SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

 

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▪ Antonio Cicero
( Brasil 🇧🇷 )
in “A cidade e os livros”, Editora Record, Brasil RJ, 2002

ESCREVER APÓS O HORROR

Escrever após o horror
talvez mantenha um homem vivo —
mas qual o poema das noites brancas
entrevistas pelas cortinas da sala?
Diante da janela, o perfil de uma palmeira
fossilizada, uma criança chora,
descerro a cortina, pressinto o luar
para lá do prédio defronte, no gramado
a relva judiada, a persistência dos grilos,
a sutil, misteriosa incorporação
de tudo a um cristal já trincado.

Tenho a ternura. Mantenho-a.
Sou o mesmo das garapas na praça.
O mesmo que não recusa esmolas.
O mesmo da busca dos gatos da avó
pelos telhados da casa eterna,
pisando com cuidado, sentindo ranger
a telha fria sob os meus pés
no instante em que alguém lá em baixo morre.
O mesmo que temia a porta fechada
no fundo de um corredor catacumba
(o amor alquebrado e eu, Pietà
de um poema desesperado, caminhando por entre
miasmas de cigarros e culpas irremíveis).
O mesmo dos poemas que floresciam
ainda quando não havia um tema,
ainda quando nem sequer existiam poemas.
O mesmo. Mas até quando
ou ainda no esquife serei o de agora?

Carrego a ternura como um vaso de flores
trazido dos lugares da infância
(a terra apodrecida, as raízes malcheirosas).
Digo a ternura com um hálito de palavras mortas,
mas não importa — tenho-a aqui,
sinto-a embotando os meus olhos durante a visão
de uma centena de negros acorrentados;
zune-me aos ouvidos como um festim
de vidas destroçadas — os passos
somam-se aos ecos da tarde,
há prolongados cantos de pássaros
roucos, terrenos, baldios
e casas desabitadas à espera
de um homem e seu método.

Pálido poema das noites brancas
apenas entrevistas por rendas rasgadas:
és tão lívido, faltam-te riquezas.
Até o sol surge como os centavos
esquecidos nos bolsos do casaco puído:
paga-me uma garapa nas tardes de sábado
ou é a esmola que dou a um esfomeado
com ridícula certeza de ser bom.

 

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▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016

 

ISTO NÃO É UM DOCUMENTÁRIO

o modo como vivi me confundiu com o que acontecia
viver era a transformação implacável de eu em nós

desde o início essa distância dentro de nós
um por não saber em que resultava
outro por não entender o que sucedia
um não era apenas personagem tampouco o outro documentarista

a memória fiel dos começos e o sabido atrativo dos fins
não firmaram quem era o mordomo de quem
de quem era a dívida ou a quem se servia

no chiaroscuro dos pronomes, estampado no meio da tela
vê-se agora um corte uma cicatriz
ou inversamente
um rasgo para a plateia

 

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▪ Marcos Siscar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Isto não é um documentário”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2019

 

 

CONDOMÍNIOS FECHADOS

Os condomínios fechados erradicam
as tabacarias diante das janelas
e os horizontes de becos à beira-mar.
Os prédios repetem-se, as sombras
parecem-se: são todas de homens.
Os gestos imitam-se e não há
mistério no mofo que se alastra
pelas paredes — provavelmente
foi um cano que se rompeu
e o zelador está sempre pronto.
O tempo não sangra. O instante
não alcança a crise: cristaliza-se,
multiplica a luz, os dias —
sou o de ontem, desde sempre.
Diante de qual parede esperar
a porta que não irá se abrir?
Se os menos isso fosse claro.
Onde a criança que como chocolates?
Estão todos mortos, alheios, opacos.
São todos o universo a cair
sobre mim com um terror de fábula
infantil: leio sobre nebulosas,
sobre o brilho infindo dos quasares
e que jamais existiu um tempo
antes do tempo e então olho para o corpo
que ao lado dorme e penso
é mentira que exista amplidão maior
do que a do dia poeirento.
A noite continua. Queria
o meu coração fora de mim, apaziguado
como o gato defronte à janela
que dorme junto aos cactos.

 

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▪ Daniel Francoy
( Brasil 🇧🇷 )
in “Identidade”, Editora Urutau, S. Paulo, 2016

ESTOU ATRÁS

do despojamento mais intenso
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra

 

28.5.69

 

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▪ Ana Cristina Cesar
(Brasil 🇧🇷)
in “Poética”, Companhia das Letras, Brasil, 2013

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

 

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▪️Rogel Samuel
(Brasil 🇧🇷)
_ inédito _

atrás do atrás

pode levar muito tempo
até que o escondido de suas pálpebras
deixe de ser gelo para habitar uma nova casa
atrás do atrás estão os verdadeiros motivos
que fizeram você se despir
e aceitar meu convite para tomarmos um banho
atrás de nós apenas o tempo passa
as floriculturas _ inclusive _ fecham as suas portas
porque não recebem clientes após as 22 horas
a moça diz _ sinto muito estamos fechados
o que não importa
porque não queremos nos presentear com flores

ontem quando voltei uma neblina espessa
cobria o mundo e o vidro do meu carro
podia jurar que o lugar que passo todos os dias
não era o mesmo lugar
pois havia uma nuvem branca
como o gelo que se esconde em nossas pálpebras

ninguém inventou um instrumento
para medir as expectativas do vento (ou as nossas)
nós e o vento somos os mesmos
:
vivemos e gemeremos sobre um nicho de porta
translúcida _ opaca _ ou de chumbo
nada um importa
:
o que está escondido está atrás do atrás
e vindo para a frente
como uma centena de centopéias
atrás de uma flor de açúcar
e a vida humana
atrás do atrás _ sempre atrasada
esperando um trem ou coisa parecida
para levar seus cadáveres para a bolsa de valores
haverá chuva?
alguém incomodará nosso sexo durante a tarde?
atrás do lençol deixaremos um suor petrificado
guardado como um precioso caco de vidro
que entretanto não cortará nossa pele

gosto de inventar matérias novas
para esconder as matérias velhas
de sufocar o conhecido
andar de teleférico
e fazer têmpera com areia

atrás de mim está você
e eu atrás de você
sem que ninguém saiba
quem chegou primeiro
ou quem sairá depois
quando o que estiver escondido
se revelar para sempre
como o mais visível
e sempre presente
etc.

 

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▪ Augusto Meneghin
(Brasil 🇧🇷)
in “O mar sem nós”, 2ª edição, Editora Urutau, Brasil – Galiza – Portugal, 2019