Líquido amor

Líquido amor
meu lago de narciso
onde pra ver-me não posso penetrar
e onde penetro sempre
porque na minha imagem
destruída
talvez te encontre a ti
se tu existes

e então existiria
para o lado de lá da ironia
com que nem finjo já sequer acreditar
no que procuro
sempre
porque já sei demais que esta procura
é o seu próprio fim
para que eu teça
e seja
o falso corpo construído
verdadeiro
da minha luz perdida

se tivesse havido luz
que eu pudesse ter perdido

mas nem lagos há
onde
me olhando
eu veja a tua imagem
há o teu corpo
há o meu corpo
há esta raiva fria
que prevê
e além da roupa e do perfume
em que fingimos nossos corpos
não temos nada mais que ossos e sangue
os lagos que os rochedos separaram
pra que não possam mais que reflectir
a sua bloqueada comunhão

 

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▪ Helder Macedo
(🇿🇦 África do Sul)
in “Poemas Novos e Velhos”, Editorial Presença Lisboa, 2011

ESTOU AQUI SENTADO NA MINHA CASA

Estou aqui sentado na minha casa
que é grande como uma mesa de mármore
tenho um pequeno espaço de trevas à frente
vejo que está cheio de mim vejo que está
num canto aborrecido do meu desespero
está sentado na minha casa prostrou-se
à minha frente e então não tenho outra vontade
que não de anunciar sente-se amigo sente-se
ao que vem sou eu disse-me sou uma história
uma diligência um mito comes carne
perguntei lá de onde estava sentado cada vez
cada vez mais me parecia um trono e ela
ela diz-me tenho estepes e perco-me de vista
e eu estava aqui sentado na minha casa
de gestos contidos sabes como quando conquistei
Paris e dei dois pulinhos de emoção contidos
como quando era criança e julgava que toda
toda a gente estava a olhar para mim e ainda pior
que afinal tinha passado desapercebido dei
dei dois passinhos de emoção rejubilei contido
e hoje passei o dia na minha mesa do tamanho
de um estádio de mármore e sussurrei
és tu és tu aqui mãe com nome de seita
estou disposto a matar por tuas mentiras
por exemplo que sou teu que me queres
lembras-te quando me fazias sentar do outro
do outro lado da mesa enquanto me negavas
um beijo lembras-te Mãe Rússia quando
à noite te pedia um sorriso sem dizer palavras
e tu quase me aconchegavas antes de apagar
antes de apagares e então estou aqui agora
sentado à espera de um botão de um erro
de uma falha de comunicação para fazer de ti
Terra das Terras Monstro dos Monstros
uma mesa bem grande de um rio ao outro
ah estou aqui sentado na minha casa
à espera que não haja hoje paredes para ela
que se possa transviar intuir rasgar
e formar muros de pedra de madeira
lembras-te como aquele que destruíste
aquele pobre carrinho aquele pobre trenó
de brincar em que me arrastava à espera de ti
à espera de uma mãe e quando já de noite
decidia que nunca iria tocar em bebida
já tu estavas sentada à minha frente e agora
que agonizo como um comum mortal que acreditou
em histórias vejo tão claramente que quis o que quis
e prostrei a meus pés os meus inimigos rijos
eram tantos como as estrelas do céu ou mais
agora aqui deitado na minha casa rodeado
por pessoas que me temem mas não me respeitam
como a Mãe Rússia e os seus cabelos de palha
e os seus cabelos de puta agora aqui deitado
ou sentado na minha casa recordo- me
inflo-me exalto-me se fosse poeta seria capaz
de escrever tudo isto subjuguei os outros
os outros que foram nossos dei cabo deles
trucidei-os desfi-los arruinei-os
porque foram ainda por cima irmãos desavindos
e com o seu sangue fiz um risco na cara
e chorei pouco ou melhor nada porque
porque desde que me deste cabo dos brinquedos
mãe ando com desejo de invadir a Polónia
os Normandos os Vikings e os Sumérios
desde que me possa sentar de novo na minha mesa
com mármore de vinte e quatro quilates
e ter alguém à espera do meu nojo isto é
do meu lamento profundo pelo passado
e pela esperança de um grandioso futuro
cheio de cadeiras e de olhares sérios e tristes
porque afinal irmão tive que vos destruir
para saberdes que sempre vos amei
aqui sentado na minha casa
de onde se vê sempre o sol morrer
e onde não há trevas que me cubram
apenas uma mesa enorme debaixo da qual
me escondo à espera que as bombas caiam
num outro país que escolhi sentado.

 

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▪ Pedro Braga Falcão
( Portugal 🇵🇹 )

 

Os teus olhos

Direi verde
do verde dos teus olhos

um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio
mais ave
ou vento

Direi vácuo
volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
_________ ou vinco

voragem mais crespada
ou precipício

 

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▪ Maria Teresa Horta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009

III (Grande Hotel de Paris)

A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.
E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.

 

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▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Flor dos Terramotos”, Edições Averno, Lisboa, 2005

Gazela da morte sombria

Quero dormir como dormem as maçãs,
fugir do tumulto dos cemitérios.
Quero dormir como dorme aquele moço
que queria cortar o coração no alto mar.

Não quero que me repitam que os mortos não perdem sangue,
que a boca apodrecida continua a pedir água.
Não quero conhecer os suplícios que vêm da erva
nem da luz com boca de serpente
que trabalha antes do amanhecer.

Federico García Lorca
Mudado para Português por Eugénio de Andrade

Um livro cheio de imagens

O meu pai estudava teologia por correspondência
E era a época de exames.
A minha mãe fazia renda. Eu sentava-me sossegado com um livro
Cheio de imagens. Caiu a noite.
As minhas mãos ficaram frias de tocar as caras
De reis e rainhas mortos.

Havia uma gabardine negra
[no quarto de cima
A balouçar no tecto,
Mas o que faria ali?
As grandes agulhas da mãe cruzavam-se velozmente.
Eram negras
Como o interior da minha cabeça nessa altura.

As páginas que virava faziam um som de asas.
“A alma é um pássaro”, disse ele uma vez.
No meu livro cheio de imagens
Uma batalha fervilhava: lanças e espadas
Pareciam uma floresta no inverno
Com o meu coração cravado e sangrando nos ramos.

 

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▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
Mudado para português por António Ladeira

CONTRALUZ

A luz do fundo imprime o seu perfil
com a nitidez de um acordar em Setembro,
sentindo o ar frio do outono contra
as faces rosadas. No entanto, é como se
tivesse mil anos na sua alma, mil…
gavetas de recordações que não quer
abrir, deixando para outros o trabalho
de descobrirem, num ou noutro papel,
os apontamentos de um tempo em que
foi livre. Agora, deixa para trás de si
o dia, o brilho da manhã, o voo dos
enxames que abandonam o continente,
e que desejaria seguir para onde não
tivesse de voltar. Ficará fechada
na moldura de uma obscura sala, e
lentamente a madeira que a prende ir-se-á
desfazendo. Ela, no entanto, não perde
a altivez, e entrega-se à eternidade efémera
de quem a vê para logo a esquecer.

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Fruto da Gramática”, D. Quixote, Lisboa, Setembro, 2014

Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como

Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como
uma ave deitada no seu peito, estancando a dor;
e beijos, muitos, pequenos goles de água na sua
boca triste. Levem-no para a luz e acendam
fogueiras nos seus olhos, pois esteve cego para
o amor. E cantem-lhe ao ouvido fados que o
tempo não possa desmentir, dêem-lhe o que pedir –

sol, uma razão, os vossos dedos mil vezes no seu
corpo, os meus dedos cortados par despertar
um sonho na sua pele. Rasguem-lhe as ligaduras
que nunca foram laços e livrem-no dos vermes
que pastam nas suas feridas. Deitem-no na neve
dos lençóis e encostem-lhe aos lábios bagas de
sumo vermelho, leite, e um pão que seja um seio
de mulher – o meu seio amputado, se ele o pedir.

Segurem-lhe o rosto com as mãos e soprem-lhe
os brancos do meio dos cabelos. Protejam-no
da escuridão absurda da noite roubando estrelas
e calem o silêncio chamando o seu nome
devagar. Porém, não o molestem nunca com
palavras – deixou a meio demasiados livros e
há-de morrer exausto do que não sabe; mas não,
não o deixem morrer mais uma vez, levem-no
convosco aonde forem e dêem-lhe o que pedir –

tempo, uma razão, o vosso riso explodindo
mil vezes nos seus lábios, as minhas lágrimas
cansadas para lavar a terra dos seus olhos. Não
o amem em vão, nem jurem amá-lo até ao fim,
porque, depois do fim, não saberão o que fazer de
tanto amor. Guardem-no, por isso, do bafo da
morte e dêem-lhe, simplesmente, o que pedir –

o vosso sangue mil vezes derramado nas suas
veias, o meu coração arrancado para lhe bater
no peito, a minha vida – sem ele ma pedir.

 

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▪ Maria do Rosário Pedreira
(Lisboa, n. 1959)
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013