LIMIAR

No corpo, onde tudo tem seu preço,
eu era um mendigo. Ajoelhado,

olhava, pela fechadura, não
o homem no banho, mas a chuva

a atravessar seu corpo: cordas de guitarra a
estalar sobre ombros em forma de globo.

Ele cantava, e é por isso
que eu lembro. Sua voz —

me preenchia até o osso
como um esqueleto. Até mesmo meu nome

se ajoelhava dentro de mim, pedindo
para ser poupado.

Ele cantava. É tudo que lembro.
Pois no corpo, onde tudo tem seu preço,

eu estava vivo. Eu não sabia
que havia motivo melhor.

Que certa manhã meu pai ia parar
— potro negro em tempestade —

& tentar escutar minha respiração contida
atrás da porta. Eu não sabia que o custo

de entrar numa canção — era perder
o caminho de volta.

Por isso entrei. Por isso perdi.
Perdi tudo com meus olhos

bem abertos.

 

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▪ Ocean Vuong
( Vietname 🇻🇳 )

*

Mudado para português do brasil por _ Rogério W. Galindo _ 🇧🇷

 

UM PASTOR ÁRABE PROCURA UM CABRITO NO MONTE SION

Um pastor árabe procura um cabrito no Monte Sion,
e no monte à frente eu procuro meu filho pequeno.
Um pastor árabe e um pai judeu
nos seus fracassos temporários.
As nossas vozes se encontram por cima
do Tanque do Sultão no vale entre nós.
Nós dois queremos que eles não entrem,
o filho e o cabritinho, na engrenagem
da terrível máquina do Had Gadiá.

Depois nós os encontramos entre os arbustos,
as nossas vozes retornaram a nós
choraram e riram por dentro.

A procura pelo cabrito ou pelo filho
sempre foi
o começo de uma nova religião nesses montes.

_
▪ Yehuda Amichai
( Israel  🇮🇱 )
in “Terra e paz” – Antologia poética – Editora Bazar do Tempo, Brasil RJ 2018
Organização e tradução – Moacir Amâncio

*

N. do T. > Had Gadiá: canção infantil de Pessach (a Páscoa judaica) sobre a compra de um cabritinho que é devorado por um gato e este por um cão, num ciclo de vida e morte que se renova.

A SORTE

A sorte não ama a quem a ama.
Esta pequena folha de louro
Chegou com anos de atraso.
Quando eu a queria
Para me tornar querido
De uma dama de lábios violeta
Me foi negada várias vezes
E agora me dão quando estou velho.
Agora que não me serve para nada.

Agora que não me serve para nada.
Lançam-me a folha ao rosto
Quase
como
uma
pazada
de
terra…

 

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▪ Nicanor Parra
( Chile 🇨🇱 )

*

Mudado para português do brasil por _ Carlos Machado 🇧🇷 Poeta e Jornalista

 

AO SOLDADO INTERNACIONAL CAÍDO NA ESPANHA

Se há homens que contém uma alma sem fronteiras,
espalhada a fronte e cabelos pelo mundo,
coberta de horizontes, barcos e cordilheiras,
com areia e neve, tu és um desses.

As pátrias te convocaram com todas as suas bandeiras,
que teu alento cobriu de movimentos belos.
Quiseste apaziguar a sede das panteras,
e hasteaste pleno contra seus flagelos.

Com o sabor de todos os sóis e mares,
a Espanha te colhe para que nela realizes,
tua majestade de árvore que abarca o continente.

Através dos teus ossos irão as oliveiras
desenraizando da terra as mais férreas raízes,
abraçando aos homens universal, fielmente.

 

_
▪ Miguel Hernández
( Espanha 🇪🇸 )
in “Viento del Pueblo”, Valencia, Socorro Rojo Internacional, 1937
Prólogo de Tomás Navarro Tomás

*

Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br


 

AL SOLDADO INTERNACIONAL CAÍDO EN ESPAÑA

 

Si hay hombres que contienen un alma sin fronteras,
una esparcida frente de mundiales cabellos,
cubierta de horizontes, barcos y cordilleras,
con arena y con nieve, tú eres uno de aquéllos.

Las patrias te llamaron con todas sus banderas,
que tu aliento llenara de movimientos bellos.
Quisiste apaciguar la sed de las panteras,
y flameaste henchido contra sus atropellos.

Con un sabor a todos los soles y los mares,
España te recoge porque en ella realices
tu majestad de árbol que abarca un continente.

A través de tus huesos irán los olivares
desplegando en la tierra sus más férreas raíces,
abrazando a los hombres universal, fielmente.

 

_
▪ Miguel Hernández
( Espanã 🇪🇸 )
in “Viento del Pueblo”, Valencia, Socorro Rojo Internacional, 1937
Prólogo de Tomás Navarro Tomás

 

VELHO POETA

Recebi tudo de vós:
Prêmios, honrarias, reconhecimento.

Renderam-se a meus méritos, com unânime aplauso,
as difíceis portas da Academia.

Os jovens me chamam mestre e procuram emular-me.

Com a idade logrei domesticar o tigre
que levo dentro; ser cortês,
amável, agradecido.

E, orgulhoso, em meu peito sustento as medalhas
das mais altas distinções.

Medalhas…
_____________ ¡Infantis miçangas,
desapiedados cencerros da glória!

Quanto, quanto daria para ser torpe, inexperiente,
maravilhado, jovem balbuciante
com todos os poemas pela frente.

 

_
▪ José Luis Parra
(Espanha 🇪🇸 )
in “De la frontera”,València, Pre-Textos, 2009

*

Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



 

VIEJO POETA

 

He recibido todo de vosotros:
premios, honores, reconocimientos.

Se han rendido a mis méritos, con unánime aplauso,
las difíciles puertas de la Academia.

Los jóvenes me llaman maestro y procuran emularme.

Con la edad he logrado domesticar al tigre
que llevo dentro; ser cortés,
amable, agradecido.

Y, orgulloso, en mi pecho ostento las medallas
de las más altas distinciones.

Medallas…
_____________   ¡Infantiles abalorios,
despiadados cencerros de la gloria!

Cuánto, cuánto daría por ser torpe, inexperto,
maravillado, joven balbuceante
con todos los poemas por delante.

 

_
▪ José Luis Parra
(España 🇪🇸 )
in “De la frontera”,València, Pre-Textos, 2009