SILÊNCIO

Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

No peito
uma voz estranha despertou
e uma canção canta em mim longínquas lembranças.

Diz-se que os antepassados mortos antes de tempo,
com sangue ainda jovem nas veias,
com paixões intensas no sangue,
com sol ardendo nas paixões
retornam,
retornam para continuar
em nós
a vida não vivida.

Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

Ó, quem sabe, alma, em que peito cantarás
também tu mais além dos tempos
– nas doces cordas do silêncio,
em harpas de treva – a nostalgia afogada
e a frágil alegria de viver? Quem sabe? Quem sabe?

 

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▪ Lucian Blaga
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto

Dique

A minha mãe chama-me,
um som familiar, de duas notas,
que atravessa os campos
e me encontra aqui
de joelhos num regato,
os braços metidos em lama até aos cotovelos.

Regresso
e tento explicar
o que estive a fazer este tempo todo
tão longe de casa.
“A fazer diques?”, vai ela perguntar.
“Ou a fazer poemas sobre fazer diques?”

 

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▪ Hugo Williams
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Pedro Mexia
in “Última Semana”, Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2014

ONDE QUER QUE VAMOS

Onde quer que vamos, chegamos sempre demasiado tarde
àquilo que uma vez saímos para procurar.
E em qualquer cidade aonde cheguemos
estão lá as casas às quais é tarde para voltar
os jardins onde é demasiado tarde para passar uma noite de luar
e as mulheres às quais é demasiado tarde para amar
e que nos torturam com a sua presença intangível.

E quaisquer que sejam as ruas que pensamos conhecer
elas nos levam além dos jardins de flores que procuramos
e que espalham as suas pesadas fragrâncias pela vizinhança.
E sejam quais forem as casas para onde voltemos
chegamos tarde demais de noite para sermos reconhecidos.
E quaisquer que sejam os rios em que nos refletimos
não nos conseguimos ver até que lhes viremos as costas.

 

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▪ Henrik Nordbrandt
( Dinamarca 🇩🇰 )
Mudado para português por Jorge de Sousa Braga
 

Um sítio na floresta

A caminho ouvi um bater de asas assustadas. Foi tudo. A esse lu-
gar vai-se sozinho. É uma construção alta, totalmente escavacada,
um estrutura que oscila mas que nunca poderá desabar. O sol mi-
lenário penetra pelas fendas. Nesse jogo de luzes há uma lei da gra-
vidade ao invés: a casa parece estar assente no céu, e aquilo que cai,
cai de pernas para o ar. Nesse sítio temos de nos voltar para trás.
Nele é permitido estar de luto. Ali, atrevemo-nos a concordar com
grandes verdades, as quais quase sempre mantemos por desemba-
lar. Pensamentos profundos, meus, ali sobem à tona, ficam pendu-
rados como os crânios secos das palhoças de antepassados em al-
guma ilha minúscula da Melanésia. Um orvalho benéfico espalha-
-se à volta dos horríveis troféus. Quão suave pode ser a floresta!

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▪ Tomas Tranströmer
(Suécia  🇸🇪 )

in “50 Poemas”, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D’Água, Lisboa, 2012

O TEMPO APRAZADO

Vêm aí dias difíceis
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefecem ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

 

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▪ Ingeborg Bachmann
( Áustria 🇦🇹 )
Mudado para português por _ Judite Berkemeier e João barrento 

O horizonte claro

 

Um dia reencontraremos as nossas pombas
e o amor e a beleza serão colhidos à mão.

O dia
em que o mínimo canto será um beijo
e cada pessoa um irmão para a outra.

O dia em que ninguém feche a sua porta,
o cadeado se converta em relíquia
e o coração seja suficiente para viver.

O dia em que o sentido de cada palavra seja desejar,
para que não procures a última palavra.

O dia em que a melodia de cada letra seja vida
para que eu não persiga a rima do meu último poema.

O dia em que cada lábio seja canção
para que o mínimo canto seja um beijo.

O dia em que chegues e fiques para sempre
e o amor se identifique com a beleza.

O dia em que voltaremos a atirar miolo de pão às nossas pombas.

Espero esse dia,
mesmo que cá não esteja.

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▪ Ahmad Shamlú
(Irão 🇮🇷 )
Mudado para português por Luis F. Parrado

Vem,minha irmã

 

Vem, minha irmã, traz o cântaro de azeite.

acompanha-me! Pois não esqueceste o ritual
entre nós devotamente guardado.
Este é o sétimo verão que ouvimos, enquanto,
tirando água da fonte, conversávamos:
nesse mesmo dia o nosso noivado morreu:
vamos à fonte do prado, onde dois álamos
estão de guarda perto de um pinheiro,
buscar água com o cântaro de barro cinzento.

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▪ Stefan George
( Alemanha 🇩🇪 )

Mudado para português por Luís Costa