Bebendo vinho com alguns contemporâneos

Os malefícios da multidão.
As sequóias sequiosas na sequência das secas.
As consequências de um choro na configuração do rosto.
A erva destrói o exterior da moradia.
O tédio é fraca compensação dos compromissos.

Que dizeis a este fim de caminho, onde o escritor recupera
a verdadeira solenidade da Afirmação?
Não conheço outro modo de escrever, isto é,
de substituir ao arrojo invertebrado da juventude
a coragem de uma lúcida conveniência. Assim,
renuncio ao pessimismo em proveito de outros sentimentos
mais fecundos – o nojo, o orgulho, o desejo nunca satisfeito.

Se acaso me ouvis
– não terei eu razão?

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

AGORA QUE O AMANHÃ

Agora que o amanhã é apenas
ficar mais velha
no meio das pausas e dos passos pelo corredor

a tua ausência não mudou o lugar de nada
e há palavras que ocupam cada vez mais espaços

vivo neste tempo de casas dispersas
e tenho medo de sair

 


▪  Maria Sousa
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

Queria que me acompanhasses

Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

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▪ Ana Paula Inácio
( Portugal 🇵🇹 )
In “Poetas sem qualidades”, Edições Averno, 2002

 

A DIVISIBILIDADE DOS AROMAS

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva
e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro
dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto
o meu perfume, o que pomos por cima das certezas
e das duvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.
Em breve me confundirei com o cheiro dos outros,
——————————————————  ——–daquele homem
vergado pelo saco das batatas, da florista a compor as
—————————————————–  ————–margaridas,
da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas
—————————————————-  ————— sangrentas
(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim
fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos
os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar
também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com
——————————————————–  ————-a mistura
dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele
a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta
e o teu cheiro irá entranhado em mim até a uma
——————————————————– —–distância infinita
das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada
estendendo a pele às dádivas do dia.

 

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▪ Rosa Alice Branco
( Portugal 🇵🇹 )
In “Das Tripas Ao Coração”, Campo das Letras, Porto

PARTO

O poema doía
porque queria nascer.

Agora
já não está cá dentro.
Sanguinolento
já me resvala
rápido-lento.
Parteira dele
dele me aparto deixo-o partir
ao sol da lua
ao ar do vento.

Agora é ele
já não sou eu.

Já não me dói. (Só me doeu)

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▪ Ana Goês
( Portugal 🇵🇹 )
in “Queria dizer palavras

É a minha vez

Estou aqui,
agitando os baldes que a chuva
encheu durante a madrugada
para evitar que o silêncio faça mais vítimas.
Fui colocar essa peruca de pardais e vim
a voar até aqui acima,
e agora não sei como inventar as escadas para descer.
Dizes que é apenas uma questão de tempo,
que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
o pé no vazio.

Já nem reparas,
mas estou aqui como um animal pré-histórico
a ficar enternecido com a bailarina
da tua caixa musical.
Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
o fim da era glaciar.

Passo a mão pelos cabelos molhados,
chove,
outra vez.
Há ecos de corpos rasgados
na gargalhada dos palhaços
e as hienas começam a ficar impacientes:
é tarde mas sobretudo urgente.

Deixa-me pôr esse vestido
com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
É a minha vez.
Sei o papel de cor.
Mas não chego para uma história.

 


▪ Golghona Angel
( Portugal 🇵🇹 )

 

REFEITÓRIOS

Os enfermos não têm encontros marcados
Nem jantam à luz das velas
Em mesas de toalhas de linho e pratos de porcelana
Nem bebem vinho de reserva
Em copos de cristal de pé alto
Nem são convidados para festins
Cheios de homens sábios que falam sobre Eros
Exuberantes e orgiásticos
Com Platão, Sócrates e Diotima sentados à cabeceira
Ficam calados
As mãos quietas sobre os joelhos
E histórias que deixaram esquecidas na mesinha junto à cama
Das que contaram nas horas de tédio
E que despejaram dentro de um jarro
De água
E que bebem de vez em quando
Para matar uma sede desconhecida
De vida e de beleza
De delírio
São como um enorme simpósio de silêncio
Uma voz oracular
Sem reflexões filosóficas.

 


▪  Ana Paula jardim
( Portugal 🇵🇹 )
in “Enfermaria”, Guerra e Paz Editores, 2022

UM DIA VIRÁ

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.


▪ Rosa Lobato de Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘A Noite Inteira Já Não Chega’ | (Poesia – 1983-2010)