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ABRO LIVROS, ENCONTRO ESPELHOS — ABRO LIBROS, ENCUENTRO ESPEJOS
Maria Azenha
[Traducción]
José Ángel Cilleruelo
Edição bilíngue
.
DISPONÍVEL em https://abrir.link/HDlet

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ABRO LIVROS, ENCONTRO ESPELHOS — ABRO LIBROS, ENCUENTRO ESPEJOS
Maria Azenha
[Traducción]
José Ángel Cilleruelo
Edição bilíngue
.
DISPONÍVEL em https://abrir.link/HDlet

As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açucares mais lentos.
Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas — por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim. Não sei se volto.
_
▪ Maria do Rosário Pedreira
Ocupei o dia com pequenas tarefas
Para silenciar um pedido uma súplica
Pintei o velho alpendre consertei a cancela do jardim
Libertei o cão para que perseguisse os pássaros pelo bosque
Recusou-se a partir
Persiste onde não existe caminho
Ao meu lado
Esperando que um vento frio
Dispa de folhas todos os ramos.
__
▪ Luís Falcão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Pétalas Negras Ardem Nos Teus Olhos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007
A mãe gosta que lhe escrevam
quando chega o seu dia,
escrever é uma forma de impedir
a ruína da casa
A casa continua nítida apesar do tempo
e todas as coisas estão
nos seus lugares
A mãe caminha no meio dessas coisas
e tudo se mantém como sempre foi
já faltam algumas telhas,
isso é verdade
mas a casa permanece intacta
A mãe assoma à porta
e olha não se sabe para onde,
em que pensará a mãe
quando assoma à porta?
Nesse momento
tudo é feito de silêncio,
só assim a mãe é visível
duma forma tão nítida
Se houvesse qualquer barulho
a mãe não seria vista
tenho a certeza,
a mãe vê-se tão bem no silêncio
Eu acho que acontece o mesmo
com tudo o que é importante
_
▪ Nuno Higino
( Portugal 🇵🇹 )
Eles comem com as mãos cheias,
mastigam cifras, engolem promessas,
enxugam a boca com páginas de leis.
Nos copos, brindam ao progresso,
enquanto o povo com fome,
troca dignidade por migalhas.
Os bolsos são profundos,
os discursos, vazios.
Quando a conta chega,
não há culpados—
é o povo que paga.
Ana Soares
Encontram-se um pouco por todos os lugares.
Ora fumando,
orando pelos filhos junto a um deus
secretariado por magníficos
patrões.
De fato azul e gravata preta
de anel cachucho e jornal da bola,
o rabo habituado aos bons cabedais
pousado no capot ultra-reluzente.
Trazem da província em cada bolso do corpo
e estendem olhos julgadores às mulheres solitárias
de cigarro na boca em plana rua.
Às vezes são quatro ou cinco à espera do final
de um conselho em pleno parto,
de uma portaria inacabada
ou de uma reunião de economia mística.
Derramam no passeio
o ócio inexplicável de rústicos fiéis
e contam anedotas num bocejo amarelo de melancolia.
Quem lhes dera a reforma, a courela da mãe,
ou num sonho longínquo
essa noite sem lua em que engravidaram
a prima por descuido.
Sinto por todos eles um sentimento soturno
e muito gostaria
que Cesário os conhecesse
ao passear sozinho
pelas novas avenidas ao anoitecer.
__
▪ Armando Silva Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )
Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: bale sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!
bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha
_
▪ Fernando Assis Pacheco
( Portugal 🇵🇹 )
in “Respiração Assistida” – 2003
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
Fernando Assis Pacheco
in “Cuidar dos Vivos”, 1963
Uns caíram porque não tinham pernas
Outros caíram porque foram empurrados
Outros ainda caíram porque tinham de cair
Eu cheguei atrasado como sempre
(quase duas décadas depois)
e só tive tempo para enxugar os olhos
_
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