VELAS (1899)

Os dias do futuro estão à nossa frente
como uma fila de velas acesas
velas douradas, quentes e vivazes.
Os dias do passado ficam para trás,
triste fila de velas apagadas;
ainda deitam fumo as mais chegadas,
mas frias, derretidas e torcidas.
Não quero vê-las, dói-me o seu aspecto
dói-me lembrar a sua luz primeira.
Olho em frente as minhas velas acesas.
Não quero voltar-me pra não ver, aterrado,
que depressa vai crescendo a fila sombria,
que depressa vão crescendo as velas apagadas.

 

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▪ Konstantinos Kaváfis
( Egipto  🇪🇬 )
Poesia mudada para português por Manuel Resende

MUDANÇA

Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Selecção e Tradução de Marco Bruno 🇵🇹, Editora Tinta da China, Lisboa, 2017

ORAÇÕES

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
( Espanha 🇪🇦 )
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 

 

░ ORACIONES

 

La ventana del cuarto me lo muestra.
Lo dibuja la luz con pulso firme,
la claridad lo colorea
con manchas de pintor impresionista
sobre un lienzo de arena.
Lo enseña, pero no lo entrega.
El espacio. El olor a tierra húmeda,
hojas dispersas por el cauce,
destello de limón maduro,
fragancia de las rosas
cuando amanece, sinfonía
caótica de pájaros, canción
de la lluvia en las cañerías
y en los cristales. El espacio
está en mí
aunque no lo posea. En mí pervive
si lo contemplo desde esta ventana.
No me muestra lo que estoy viendo,
sino aquello que soy.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
( España 🇪🇦 )
Inédito publicado con autorización previa del autor

 

ANJOS

As noites que dormi entre rostos e palavras,
Corpos dobrados pelo vento,
Linhas para que olhei enfeitiçado
Nos confins dos meus sonhos.
Noites geladas da Europa, o meu corpo no gueto
Mas sonhando.

 

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▪ Roberto Bolaño
( Chile 🇨🇱 )
in “La Universidad Desconocida”
Mudado para português por _ Carlos Vaz Marques 🇵🇹 Jornalista, tradutor e editor português

ENVIA-ME UMA CARTA

Envia-me uma carta
Envia-me uma carta, ainda que se perca.
Envia-me velas acesas, não sei,
um monte, por exemplo, que me olhe de cima.
Envia-me sonetos, pergaminhos,
capitéis coríntios que reforcem
esta luz da tarde que resvala.
Alguma coisa de Brahms, o mar e o seu epicentro.
Bandeiras sem manchas de cores,
que se possam pintar como se quiser.
E sobretudo ar, sem condutas, ar livre.
Por agora, a carta, ainda que se perca.

 

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▪ Blanca Sarasua
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Luis Filipe Parrado