Azul

Um dia hás-de nascer fora de ti
num sobressalto novo deste céu
onde se afoga a luz da madrugada
já sem nenhuma estrela que te aceite
a translúcida febre das palavras.
Um dia hás-de romper os cegos nós
do monstro a que chamavas coração,
o antigo labirinto que te ilude
a inocente máquina do corpo
na escuridão dos passos desastrados
em busca de um azul que te conheça.
Um dia hás-de falar sem dizer nada
que o mundo compreenda e será teu
esse primeiro azul da madrugada.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Saudade: Revista de Poesia”, n.º 11, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2009

O MEU PAI MORREU HOJE OUTRA VEZ

O meu pai morreu hoje outra vez
ficou ali estendido no corredor
da nossa casa
já morreu três vezes
mas está sempre vivo

na catequese ouvi dizer
que Deus não teve princípio
nem terá fim

o meu pai é filho de pai incógnito
e não consegue morrer
se calhar o meu pai é Deus.

 


▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

FINIS AMICITIAE

O pior de uma amizade que acaba
é vermos o metal de que era feita.
Com o fim dela, um mundo desaba
e o que se aprende não aproveita.

As fundações daquilo eram falsas,
a ternura era só investimento.
As palavras ternas dançavam valsas,
que tinham, depois, facturamento.

Numa amizade semeamos tanto!
Ela é como se fosse uma casa,
cheia de tesouros e de encanto.

Descobrir que ela é falsa arrasa:
o que foi grande e bom e já não é
desvela, em nós, um morto em pé.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

O TAL PRAZER DA ESCRITA

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores.

E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene.

A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária.

Escrevo, logo existo.
Mas também: escrevo, logo não sofro.

Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita.

Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.

O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia.

O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte.

A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano.

O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, na tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor…

Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats.

Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo.

Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

O MONGE

O monge espalhava nos claustros sementes à espera dos pardais.
Disse-me que, até a rezar muito antes de nascer o sol, metia no peito o gozo das magnólias à vista dos pássaros que aparecem às primeiras luzes. E que até o chão parecia ter bocados de música. E era por isso que gostava do silêncio. Encontrava lá a fieira das palavras.

Também, se dava conta do vento fino entre as outras plantas, dizia:
fala baixo; as palavras querem-se pequenas, música de passarinhos.

 

▪ Daniel Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in “Quasi Edições, 2003”

Nostalgia

o tempo
descansa dos seus crimes
preso à sombra fiel
desta memória
o amor
como um obediente
braço quebrado
reclama
o derramado vermelho
dum céu vencido
e os gritos
outrora assassinados
são agora palavras recusadas
suspensas nos lábios de pedra
desta aldeia tão remota
como tu

 

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▪ Gil T. Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
in “água forte”, A Cadeira de Van Gogh – Associação Cultural, Editora Medita (Brasil), 2014

Não me mostres nenhum norte

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

 

 

▪ A. M. Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011