ESQUEÇO-ME DE OLHAR

A fotografia da minha mãe no seu escritório dos anos 50
anda na minha carteira há vinte anos,
o papel acastanhado foi desbotando
e a borda recortada enrolou-se, depois endireitou-se.

A gola do vestido está discretamente cruzada.
Poderíamos supor que a chamam de longe,
dado o ângulo que o pescoço toma.

Era a primeira da família a apanhar
o autocarro de Claremont
que sobe a colina até à universidade.

A certa altura, durante as aulas na escola de medicina,
os estudantes negros tinham de arrumar as suas coisas
e de abandonar o anfiteatro, caminhando ao longo das filas de carteiras.

Atrás da porta fechada, decorria uma autópsia
e os estudantes negros não deviam ver
a pele branca exposta e cortada.

Sob a faca, sob a pele,
mistério da semelhança
num mundo que definia o modo como preto e branco
podiam olhar-se mutuamente, tocar-se,
a minha mãe olha para trás com uma desenvoltura intacta.

Cada vez que abro a carteira,
lá está ela, tão familiar que me esqueço
de olhar.

 

–
▪ Gabeba Baderoo
(🇿🇦 África do Sul)
Mudado para português por _ Soledade Santos _ a partir da versão francesa

ELES APRESSAM-SE A MORRER

Eles estão a morrer um após o outro;
lançar terra sobre eles tornou-se tão comum
como aspergir sal na comida.

São todos eles da mesma geração, a minha família,
ou mais precisamente, da mesma época,
e os filhos de uma época são como cães amarrados a um trenó:
na sua busca pelo ouro
ou correm todos ou caem juntos.

Não é matemática,
é como um pente, um pente que domará um cabelo em rebelião
após um namorico louco, ante o espelho.

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▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
Poesia mudada para português por João Luis Barreto Guimarães

MEU FILHO

Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.

 

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▪ Ana Pérez Cañamares
( Espanha 🇪🇸
Mudado para português por _ LF Parrado

a estátua e eu

Nos meus tempos mortos, ensino uma estátua a andar. Dada a sua imobilidade exageradamente prolongada, não é nada fácil. Nem para ela. Nem para mim. Dou-me conta de que uma grande distância nos separa. Não sou tão imbecil que não me dê conta disso.

Mas não se pode ter todas as boas no nosso jogo. Ou então, adiante.

O que interessa é que o seu primeiro passo seja bom. Para ela, tudo reside nesse primeiro passo. Bem sei. Sei disso muito bem. Daí a minha angústia. Por conseguinte, aplico-me. Aplico-me como jamais o fiz.

Coloco-me junto dela de modo rigorosamente paralelo: o pé, como ela, levantado e rígido tal estaca enterrada na terra.

Porém nunca é exactamente igual. Ou o pé, ou a curva, ou o porte, ou o estilo, há sempre qualquer coisa que falha e o tão esperado arranque não pode ter lugar.

É por isso que cheguei a um estado em que eu próprio já quase não consigo andar, tomado de uma rigidez, todavia toda feita de impulso, e o meu corpo fascinado faz-me medo e já não me leva a parte nenhuma.

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▪ Henri Michaux
( Bélgica 🇧🇪 )
Mudado para português por Margarida Vale de Gato