the silence
on the long distance telefone:
the things unsaid

a preencherem o silêncio
na chamada de longa distância:
as coisas por dizer

 

_
▪ Nick Virgilio
(EUA, n. 1928 – 1989)

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)

Nick Virgilio