UM HOMEM E UMA PORTA

Um homem carrega uma porta
pela rua fora.
Procura a sua casa.

Ele sonhou
com a mulher, filhos e amigos,
a entrarem através daquela porta.
Agora vê o mundo todo,
a entrar através da porta
da sua casa ainda por construir:
homens, veículos, árvores,
animais, pássaros, tudo.

E a porta, o seu sonho
erguendo-se acima da terra,
anseia ser a porta dourada do paraíso.
Imagina nuvens, arco-íris,
demónios, fadas e santos
passando através dela.

Mas é o senhor do inferno
quem guarda a porta.
E agora deseja apenas ser uma árvore
cheia de folhas,
ondulando na brisa,
para providenciar alguma sombra,
ao seu carregador sem abrigo.

Um homem carrega uma porta
ao longo da rua.
Um homem e uma estrela.

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▪ K. Satchidanandan
( Índia 🇮🇳)
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

ENCONTRO NUMA FESTA EM LONDRES

Durante um minuto permanecemos desconcertadamente juntos.
Perguntas a ti mesmo em que língua hás-de falar-me,
ofereces, antes, uma cebola avinagrada num palito.
És jovem e talvez te esqueças
de que o Império vive
apenas nos sons puros das vogais que te ofereço
acima do ruído.

 

_
▪ Eunice de Souza
( India 🇮🇳 )
in “Rosa do Mundo” [2001 Poemas para o Futuro], Assírio & Alvim, 2001

*

Mudado para português por _ Cecília Rego Pinheiro 🇵🇹  Tradutora e Professora

░ Dois poemas

 

░ Restos

 

Os ossos da minha mãe num nicho.
As cinzas da minha tia também.

Uma vida.
Uma vida.

 

 

░ Aprendam com a folha da amendoeira

 

 

Aprendam com a folha da amendoeira
que se incendeia ao cair.
O solo arde.
A terra arde.
O resplendor
é o mais importante.

 

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▪Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

░ Caroço de abacate

Plantei um caroço de abacate
na minha cozinha
para a Ruth
e para o Alan, que morreram.
Amigos os dois, mais a Ruth —
A da voz de
aveia e mel.
Vou replantar o caroço
dar-lhe espaço para ser árvore
viver
enquanto a dor durar.

 

_
▪ Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
in “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Avocado Stone

 

I have planted an avocado stone
in my kitchen
for Ruth
and for Alan who died.
Both friends, Ruth more so —
She of the voice of
oatmeal and honey.
I will replant the stone
give it room to be a tree
To last
as long as grief lasts.

 

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▪ Eunice de Souza
(India, 1940–2017)
From “Learn from the almond leaf”, Poetrywala, Paperwall Media and Publishing Pvt. Ltd., England, 2016

░ Sobre a morte de um pintor de domingo

Fumava um cachimbo em cerejeira, conhecia tudo sobre lírios de canna
E lamentava não termos no críquete um verdadeiro lançador rápido.
O meu tio chamava à mulher Mãos Macias.
Uma vez em 1936 quando estava sentado a ler Ulisses
Na sua sala de estar em Holland Hall, um estudante interrompeu-o.
Anos mais tarde li-lhe um trabalho sobre D. H. Lawrence
E os Imagistas. Ouviu,
Falou de Lord Clive, as viagens de Charles Doughty,
“Meu caro jovem…”.
Segui o funeral de bicicleta
E saí cedo. Os amigos viram a cremação
Da entrada de uma casa vizinha.

 

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▪ Arvind Krishna Mehrotra
(India, n. 1947)
in “Eufeme” nº. 3 – Magazine de Poesia, Porto, 2017
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ On the Death of a Sunday Painter

 

He smoked a cherry-wood pipe, knew all about cannas,
And deplored our lack of a genuine fast bowler.
My uncle called his wife Soft Hands.
Once in 1936 as he sat reading Ulysses
In his Holland Hall drawing-room, a student walked in.
Years later I read him an essay on D.H. Lawrence
And the Imagists. He listened,
Then spoke of Lord Clive, the travels of Charles Doughty,
“My dear young fellow . . . “
I followed the mourners on my bicycle
And left early. His friends watched the cremation
From the portico of a nearby house.

 

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▪ Arvind Krishna Mehrotra
(India, b. 1947)
From “Distance in Statute Miles”, Clearing House, Mumbai, 1982