A PALAVRA CERTA

Lá fora, à porta,
escondido pelas sombras,
está um terrorista.

A descrição está incorrecta?
Lá fora, àquela porta,
abrigando-se nas sombras,
está um combatente pela liberdade.

Não me exprimi bem.
Lá fora, à espera na sombra,
está um militante hostil.

As palavras não são mais
do que bandeiras que se agitam, titubeantes?
À sua porta,
vigilante na sombra,
está um guerrilheiro.

Deus me ajude.
Lá fora, desafiando todas as sombras,
está um mártir.
Vi o seu rosto.

Nenhumas palavras me podem ajudar agora.
Mesmo à porta,
perdido nas sombras,
está uma criança como as minhas.

Uma palavra para si.
À minha porta,
a mão bem firme,
os olhos muito duros,
está um jovem parecido com o seu filho, também.

Abro a porta.
Entra, digo-lhe.
Anda comer connosco.

O miúdo entra
e cuidadosamente, à porta,
tira os sapatos.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

*

Mudado para português por — Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

Nota: Poema que integrou a “Revista LÓGOS – Biblioteca do tempo”. 



 

THE RIGHT WORD

 

Outside the door,
lurking in the shadows,
is a terrorist.

Is that the wrong description?
Outside that door,
taking shelter in the shadows,
is a freedom fighter.

I haven’t got this right .
Outside, waiting in the shadows,
is a hostile militant.

Are words no more
than waving, wavering flags?
Outside your door,
watchful in the shadows,
is a guerrilla warrior.

God help me.
Outside, defying every shadow,
stands a martyr.
I saw his face.

No words can help me now.
Just outside the door,
lost in shadows,
is a child who looks like mine.

One word for you.
Outside my door,
his hand too steady,
his eyes too hard
is a boy who looks like your son, too.

I open the door.
Come in, I say.
Come in and eat with us.

The child steps in
and carefully, at my door,
takes off his shoes.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Uk 🇬🇧 )
From “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

 

COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.
Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar te pode dar isso”.
Já tentei fazer colares
de sementes de romã.
O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.
Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.
A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

OS PRIMEIROS MOMENTOS

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados

_

▪Coral Rumble
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

 

UMA FOLHA DE ERVA

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
Do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
Não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia àcerca
De como uma folha de erva
Se torna cada vez mais difícil de oferecer

E de como quanto mais envelheces
Uma folha de erva
Se torna mais difícil de aceitar.

 

–
▪Brian Patten
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

MEDO

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta
[ culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice,
[ e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.
Já disse isso.

 
_

▪ Raymond Carver
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português(brasil) por Cide Piquet

DEMOCRACIA

Outra maldita tarde
de domingo, uma dessas
tardes que um dia escolherei
para me pendurar
do último prego flamejante
da minha angústia.
Pela rua
famílias com crianças,
pais e mães
de faces rosadas, satisfeitos
pelo recém-cumprido
dever eleitoral;
gente debruçada sobre rádios
que vomitam números, percentagens
em bases de dados.
Cordeiros a caminho do matadouro
dando a escolher a arma
ao magarefe.

–
▪ Roger Wolfe
( Inglaterra 🇬🇧 )
in “Fazer o trabalho sujo”, Língua morta, 2020
Mudado para português por Luís Pedroso

HÁ GENTE

Há gente que acredita que está viva
porque lê jornais e faz amor
com a mulher duas vezes por ano, ou por mês
ou por semana,
e toma café com os amigos
e sonha pertencer a alguma máfia.
Há gente que acredita que está viva
porque se levanta todos os ias às seis
da madrugada, para se arrastar para o trabalho,
e fuma um cigarro
e comenta o jogo de ontem
ou o último escândalo político
com os colegas. Há gente
que acredita que está viva porque tem um carro,
um apartamento e duas dúzias
de camisas e uma firme opinião
acerca de quem deveria governar este país.
há gente que acredita que está viva
porque vai tirando cursos por correspondência,
acorre a carimbar a declaração de desemprego,
chuta pr´á veia ou snifa coca ou sai para tomar
um copo ou levar no cu ao fim-de-semana,
vai ao cinema, liga a televisão,
fala ao telefone ou abre uma nova conta bancária.
Há gente que por estas coisas e algumas outras,
– quaisquer umas que queiram –
acredita que está viva e, o que é pior:
que tem algum direito à vida.

 

–
▪ Roger Wolfe
( Inglaterra 🇬🇧 )
in “Fazer o trabalho sujo”, Língua morta, 2020
Mudado para português por Luís Pedroso