O grafómano andante

O rio é o autor de um incansável
arquivo em páginas de água.
Anota o olhar das árvores
ribeirinhas. Examina
a ortografia na correspondência
que chega aos pilares
da ponte. Alegra-se
com a intensidade carinhosa
dos amantes entre juncos
escondidos.

Os amantes também
querem que o rio se demore
nas suas carícias
e lhes dedique muitas linhas.
Alguns substantivos, verbo, um único
adjetivo e interjeições várias.
Com isto se contentam. Embora saibam que o texto
depressa chegará ao oceano,
biblioteca de escribas
fluviais, onde todas as histórias
de amor se confundem.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EL GRAFÓMANO CAMINANTE

 

El río es el autor de un incansable
dietario en páginas de agua.
Anota las miradas de los árboles
de ribera. Examina
la ortografía en la correspondencia
que llega a los sillares
del puente. Se complace
con la intensidad afectuosa
de los amantes entre juncos
ocultos.

Los amantes también
quieren que el río se detenga
en sus caricias
y les dedique muchas líneas.
Algunos sustantivos, verbo, un único
adjetivo e interjecciones varias.
Con eso se contentan. Aunque sepan que el texto
llega pronto al océano,
biblioteca de escribas
fluviales, donde todas las historias
de amor acaban confundidas.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

 

 

Ninguém

Acordei toda a minha vida ao mesmo sonho
e a cada instante tive de inventar-me quem era eu.
Procurei-me sem paz, como a si procura um homem que guarda
enormes quantidades de ansiolíticos no fundo dos seus bolsos
e recomendações terapêuticas.
Mas apenas encontrava o horizonte alucinado
da psiquiatria a pôr ordem na minha alma, os paraísos químicos
como forma de encontrar a verdade,
os sonhos que se sonharam falsos ao serem sonhados e não quiseram existir.

Ah sim, sonhei-me sem trégua
como um mendigo de sensações impossíveis,
como alguém falho de amor que procura amor
e acaba a chorar debaixo da intempérie absurda
dos seus sentimentos. Como alguém que, debaixo dessa intempérie,
saiu de si com o seu psiquismo sozinho e se procurou
no outro, mas o outro não era nada:
só esse horizonte de sacos de lixo à beira de todos os caminhos
abertos no meu coração, e estabelecimentos alternativos
para a cura de qualquer cansaço e de qualquer metafísica,
estabelecimentos onde sempre se via um velho meditar
o seu suicídio enquanto acariciava
a tremer o colesterol da sua pança
debaixo de uma camisa Cacharel de contrafacção.

Espectador irónico de mim mesmo
nunca me conheci porque sempre duvidei que existisse.
E alguém alheio a mim representava essa doce mentira de visitar o mundo
e ver como a vida passa.
A complexa maquinaria de um pássaro cantava nos ramos de uma magnólia
como um profeta alucinado e não me revelava nenhuma verdade.
As dálias e os lilases, com os seus vastos perfumes industriais,
com as alterações genéticas da sua beleza
apareciam no sonho quotidiano do que era real para mim,
mas não significavam coisa nenhuma.
Diferentes mulheres, com diferentes personalidades, com diferentes vidas por detrás,
com símbolos diferentes do que poderia significar cada uma dessas vidas
mostravam-se nos diversos canais informativos
de uma loja de electrodomésticos
a falar das suas tragédias como belos fantasmas
sem que ninguém lhes prestasse nenhuma atenção.

Sempre o pó das coisas,
como um vasto nevoeiro, sem ir a parte alguma.
Sempre a irrealidade dos sentimentos,
a irrealidade das percepções
que revelam a tragédia de viver. Sempre o viver
como algo sem propósito, sem nexo.
Como algo emprestado e falso onde nos dias límpidos,
no sonho dos dias límpidos, se podia fingir uma cidade
e homens e talvez o alento de algo como a vida.

Por vezes um pintassilgo regressava ali de não sei onde
e a leveza do seu bico sobre as pétalas transmitia-me um pouco
de calor. Um calor de existência.
Por vezes surpreendiam-me os meus próprios gestos
como se por detrás de eles houvesse uma alma,
ainda um instante de alma, algum alívio.
Por vezes uma humilde primavera
apócrifa parecia despertar dentro de mim.
E das janelas dos edifícios
ou no vislumbre da velocidade dos carros
o sol arremedava vigiar os meus pensamentos.

Mas no fim sentia que em tudo aquilo não estava eu,
que no lado do mais além de todas as presenças
a luz era um regueiro de cinza,
o deserto puro da minha fantasia, a metafísica
do meu próprio cansaço. Alguém não me deu a claridade de visão
nem a mente clara para ver claras as coisas.
Alguém talvez não pôs em mi demasiada lucidez
para ver o mundo na sua infinita simplicidade:
a rosa como rosa, o sol como sol,
a terra como terra sem estar eu pelo meio.
Sem estar o sonho de mim a invadir tudo.
Sem estar este sonhado fantasma que me acompanha
e a que chamo o nome que outros me dão.

Sempre soube que nunca me conheci
pois também nunca pude conhecer o mundo.
Tive de inventar-me quem era para, de vez em quando,
me julgar em posse de um pouco de realidade.
Tive de possuir um pouco de realidade
para perceber a minha dimensão como homem:
esta alma suja de dor, estes envelhecidos olhos pela passagem das insónias.
Para perceber que entre conhecer-se e desconhecer-se
o melhor é esquecer-se de si mesmo.
Que para esquecer-me de mim apenas devia ser ninguém:
a nuvem de pó de um remoto e solitário caminho.

Tenho os meus próprios paraísos químicos aqui junto da lareira,
os meus dias e as minhas noites dedico-os a regressar a uma qualquer longínqua província
do silêncio onde possa encontrar dentro da minha loucura
um pouco de serenidade. Sim, hoje regressei ao sonho
da morte como outra invenção,
talvez como a única verdade dentro deste equívoco.

E o que não sei é se pode morrer um morte

 

_

▪️Diego Doncel 
(Espanha 🇪🇸 )
in “Em Nenhum Paraíso“, Editora Averno, Lisboa

*

Tradução – Joaquim Manuel Magalhães _ 🇵🇹 _ Ensaísta, poeta e professor catedrático.

 

░ HÖLDERLIN

Que haja uma ponte
de pedra. Que a corrente
a abrace carinhosa
pela cintura, e depois se retire
sem dizer nada
e eu fique. Pelas suas areias
circulem carruagens.
Cheguem
com fardos volumosos
e saiam com
os
sacos entre as grades,
de passo bem ligeiro.

E que me trema a mão
ao escrever cartas.

Que o caminho
entre na penumbra
e o arvoredo o oculte de imediato
e a névoa caia
naquele ponto do bosque.

Que a janela de onde vejo isto
dê para fora, não para dentro.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in “La mirada”, Antología esencial 1982-2017, Fondo de Cultura Económica (FCE), Madrid, 2017

   *

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



 VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ HÖLDERLIN

 

Que haya un puente
de piedra. Que la corriente
lo abrace por la cintura,
cariñosa, y después sin decir nada
se vaya y yo
me quede. Y por su arena
transiten carruajes.
Que entren
con fardos voluminosos.
Que salgan
con los sacos en el adral
y el paso muy ligero.

Y me tiemble la mano
con la que escribo cartas.

Que el sendero
se adentre por la umbría,
y la arboleda
lo oculte de inmediato
y parezca tiniebla
en lugar de aquel bosque.
Que la ventana donde lo contemplo
dé a un afuera y no dé a un adentro.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in “La mirada”, Antología esencial 1982-2017, Fondo de Cultura Económica (FCE), Madrid, 2017

░ O PRISIONEIRO DO TEMPO

Começou porque me limitavam os anos,
doze anos, quinze anos, vinte anos…
Eram limites, eram fronteiras suportáveis:
o ano que vem, quando cumprir trinta anos,
o ano passado, o ano novo…
Eram limites amplos,
era possível a distância, o horizonte,
por muitos anos! Os espaços
dominavam o tempo
recebias a aurora, despedias a tarde
amplamente e amavas
docemente os sonhos.
Os anos eram os carcereiros
mas rondavam muito distanciados.
Havia quem vivesse cem anos!
Mais tarde, começaram os meses a limitar-me,
apareciam subitamente, tudo era muito distinto,
o tempo dominava os espaços,
era um limite mais pesado,
estavam mais próximos os carcereiros,
eram carcereiros!:
o mês que vem, dentro de uns meses,
oprimiam-me os meus próprios limites,
originava limites!
Que terá sido daquelas agradáveis distâncias,
há tempo pela frente, dizia,
quando me limitavam os anos.
Agora olhava com receio todas as coisas,
nove meses, três meses, um mês de prazo,
meses, meses voando sobre os sonhos.
E as semanas?
Deixaram os meses de cingir-me
e um novo limite controlava-me, uma nova medida
estendida por todo o mundo,
cobrindo de miragens todas as suas galerias.
Contava a vida por semanas,
semana atrás de semana.
Os carcereiros eram os oficiais de semana,
distraíam-me, envolviam-me nas verdades falsas,
a próxima semana, dura muito pouco uma semana,
a semana santa,
o meu mundo era a semana, a realidade era a semana,
a semana, só existia a semana.
Que era um mês senão quatro semanas
e que era um ano senão cinquenta e duas semanas…
E contava as semanas
e via a humanidade ansiosa
forçada à semana, vivendo para o fim de semana, vivos, livres
só o fim de semana.
Depois foram os dias,
comecei a contar os dias
sobressaltaram-me os dias,
era questão de dias,
pesavam enormemente os dias
e desejava por sua vez que passassem os dias
e que não passavam…
Aferrava-me aos dias, bons dias!,
o dia estava ali, era um carcereiro inamovível, omnipresente,
tudo mediam em dias.
Não era livre! Não podia ser livre!
O dia da minha boda, o dia da minha licenciatura em filosofia,
apenas um vazio para a minha aventura,
apenas ficava espaço e eu necessito de espaço, muito espaço,
não podia sair dos dias,
um dia e outro dia,
o dia das forças armadas, amanhã será outro dia,
outro dia!
Crescia a muralha dos dias,
o circo dos dias, um dia comia o outro dia,
os limites eram insustentáveis,
dias de jejum, dias de alegria,
mas tudo medido, era preciso obedecer ao dia,
despertar ao despertar o dia,
dormir ao dormir o dia,
a ordem do dia!
um dia é um dia, nos próximos dias…
agora, enquanto escrevo este poema,
já não conto os dias senão as horas,
faltam três horas, dura quatro horas,
que horas são, a que horas…
Os carcereiros converteram-se na minha sombra,
apenas falo, as horas confundem-se e confundem-me,
limites, limites, a tarde, a manhã, o meio-dia,
uma hora cai sobre outra hora, vence a outra,
uma hora é como outra hora,
hora adiantada, horas extraordinárias,
faz horas extraordinárias!,
a dança das horas, horas perdidas, o recorde da hora,
não somos seres, somos horas, corda de horas,
uma cada duas horas, quase seis horas,
e sonham as horas e já só podes ouvir as horas,
e tudo há-de mover-se num horário,
tudo há-de estar à hora,
tudo tem a sua hora,
quantas das minhas horas são horas minhas,
meia-hora, um quarto de hora, a hora!
Destrói-me pensar que nasci para as horas,
abro as mãos e tenho-as cheias de horas.
Ah, carcereiros, horas terríveis que nublais os meus olhos!:
dentro, levo-vos dentro, estou cheio de carcereiros, de sombras.

Não quero nem pensar como será a minha vida
quando ela depender dos minutos, quando
forem eles os meus carcereiros e não existam
os espaços, os sonhos, as dúvidas,
quando o meu corpo for uma garagem de minutos,
minutos, minutos, não tenho nem um minuto, só cinco minutos,
tudo sucederá em minutos, que fará de mim a fúria dos minutos,
quando não puder perder nem um minuto,
que humilhação me aguarda quando na minha vida
só se movam as agulhas dos minutos
que espaço pode haver entre minuto e minuto.
Que escura noite havia em vós, meses, anos,
e que traição os vossos espaços!
Éreis minutos, minutos, só minutos!
Que o mundo se afunde será questão de minutos!
Finalmente, finalmente, ah, finalmente,
quando apenas um sopro alente os meus sentidos
e só existam os segundos, sejam os segundos
os que cingem o meu corpo, a minha vida,
todo o meu ser um carcereiro monstruoso, uma áspide, uma víbora
destruindo os últimos reflexos,
todo o mundo um carcereiro horrível,
e quando todos forem fantasmas e as ideias se converterem em nuvens
e os sentidos em cavernas
e nos últimos segundos
passem os anos, os meses, os dias e as horas
convertidas em ar
e se encerrem os meus olhos e o rosto sem vida
riam como nunca por todos os abismos do mundo,
como desejarei continuar prisioneiro do tempo
como amarei o tempo – eu era tempo, doloríssimo tempo! -,
como amarei os limites – somente eles não estavam mortos -,
os anos e os meses,
os dias e as horas e os minutos,
todos os limites do mundo.
Como me arrancará a eternidade do tempo!

 

_
▪ Jesús Lizano
(Espanha, n. 1931-2015)
in “O Engenhoso Libertário – Breve Antologia Poética de Jesús Lizano“, com organização, tradução e prefácio de Carlos d’Abreu, Douda Correria, Lisboa, 2015.