O SENHOR DEGAS ENSINA ARTE E CIÊNCIA NA ESCOLA INTERMEDIÁRIA DE DURFEE – DETROIT, 1942

Ele fez uma linha no quadro,
um traço negro da direita para a esquerda
a descer e recuou
para perguntar, sem olhar para ninguém em particular
como de costume: “O que é que eu fiz?”
Do fundo da sala Freddie
exclamou: “Quebrou um pedaço
de giz.” O senhor Degas não sorriu.
“O que é que eu fiz?” repetiu.
Os alunos mais inteligentes
concentraram o olhar nas escrivaninhas
excepto Gertrude Bimmler, que levantou
a mão antes de falar. “Senhor Degas,
o senhor criou a hipotenusa
de um triângulo isósceles.” Degas meditou.
Toda a gente sabia que Gertrude não podia
estar errada. “É possível,”
precisou ainda Louis Warshowsky,
“que tenha começado a representar
o telhado de um celeiro.” Lembro-me
de que passavam exactamente vinte das
onze, e eu pensei que na pior das hipóteses
isto continuaria por mais quarenta
minutos. Era o inicio de Abril,
a neve não tinha ainda derretido nos
pátios do recreio, os olmos e o ácer
bordejando passeios rachados
tremiam com o vento novo, e ocorreu-me
que antes que me desse conta estaria
a caminho da loja de doces
para comprar um Milky Way. O senhor Degas
enrugou os lábios e a aula
acalmou até que o braço longo
do relógio se moveu para o vinte e um
como que em cumplicidade com Gertrude,
que acrescentara confidente: “O senhor começou
a separar o escuro do escuro.”
Voltei-me a pedir ajuda mas agora as
árvores resistiam e tremiam e eu
percebi que isto podia durar eternamente.

 

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▪ Philip Levine
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por João Luís Barreto Guimarães

O HÓSPEDE

Perguntava-te tarde na outra noite
de onde brotam as violências do mundo
e tu abriste os teus olhos de farol em repouso
e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.

Há tantas coisas, amor, que não entendi,
mas a tua hospitalidade não é uma delas.

 

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▪ Juan Gabriel Vásquez
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice

QUEM SOU EU ?

A minha cabeça bate contra as estrelas.
Os meus pés estão nos cumes dos montes.
As pontas dos meus dedos estão nos vales e litorais da vida universal.
Na espuma sonora das coisas primeiras estico as mãos
e brinco com os seixos do destino.
Fui ao inferno e voltei várias vezes.
Conheço bem o céu, pois conversei com Deus.
Chapinho no sangue e nas entranhas do terrível.
Conheço o arrebatado assomo da beleza
E a revolta maravilhosa do homem diante de todos os letreiros
a dizer “Não Entrar

O meu nome é Verdade e sou o prisioneiro mais esquivo
do universo.

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▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)
Mudado para português por Vasco Gato

SILÊNCIO

Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

No peito
uma voz estranha despertou
e uma canção canta em mim longínquas lembranças.

Diz-se que os antepassados mortos antes de tempo,
com sangue ainda jovem nas veias,
com paixões intensas no sangue,
com sol ardendo nas paixões
retornam,
retornam para continuar
em nós
a vida não vivida.

Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

Ó, quem sabe, alma, em que peito cantarás
também tu mais além dos tempos
– nas doces cordas do silêncio,
em harpas de treva – a nostalgia afogada
e a frágil alegria de viver? Quem sabe? Quem sabe?

 

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▪ Lucian Blaga
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto

Dique

A minha mãe chama-me,
um som familiar, de duas notas,
que atravessa os campos
e me encontra aqui
de joelhos num regato,
os braços metidos em lama até aos cotovelos.

Regresso
e tento explicar
o que estive a fazer este tempo todo
tão longe de casa.
“A fazer diques?”, vai ela perguntar.
“Ou a fazer poemas sobre fazer diques?”

 

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▪ Hugo Williams
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Pedro Mexia
in “Última Semana”, Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2014

ONDE QUER QUE VAMOS

Onde quer que vamos, chegamos sempre demasiado tarde
àquilo que uma vez saímos para procurar.
E em qualquer cidade aonde cheguemos
estão lá as casas às quais é tarde para voltar
os jardins onde é demasiado tarde para passar uma noite de luar
e as mulheres às quais é demasiado tarde para amar
e que nos torturam com a sua presença intangível.

E quaisquer que sejam as ruas que pensamos conhecer
elas nos levam além dos jardins de flores que procuramos
e que espalham as suas pesadas fragrâncias pela vizinhança.
E sejam quais forem as casas para onde voltemos
chegamos tarde demais de noite para sermos reconhecidos.
E quaisquer que sejam os rios em que nos refletimos
não nos conseguimos ver até que lhes viremos as costas.

 

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▪ Henrik Nordbrandt
( Dinamarca 🇩🇰 )
Mudado para português por Jorge de Sousa Braga
 

Um sítio na floresta

A caminho ouvi um bater de asas assustadas. Foi tudo. A esse lu-
gar vai-se sozinho. É uma construção alta, totalmente escavacada,
um estrutura que oscila mas que nunca poderá desabar. O sol mi-
lenário penetra pelas fendas. Nesse jogo de luzes há uma lei da gra-
vidade ao invés: a casa parece estar assente no céu, e aquilo que cai,
cai de pernas para o ar. Nesse sítio temos de nos voltar para trás.
Nele é permitido estar de luto. Ali, atrevemo-nos a concordar com
grandes verdades, as quais quase sempre mantemos por desemba-
lar. Pensamentos profundos, meus, ali sobem à tona, ficam pendu-
rados como os crânios secos das palhoças de antepassados em al-
guma ilha minúscula da Melanésia. Um orvalho benéfico espalha-
-se à volta dos horríveis troféus. Quão suave pode ser a floresta!

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▪ Tomas Tranströmer
(Suécia  🇸🇪 )

in “50 Poemas”, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D’Água, Lisboa, 2012

O TEMPO APRAZADO

Vêm aí dias difíceis
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefecem ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

 

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▪ Ingeborg Bachmann
( Áustria 🇦🇹 )
Mudado para português por _ Judite Berkemeier e João barrento