A VILA

 

(inspirado em Paula Rego)

 

Como range o lápis no papel
como cacarejam as galinhas nos bolsos
como gemem as pessoas quando se lhes arrancam

as unhas e o gato lhes comeu a língua
– foi a avó quem lho contou, sentada,
com as suas mãos encarquilhadas sobre o rosto da menina,

e entretanto, repleta de ternura e fúria,
amamentava um bebé com cabeça
de homem. É de arrepiar a pele,

acorda, acorda, é insuportável dormir
sozinha, podes sonhar que a criança
deixou de respirar ou flutua no mar,

afogada e ainda faminta. O homem-menino
está agachado no chão há dias,
a soluçar sobre a fralda; em breve será

presidente e porá fim a todas estas torturas.
A avó deitou-se na cama de chapéu posto;
está frio, e não há sinal das crianças.

 

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▪ Lesley Saunders
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “This Thing of Blood & Love”, Two Rivers Press 2022
Mudado para português por _ Ana Raquel Fernandes
 

AS BOAS FILHAS

 

inspirado em Paula Rego

 

O que devemos ensinar
às nossas filhas?

A arte de regatear
com os dentes apenas
ligeiramente à mostra

A ler nos lábios as lubricidades
que atravessam os olhos
dos homens na rua

A vestir o rosto forte
Das velhas de cabelos-corvos
Que viajam no metro de Lisboa

A adiar o sangue
Com ervas
E uma oração obscena

A surpreender a câmara
e o seu véu negro
de repente.

A chamar o sangue de volta
com outras ervas –
as que picam como agulhas de crochet.

A empunhar o corpo
como um arcanjo
numa armação de crinolina.

A pousar um marido
ao colo,
como se fosse um menino.

A acolher
a bondade
de outras mulheres.

 

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▪ Lesley Saunders
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “This Thing of Blood & Love”, Two Rivers Press 2022
Mudado para português por _ Ana Raquel Fernandes

POSTAIS

No início mandava-te um postal
De cada cidade que visitava.
Grüsse aus Bath, aus Birmingham,
Aus Rotterdam, aus Tel Aviv.
Mit Liebe. Os teus chegavam
Escritos em inglês, cheios de vírgulas.
Um de Hong Kong diz Hope,
you’re fine and still alive. Nessa altura
não escrevíamos com tanta frequência.

Hoje, nove anos quase separam-nos
Do lago e das montanhas azuis,
do quarto com varanda,
Mas a luz e a intensidade daqueles dias
Ainda aqui chegam de tempos a tempos.
O teu último postal vinha do Senegal,
O meu de Helsínquia. Não sei
Se nos voltaremos a ver. Sê feliz.
Se isto te chegar aos ouvidos, escreve um postal.

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▪ Wendy Cope
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

Confesso

Andei a persegui-la
pelo mini-mercado: a sua coroa
de tranças imaculadas, presas na perfeição por um gancho prateado,
a sua postura direita, irradiando suavidade,
o modo como colocou os iogurtes e os abacates no cesto,
espalhando paz como a Estrela Polar.
Quis perguntar-lhe “Em que corredor encontraste
a tua serenidade, sabes como
se consegue estar casado durante cinquenta anos, ou como viver sozinho,
desculpa-me por estar a interromper, mas pareces ter
um grau de sabedoria que faz a terra arder e girar no seu eixo -“,
só que nós não pedimos este tipo de informações a estranhos
nos nossos dias. Pelo que me limitei a dizer, “Adoro o seu cabelo.”

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▪ Alison Luterman
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por L.F. Parrado

Dique

A minha mãe chama-me,
um som familiar, de duas notas,
que atravessa os campos
e me encontra aqui
de joelhos num regato,
os braços metidos em lama até aos cotovelos.

Regresso
e tento explicar
o que estive a fazer este tempo todo
tão longe de casa.
“A fazer diques?”, vai ela perguntar.
“Ou a fazer poemas sobre fazer diques?”

 

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▪ Hugo Williams
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Pedro Mexia
in “Última Semana”, Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2014

CONTEXTO

Eu não fiz nada de errado
e a morte veio para metade da minha família.
Três mães e uma amiga. Eu não fiz nada de errado.

Eu não fiz nada de errado
e perdi o meu bebé no chão.
Eu perdi metade da minha mente
na sala de espera do hospital. Eu não fiz nada de errado.

Eu não fiz nada de errado.
e eu perdi você.

Ferida estranha e complicada.
Acumulação de todas as perdas que vieram antes.
Eu só estava tentando proteger.
Eu não fiz nada de errado.

Eu sei que a minha vida é de ouro.
Eu sei que, com ajuda, lutei muito.
Não sei como gravar a marca d’água nos calcanhares,
como impedir que meus membros recuem.
Como sentir metade de alguma coisa. E recuse educadamente a outra peça.
Como me manter em um só lugar. Eu não fiz nada de errado.

Como estancar o sangramento, em todas as circunstâncias, no chão.

Eu não fiz nada de errado.

 

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▪ Elizabeth M. Castillo
( Inglaterra 🇬🇧 )

 

A PALAVRA CERTA

Lá fora, à porta,
escondido pelas sombras,
está um terrorista.

A descrição está incorrecta?
Lá fora, àquela porta,
abrigando-se nas sombras,
está um combatente pela liberdade.

Não me exprimi bem.
Lá fora, à espera na sombra,
está um militante hostil.

As palavras não são mais
do que bandeiras que se agitam, titubeantes?
À sua porta,
vigilante na sombra,
está um guerrilheiro.

Deus me ajude.
Lá fora, desafiando todas as sombras,
está um mártir.
Vi o seu rosto.

Nenhumas palavras me podem ajudar agora.
Mesmo à porta,
perdido nas sombras,
está uma criança como as minhas.

Uma palavra para si.
À minha porta,
a mão bem firme,
os olhos muito duros,
está um jovem parecido com o seu filho, também.

Abro a porta.
Entra, digo-lhe.
Anda comer connosco.

O miúdo entra
e cuidadosamente, à porta,
tira os sapatos.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

*

Mudado para português por — Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

Nota: Poema que integrou a “Revista LÓGOS – Biblioteca do tempo”. 



 

THE RIGHT WORD

 

Outside the door,
lurking in the shadows,
is a terrorist.

Is that the wrong description?
Outside that door,
taking shelter in the shadows,
is a freedom fighter.

I haven’t got this right .
Outside, waiting in the shadows,
is a hostile militant.

Are words no more
than waving, wavering flags?
Outside your door,
watchful in the shadows,
is a guerrilla warrior.

God help me.
Outside, defying every shadow,
stands a martyr.
I saw his face.

No words can help me now.
Just outside the door,
lost in shadows,
is a child who looks like mine.

One word for you.
Outside my door,
his hand too steady,
his eyes too hard
is a boy who looks like your son, too.

I open the door.
Come in, I say.
Come in and eat with us.

The child steps in
and carefully, at my door,
takes off his shoes.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Uk 🇬🇧 )
From “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

 

COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.
Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar te pode dar isso”.
Já tentei fazer colares
de sementes de romã.
O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.
Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.
A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga