AMOR, SE A PORTA SE ABRISSE NO BOSQUE

Amor, se a porta se abrisse no bosque e entrasse o
poema: o poema translúcido de uma estrela obscura,
derramando a luz da criação numa criança aquática,
numa criança de vento florestal e espuma.
Mas Deus tem medo dos elementos puros,
tem medo do fogo dos seus cinco dedos
que escrevem em cataratas abruptas.
Deus tem medo do sangue das lágrimas,
das suas imagens montadas em equídeos escarlates.
Deus tem medo das fábulas das palavras,
bebendo água gelada nas dunas do deserto.
E senta-se em Silêncio. E não respira no Escuro.
Sufoca por intervalos na garganta dos cometas.
E as galáxias, ao longo da eternidade, vão vertendo ouro puro.
À noite, os seus cabelos azuis procuram-nos,
entoando em cada diamante da luz
uma canção mortífera de lume.

Eu conheço, Amor, a febre de Deus.
E subimos, juntos, os degraus que enlouquecem
os abismos.
E digo: somos uma herança do Absoluto.
Movemos a Criação com a música inocente
de uma criança.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A febre de Deus “

TRE MADRI. TRE POESIE DI SABBIA

Ho sognato che avevo tre madri.
Tutte e tre stanno sotto un albero con gli occhi in alto.
La prima è trasparente e cuce pezzi fini di un cratere
dentro il mio petto.
La seconda brilla nel deserto nelle pareti della mia stanza.
E piange fili di seta in un caverna.
La terza suona il Silenzio di un Flauto,
cantando musiche antiche,
per gli anni che non abbiamo vissuto insieme.
Tutte e tre appartengono a un paese di sabbia e stanno tutte su un’isola.
noi abbiamo visto i prigionieri che ci hanno fatto compagnia.
Uno di loro è mia Madre. L’altro, mia figlia.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M.”

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



TRÊS MÃES. TRÊS POEMAS DE AREIA

 

 

Sonhei que tinha três mães.
As três estão debaixo de uma árvore de olhos para cima.
A primeira é transparente e cose pedaços finos de uma cratera
dentro do meu peito.

A segunda brilha no deserto nas paredes do meu quarto.
E chora fios de seda numa caverna.

A terceira toca o Silêncio de uma Flauta,
cantando músicas antigas,
pelos anos que não vivemos juntas.

As três pertencem a um país de areia, e estão todas numa ilha.
nós vimos os prisioneiros que nos fizeram companhia.
Um deles é minha Mãe. Outro, minha filha.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “C.M”

 

* Áudio: “Três Mães. Três poemas de areia” — Maria Azenha [Poema e voz]
Música – ‘Beyond’ (excertos) , Tina Turner