░ ko un | three poems

What is this world?

Here’s a butterfly fluttering by
and there’s a spider’s web.

O que é este mundo?

Uma borboleta a esvoaçar aqui
uma teia de aranha ali.

 

Two people are eating
sitting facing each other

An ordinary everyday thing
and at the same time
the best thing

Like they say, it’s love

Duas pessoas comem
de frente uma para a outra

Uma coisa vulgar de todos os dias
e ao mesmo tempo
a melhor coisa

Como eles dizem, é amor

 

Rowing with just one oar
I lost that oar

For the first time I looked round at the wide
stretch of water

A remar com um só remo
perdi esse remo

Olhei pela primeira vez para a grande
extensão de água à volta

 

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▪ Ko Un
(Coreia do Sul, n. 1933)
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir das versões inglesas por Brother Anthony, Young-moo Kim e Gary Gach.

░ A possibilidade da chuva…

Se a chuva é possível,
tudo é possível: espinafre, alface, rabanete e endro,
até cenouras e batatas, até groselhas
negras e vermelhas, até andorinhas
sobre o lago no qual se pode ver
o reflexo da lua cheia, e morcegos a voar.
As crianças terminam o jogo de badminton e vão para dentro.
Há uma neblina a ocidente. Aos poucos
o cansaço dos meus membros dá lugar ao optimismo. Sonho
que peço emprestado um avião para ir até Colónia.
Devo também eu ir para dentro. O céu já quase escureceu,
uma meia-lua brilha entre ramos de bétulas.
Sinto-me de repente uma retorta de alquimista
onde tudo isto — o calor, o tédio,
a esperança e os novos pensamentos —
se vai fundindo numa coisa estranha, garrida e nova.

 

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▪ Jaan Kaplinski
(Estónia, n. 1941)
in “Evening Brings Everything Back “, Published by Bloodaxe Books Ltd, Tarset, 2004
Mudado para português por – Vasco Gato (Poeta, Tradutor)

░ DEDICATÓRIA

A literatura separou-nos: tudo o que soube de ti
aprendi-o nos livros
e ao que faltava,
eu pus-lhe palavras.

 

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▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Evohé: poemas eróticos”, Girón Editorial, Montevideo, 1971

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ DEDICATORIA

 

La literatura nos separó: todo lo que supe de ti
lo aprendí en los libros
y a lo que faltaba,
yo le puse palabras.

 

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▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Evohé: poemas eróticos”, Girón Editorial, Montevideo, 1971

 

░ O REAL

 

Nunca perguntes pela história real
Margaret Atwood

 

Nunca perguntes pela história real.

A realidade, já sabes, está sempre
mais além dos feitos,
mais aquém da sombra que cresce nas palavras.
Como esses reflexos de quando éramos pequenos
que morriam ao nascer em nossas mãos
deixando-nos desiludidos.

Ademais,
uma história não o é até ser contada.
Se vivida foram pedaços de tempo que enleamos,
contada é ramo seco
que colhemos do gelo coalhada de cristais.

Não perguntes
pela história real:
nunca teve voz o deus que a conhece.
 
 
_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.
 
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão Original / Version Original

 

LO REAL

Nunca preguntes por la historia real
Margaret Atwood

 

Nunca preguntes por la historia real.

La realidad, ya sabes, está siempre
más allá de los hechos,
más acá de la sombra que crece en las palabras.
Es como esos reflejos que cuando éramos niños
morían al nacer en nuestras manos
dejándonos burlados.

Por lo demás,
una historia no es tal hasta que no se cuenta.
Si vivida fue trozos de tiempo que anudamos,
contada es rama seca
que sacamos del hielo cuajada de cristales.

No preguntes
por la historia real:
nunca ha tenido voz el dios que la conoce.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

 

░ Sete poemas

Para Antonia

1
Na orla
da noite do corpo
estão a nascer dez luas.

2
Uma cicatriz faz lembrar a ferida.
A ferida faz lembrar a dor.
Estás a chorar outra vez.

3
Quando caminhamos ao sol
as nossas sombras são como barcas de silêncio.

4
O meu corpo está deitado
e ouço a minha própria
voz deitada junto a mim.

5
A rocha é prazer
abre
e entramos nela
quando entramos em nós
todas as noites.

6
Quando falo com a janela
digo que cada coisa
é todas as outras.

7
Tenho uma chave
abro a porta e entro.
Está escuro e entro.
Mais escuro e continuo.

 

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▪ Mark Strand
(Poeta norte-americano nascido no Canadá (11 de abril de 1934 — 29 de novembro de 2014)
in “Reasons for moving darker & The Sargentville notebook”, Alfred A. Knopf, Publisher, NY, 2015
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



VERSÃO ORIGINAL/ ORIGINAL VERSION

 

Seven Poems

 

For Antonia

 

1
At the edge
of the body’s night
ten moons are rising.

2
A scar remembers the wound.
The wound remembers the pain.
Once more you are crying.

3
When we walk in the sun
our shadows are like barges of silence.

4
My body lies down
and I hear my own
voice lying next to me.

5
The rock is pleasure
and it opens
and we enter it
as we enter ourselves
each night.

6
When I talk to the window
I say everything
is everything

7
I have a key
so I open the door and walk in.
It is dark and I walk in.
It is darker and I walk in.

(Poetry, 1970)

_
Mark Strand
(Poeta norte-americano nascido no Canadá (11 de abril de 1934 — 29 de novembro de 2014)
in “Reasons for moving darker & The Sargentville notebook”, Alfred A. Knopf, Publisher, NY, 2015

 

░ A PAIXÃO

Saímos do amor
como de uma catástrofe aérea
Havíamos perdido a roupa
os papéis
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Pelos móveis
pela casa
desperdícios quebrados:
copos, fotos, livros desfolhados
Éramos os sobreviventes
de um derrube
de um vulcão
das águas arrebatadas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de haver sobrevivido
embora não soubéssemos para quê.

 

_
▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Babel bárbara”, Editora Angria, Caracas, 1990

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

LA PASIÓN

 

Salimos del amor
como de una catástrofe aérea
Habíamos perdido la ropa
los papeles
a mí me faltaba un diente
y a ti la noción del tiempo
¿Era un año largo como un siglo
o un siglo corto como un día?
Por los muebles
por la casa
despojos rotos:
vasos fotos libros deshojados
Éramos los sobrevivientes
de un derrumbe
de un volcán
de las aguas arrebatadas
y nos despedimos con la vaga sensación
de haber sobrevivido
aunque no sabíamos para qué.

 

_
▪ Cristina Peri Rossi
(Uruguai, n. 1941)
in “Babel bárbara”, Editora Angria, Caracas, 1990

 

░ CÂMERA OBSCURA

Guarda a realidade num espelho escuro
e que a luz estreita lhe dê vida.
Sobre o cristal manchado renascem as paisagens:
difusas porém mágicas.
Que conflito interior entre luzes e sombras,
entre química e tempo,
nos devolve os signos feitos signos?
Invertidas imagens, agora,
nas nossas mãos mostram as cidades,
as visões enigmáticas do mundo.
Olhamos com assombro esta esquina do tempo,
este cartão iluminado e claro
que com a sua luz nos salva do esquecimento.

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
Poema inédito em livro

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ CAMERA OBSCURA

 

Guarda la realidad en un espejo oscuro
y que la luz estrecha le dé vida.
Sobre el cristal manchado renacen los paisajes:
difusos pero mágicos.
¿Qué conflicto interior entre luces y sombras,
entre química y tiempo,
nos devuelve los signos hechos signos?
Invertidas imágenes, ahora,
en nuestras manos muestran las ciudades,
las vistas enigmáticas del mundo.
Miramos con asombro este rincón del tiempo,
este cartón iluminado y claro
que con su luz nos salva del olvido.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
– Inédito –

 

░ Favorito

Quando me perguntam, “Quem é o seu poeta favorito?”
É melhor não mencionar o teu nome,
Embora tu sejas sem dúvida o meu poeta favorito
E eu também goste dos teus poemas.

 

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▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



Versão original/ Original version

 

░  Favourite

 

When they ask me, ‘Who’s your favourite poet?’
I’d better not mention you,
Though you certainly are my favourite poet
And I like your poems too.

 

_
▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in ““Two Cures for Love: Selected Poems 1979-2006”
Published by Faber & Faber, London UK, 2008

 

░ Um chocolate quente para Kingsley Amis

Foi um sonho que tive na semana passada
E pareceu-me essencial registá-lo de alguma maneira.
Eu sabia que como poema não seria grande coisa
Mas adoro o título.

 

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▪ Wendy Cope
(Reino Unido, n. 1945)
in “Making Cocoa for Kingsley Amis“, Published by Faber & Faber, London UK, 1986
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)