Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.

 

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▪ José Miguel Silva
( Portugal 🇵🇹 )
in “Vista para um pátio seguido de Desordem”

INSTANTE

 

INSTANTE

Uma boneca sem cabeça
ao colo de uma criança morta
entre destroços

uma aranha
em
seus cabelos

não há perguntas nem respostas

 
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Casa da Memória”
— inédito —

 

MOMENT

A doll with no head
lolling in a dead child’s lap
among the wreckage

a spider
in
her hair

nothing to ask or to answer

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “The House of Remembrance
— unpublished —

 Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist 

 

Quarta-Feira de Cinzas!

Os rituais antigos não esquecem mais.
O meu tempo de menina era ritmado por essas datas
que implicavam gestos e comeres próprios.
Até o laico Carnaval!
Esses símbolos foram-se e nada os substituiu.
Os dias do ano agora são meninos de asilo
vestidos todos com o mesmo bibe.
Estes versos são talvez uma maneira de os distinguir.
O dia acordou taciturno
de cinzas mesmo.
Em menina a Quarta-feira de cinzas era o meu clandestino
Carnaval
sozinha na varanda
lançando para meu único regalo
os restos de serpentinas e confetis que tinha trazido
da festa de Terça Feira Gorda.
Agora todos os dias são magros.
É da tristeza do dia
esta melancolia
bem sei.
Dantes a minha Quarta-feira de Cinzas era alegre
porque gozava em solidão o já passado Carnaval.
“Tu gostas da solidão.
Eu não.”
Dizia a minha Mãe
e é verdade.
Vá lá saber porquê.
Mas a solidão não é triste
quando fazemos boa companhia a nós próprios.
E a melancolia toca violino.


▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

SE FOSSE DEUS

Se fosse Deus, pintava um quadro:
uma porta meio aberta e a escadaria suave;
no cimo, a minha mãe.
E arranjava maneira de o sorriso dela estar a dizer:
a porta está como a deixaste e
sei que me levaste os olhos.
Não dava nome ao quadro e
todos iam entender que era o retrato do céu.

 


▪ Zef
( Portugal 🇵🇹 )

A PARTIDA

Dizem que
a sua cabeça já não está grande coisa
esse é o privilégio dele
vê o que ninguém vê
um anjo branco e azul que o leva pela mão
amanhã quero ver o que dizem
os que têm a cabeça boa quando virem
que ele deixou sobre a cómoda
o Anel de Nibelungo.

 

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▪ Luís Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

INCÊNDIO

Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teu antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

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▪ Al Berto
( Portugal 🇵🇹 )

AUSÊNCIA

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais – um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim – e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )