░ Dois poemas

 

░ Restos

 

Os ossos da minha mãe num nicho.
As cinzas da minha tia também.

Uma vida.
Uma vida.

 

 

░ Aprendam com a folha da amendoeira

 

 

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O resplendor
é o mais importante.

 

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▪Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

░ Caroço de abacate

Plantei um caroço de abacate
na minha cozinha
para a Ruth
e para o Alan, que morreram.
Amigos os dois, mais a Ruth —
A da voz de
aveia e mel.
Vou replantar o caroço
dar-lhe espaço para ser árvore
viver
enquanto a dor durar.

 

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▪ Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Avocado Stone

 

I have planted an avocado stone
in my kitchen
for Ruth
and for Alan who died.
Both friends, Ruth more so —
She of the voice of
oatmeal and honey.
I will replant the stone
give it room to be a tree
To last
as long as grief lasts.

 

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▪ Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
From “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

░ Sobre a morte de um pintor de domingo

Fumava um cachimbo em cerejeira, conhecia tudo sobre lírios de canna
E lamentava não termos no críquete um verdadeiro lançador rápido.
O meu tio chamava à mulher Mãos Macias.
Uma vez em 1936 quando estava sentado a ler Ulisses
Na sua sala de estar em Holland Hall, um estudante interrompeu-o.
Anos mais tarde li-lhe um trabalho sobre D. H. Lawrence
E os Imagistas. Ouviu,
Falou de Lord Clive, as viagens de Charles Doughty,
“Meu caro jovem…”.
Segui o funeral de bicicleta
E saí cedo. Os amigos viram a cremação
Da entrada de uma casa vizinha.

 

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▪ Arvind Krishna Mehrotra
(India, n. 1947)
in “Eufeme” nº. 3 – Magazine de Poesia, Porto, 2017
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ On the Death of a Sunday Painter

 

He smoked a cherry-wood pipe, knew all about cannas,
And deplored our lack of a genuine fast bowler.
My uncle called his wife Soft Hands.
Once in 1936 as he sat reading Ulysses
In his Holland Hall drawing-room, a student walked in.
Years later I read him an essay on D.H. Lawrence
And the Imagists. He listened,
Then spoke of Lord Clive, the travels of Charles Doughty,
“My dear young fellow . . . “
I followed the mourners on my bicycle
And left early. His friends watched the cremation
From the portico of a nearby house.

 

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▪ Arvind Krishna Mehrotra
(India, b. 1947)
From “Distance in Statute Miles”, Clearing House, Mumbai, 1982