Casa Comum – Universidade do Porto
Poema – ” Em tempos de guerra “- Maria Azenha
Voz – Isabel Marcolino

Óleo s/ tela | Maria Azenha
*
COSMOGONIA ÍNTIMA
De vez em quando, Deus deixa cair a sua Sombra
no mar,
para entregar à Noite
ramos gelados de prata,
onde anjos glaciares e vulcões
fazem a sua casa
de branco
e
ouro.
*
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
Poema – Maria Azenha
Interpretação e Voz – Elisa Scarpa
A EUROPA TINHA QUE SABER
deus não me deu nem avô nem avó
nem nenhuma irmã que soubesse ballet
nem sequer uma fotocópia
em ponto pequenino
de nossa senhora ou de são josé
tenho pouca sorte
por causa da milú
e é um nome que detesto
ela é muito má
é capaz de andar com um pé descalço
e outro com uma pedra no sapato
comprei então um baralho de cartas
para escrever
como fazem todos os poetas
que não querem morrer
imaginem que ontem fui despedida
faltei ao trabalho
por não poder ser operada
por não haver mais camas
desatei a chorar
abracei-me às mamas
e como uma desgraça nunca vem só
mordeu-me uma cobra
constipei-me com pó
fazia-me falta agora falar com alguém
com o dom afonso henriques
para lhe dizer que me sinto muito triste
porque ele bateu na mãe
e que portugal não existe
bem feito
mais tarde ou mais cedo
a europa tinha que saber
que estamos todos no rossio
com ar condicionado
a jogar às cartas
nada
nada nos falta
__
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
P.S. O Poema apresenta uma visão crítica da Europa contemporânea, usando uma “voz” que parece infantil ou ingénua para denunciar problemas muito sérios. A autora coloca a Europa perante a obrigação de “saber” o que realmente acontece às pessoas comuns, contrapondo a grande política ao quotidiano. A imagem de “estarmos todos no Rossio a jogar às cartas” transforma-se numa metáfora de uma sociedade que convive com o absurdo, a indiferença e o jogo do poder.
–
Mãezinha
A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem camiões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exata,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do nascimento até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! Nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, com filhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 20 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras causas mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a tricotar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro ali, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
calmamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram jovens, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Mariazinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
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▪ António Gedeão
( Portugal 🇵🇹 )
Poesia dita por Vitor D’Andrade
Nasceu.
Foi numa cama de folhelho
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroa de baionetas
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.
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▪ Álvaro Feijó
( Portugal 🇵🇹 )
“Natal” de Álvaro Feijó dito por Mário Viegas
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