░ HINO A SATÃ

Somente a neve sabe
a grandeza do lobo
a grandeza de Satã
vencedor da pedra desnuda
da pedra desnuda que ameaça o homem
que invoca em vão a Satã
senhor do verso, desse agulheiro
na página
por onde a realidade
cai como água morta.

 

HINO A SATÃ (2ª versão)

A grandeza do lobo
não é a penumbra
nem o ar
é somente o fulgor de uma sombra
de um animal ferido no jardim
à noite, enquanto tu choras
como no jardim um animal ferido.

 

HINO A SATÃ (3ª versão)

Os cães invadem o cemitério
e o homem sorri, inquieto
ante o mistério do lobo
e os cães invadem a rua
em seus dentes brilha a lua
mas nem tu nem ninguém, homem morto
espectro do cemitério
saberá se aproximar amanhã nem nunca
do mistério do lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

HIMNO A SATÁN

 

Sólo la nieve sabe
la grandeza del lobo
la grandeza de Satán
vencedor de la piedra desnuda
de la piedra desnuda que amenaza al hombre
y que invoca en vano a satán
señor del verso, de ese agujero
en la página
por donde la realidad
cae como agua muerta.

 

HIMNO A SATÁN (2ª versión)

La grandeza del lobo
no es la penumbra
ni aire
es sólo el fulgo de una sombra
de un animal herido en el jardín
de noche, mientras tú lloras
como en el jardín in animal herido.

 

HIMNO A SATÁN (3ª versión)

Los perros invaden el cementerio
y en hombre sonríe, extrañado
ante el misterio del lobo
y los perros invaden la calle
y en sus dientes brilla la luna
pero ni tú ni nadie, hombre muerto
espectro del cementerio
sabrá acercarse mañana ni nunca
al misterio del lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

░ Escrever

Se me roubarem a palavra escreverei com o silêncio.
Se me roubarem a luz escreverei na escuridão.
Se perder a memória inventarei outro olvido.
Se detiverem o sol, as nuvens, os planetas,
serei eu a girar.
Se suspenderem a música cantarei sem voz.
Se queimarem o papel, se secarem as tintas,
se estourarem as telas dos computadores,
se derrubarem as paredes, escreverei no meu sopro.
Se apagarem o fogo que me ilumina
Escreverei no fumo.
E quando o fumo já não existir
escreverei nos olhares que hão de nascer sem os meus olhos.
Se me roubarem a vida escreverei com a morte.

 

            (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(Espanha, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

Mudado para português por _ Giselle Unti_ nasceu em São Paulo, onde viveu até aos 20 anos. Licenciou-se em Letras Modernas em França e conta vários livros publicados na área de Ciências Humanas. Actualmente vive em Lisboa e trabalho como tradutora freelancer para várias instituições e editoras.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Escribir

 

Si me quitan la palabra escribiré con el silencio.
Si me quitan la luz escribiré en tinieblas.
Si pierdo la memoria me inventaré otro olvido.
Si detienen el sol, las nubes, los planetas,
me pondré a girar.
Si acallan la música cantaré sin voz.
Si queman el papel, si se secan las tintas,
si estallan las pantallas de los ordenadores,
si derriban las tapias, escribiré en mi aliento.
Si apagan el fuego que me ilumina
escribiré en el humo.
Y cuando el humo no exista
escribiré en las miradas que nazcan sin mis ojos.
Si me quitan la vida escribiré con la muerte.

 

          (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(España, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

░ SERENIDADE

 

A Martin Heidegger

Há somente duas coisas: meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência somente se acende
quando o ser está contra ela:
é assim que todo conhecimento
e a matriz de toda figura
é uma ferida,
e somente é imortal
o que chora.
A noite, mãe da sabedoria
tem a forma inacabada do pranto.

***

A luz, a luz
quando estava muito perto do mar
limite do deserto
do deserto em que florescem as rosas cruéis
famélicas do homem.

***

As palavras
constroem o bosque
uma árvore é somente uma árvore
quando tocada pelo poema.

***

Os sinos varrem o som
anunciam letra a letra o deserto
em que uma flor apodrece entre as mãos murchas
de uma velha
que chora por haver perdido seu nome.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão original /Versión original

 

░ SERENIDAD

A Martin Heidegger

Sólo hay dos cosas: mi rostro desfigurado
y la dureza de la piedra.
La conciencia sólo de enciende
cuando el ser está contra ella:
y es así que todo conocimiento
y la matriz de toda figura
es una herida,
y sólo es inmortal
lo que llora.
Y la noche, madre de la sabiduría
tiene la forma inacabable del llanto.

***

La luz, la luz
cuando estaba demasiado cerca del mar
límite del desierto
del desierto en que florecen las rosas crueles
hambrientas del hombre.

***

Las palabras
construyen el bosque
un árbol es sólo un árbol
cuando lo toca el poema.

***

Las campanas barren el sonido
enuncian letra a letra el desierto
en que una flor se pudre entre las manos ajadas
de una vieja
que llora de haber perdido su nombre.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

 

░ A morte de Beverly Hills

V

 

Nas cabines telefônicas
há misteriosas inscrições desenhadas com batom
São as últimas palavras de doces garotas loiras
que com o decote ensanguentado se refugiam ali para morrer.
A última noite sob o pálido neon, último dia sob o sol alucinante,
ruas recém regadas com magnólias, faróis amarelos dos carros
de polícia no amanhecer.
Te esperarei a uma e meia, quando saíres do cinema – e a
esta hora está morta no Depósito aquela cujo
corpo era um ramo de orquídeas.
Ferida nos tiroteios noturnos, encurralada nas esquinas
pelos refletores, esbofeteada nos night-clubs,
meu verdadeiro e doce amor chora em meus braços.
Uma última claridade, a mais afilada e nítida,
parece deslizar-se dos locais fechados:
esta luz que detém os transeuntes
e lhes fala suavemente de sua infância.
Música de outro tempo, canção ao compasso cujas velhas
—– notas conhecemos uma noite à la Ava Gardner,
garota envolta em um impermeável que beijamos
—– uma vez no elevador, na escuridão entre dois andares,
—– e tinha os olhos tão azuis, falava sempre em voz
—– muito baixa – se chamava Nelly.
Feche os olhos e escute o canto das sirenes pela noite
—– prateada de anúncio luminosos.
A noite tem cálidas avenidas azuis.
Sombras abraçam sombras em piscinas e bares.
No escuro céu combatiam os astros
quando morreu de amor,
—————————- e era como se recendesse devagar um perfume.

_
▪ Pere Gimferrer
(Barcelona ESP., n. 1945)
in “La muerte en Beverly Hills”, Editorial Ciencia Nueva,- Colección El Bardo, Madrid, 1968

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

La muerte de Beverly Hills

 

V

 

En las cabinas telefónicas
hay misteriosas inscripciones dibujadas con lápiz de labios.
Son las últimas palabras de las dulces muchachas rubias
que con el escote ensangrentado se refugian allí para morir.
Última noche bajo el pálido neón, último día bajo el sol alucinante,
calles recién regadas con magnolias, faros amarillentos de
los coches patrulla en el amanecer.
Te esperaré a la una y media, cuando salgas del cine -y a
esta hora está muerta en el Depósito aquélla cuyo
cuerpo era un ramo de orquídeas.
Herida en los tiroteos nocturnos, acorralada en las esquinas
por los reflectores, abofeteada en los night-clubs,
mi verdadero y dulce amor llora en mis brazos.
Una última claridad, la más delgada y nítida,
parece deslizarse de los locales cerrados:
esta luz que detiene a los transeúntes
y les habla suavemente de su infancia.
Músicas de otro tiempo, canción al compás de cuyas viejas
—– notas conocimos una noche a Ava Gardner,
muchacha envuelta en un impermeable claro que besamos
—— una vez en el ascensor, a oscuras entre dos pisos, y
—– tenía los ojos muy azules, y hablaba siempre en voz
—– muy baja- se llamaba Nelly.
Cierra los ojos y escucha el canto de las sirenas en la noche
—– plateada de anuncios luminosos.
La noche tiene cálidas avenidas azules.
Sombras abrazan sombras en piscinas y bares.
En el oscuro cielo combatían los astros
cuando murió de amor,
————————— y era como si oliera muy despacio un perfume.

_
▪ Pere Gimferrer
(Barcelona ESP., n. 1945)
in “La muerte en Beverly Hills”, Editorial Ciencia Nueva,- Colección El Bardo, Madrid, 1968

 

░ DEPOIS DO AMOR

Depois do amor, perguntas: “O que é o amor?”,
querendo convencer-me no teu silêncio
de que tu já o sabes,
de que tens resposta para tudo na vida,
ou pelo menos uma invejável capacidade de análise.

Eu não saberia dizer-te
se o amor é quietude, se aventura,
ou se tem outros nomes
– penumbra, labirinto, intensidade, desejo –
com os quais designá-lo vagamente.

Eu apenas poderia entreabrir a janela
desta ilha deserta que agora são os nossos corpos
e mostrar-te uma paisagem que venceu a morte.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
in “A arte das sombras”, Editorial Caja de Ahorros de Granada, Granada, Espanha, 1991

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░  TRAS EL AMOR

 

Tras el amor, preguntas: “¿Qué es el amor?”,
queriendo convencerme en tu silencio
de que tú ya lo sabes,
de que tienes respuesta para todo en la vida,
o al menos una envidiable capacidad de análisis.

Yo no sabría decirte
si el amor es quietud, es aventura,
o si tiene otros nombres
-penumbra, laberinto, intensidad, deseo-
con los que designarlo vagamente.

Yo tan sólo podría entreabrir la ventana
de esta isla desierta que ahora son nuestros cuerpos
y mostrarte un paisaje que ha vencido a la muerte.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
in “El arte de las sombras”, Editorial Caja de Ahorros de Granada, Granada, España, 1991

 

░ De la calle del Arcángel con la música en el corazón

Te esperaré hasta el día de la resurrección
sólo por verte aparecer con ese vestido rojo entre la hierba.
Suena la trompeta, vibra la seda
y el ventilador girando como la rueda de la fortuna.
Es un ritmo demasiado alegre para el Juicio Final.

Regresas abatida
cuando los grillos cantan las completas,
pareces un alma recién llegada del purgatorio
-aunque digas que vienes de la calle del Arcángel
y que te golpeas el pecho
porque traes música en el corazón-

Si fueras una gota de sangre entre la lana,
una amapola florecida por confusión en los almendros,
no me sorprenderías tanto.
Pero es otoño
y el rojo tiñe hasta las plumas de las aves,
si sabes mirarlo,
y entre la hierba
las zorras te han copiado el vestido.
Como tú, vienen de la calle del Arcángel
golpeándose el pecho
con la música en el corazón.

 

_
▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015

░ Las puertas no ajustan

Las malas hierbas sospechan que has dejado la casa,
los geranios lo saben,
y la sal, que no es pura, absorbe la tristeza.
El delator cloruro de magnesio
intuye tiempo de tormenta
y se apelmaza.
Siento humedad en los nudillos de los dedos,
las lágrimas han desplazado unos milímetros las jambas
y las puertas no ajustan.
Pero oculto a la madera que ha sido cortada,
no quiero despertarla, todavía crece.
Tal vez la meza,
tal vez la arrulle
con la nana antigua de las olas.

 

_
▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015