MOSTRAS-ME O FIM DO MUNDO

MOSTRAS-ME O FIM do mundo
o Inferno de Dante
onde o Diabo nos arde na sua fogueira
com os demónios todos juntos
mesmo assim quero ir contigo
vou contigo para o fim do mundo
para o fim da Terra
para o Céu ou o Inferno
vou contigo para a fogueira do Inferno
lá quero-me arder contigo
e ardemos os dois
ao mesmo tempo trespassados pela faca do amor.

 

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▪ António Gancho
( Portugal 🇵🇹 )
in “o ar da manhã”
assírio & alvim
1995

 

POEMA ANACRÓNICO

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s… b… de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié…

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.

É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme…)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia…
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p’ra
morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux…
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
… sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes…

Dize tu: – Já começou, porém, a racionalização do
trabalho.
Direi eu: – Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim…

Saber viver é vender a alma ao diabo,

▪ Alexandre O´Neill
( Portugal 🇵🇹 )

A MATERNIDADE NÃO ME ABORRECE

A maternidade não me aborrece e devo afirmar até que, dada a influência determinante de minha mãe, em mim, sou uma pessoa marcada pelo signo materno. Tenho um apreço muito especial pela maternidade.
Só que à mulher não compete apenas uma maternidade de tipo fisiológico. Cabe-lhe ultrapassar esse aspecto na medida em que pode conquistar uma sabedoria de tipo maternal para intervir no mundo, e orientá-lo.
Um mundo onde só o homem tem a palavra, palavra essa que é origem de tantos desmandos, guerras, conflitos e soluções precárias de carácter económico e social.
Estruturalmente, a mulher é avessa, alérgica à ideia de guerra e de conflito.
A sua própria experiência maternal a predispõe contra a guerra.
Dá vida mas não gosta de contribuir para a sua destruição.
É por uma actuação pacífica.

▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘Entrevista (1969)

ÀS VEZES

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.

 
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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

 

ODE AO PACEMAKER

A minha avó era trans humanista tinha um pacemaker,
transístor acomodado na gaiola do tórax
com faísca dada por físico prodigioso
num bloco operatório soturno.
A minha avó era descrente do progresso
encomendava-se a Nossa Senhora,
cumpria cá penitência
acatava a lida austera e linear – a ciência
só empurrada
e o corpo casa alheia calcinada num incêndio.
Natural seria cortá-la prematura a gadanha
por subir em esforço a pétrea escada
numa tarde canicular – finar-se
abismada num silvado.
Natural era deixar o músculo persistir
na conduta negligente
deixá-lo fazer má figura
igual ao ébrio que a desoras desagua no recinto
e cuida acertar o passo com o ritmo
de uma fanfarra inexistente.
Mas na carne feita à imagem do eterno
Enfiou-se o pequeno artefacto
para induzir sem falha o pulsar antinatural
– ó sabotagem soez da salvação,
arrogância do artificio
e da razão!
A minha avó fora portanto melhorada
e o divino barro assim conspurcado
por exíguo gerador
e fios de cobre condutor
que jamais carne humana gerou.
À humílima pilha agradeço cada minuto
que lhe estendeu o trânsito na terra,
cada batimento que a fez subir a escada
a guiar os patos a casa
como se fora sua mãe.

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▪ Rui Lage
( Portugal 🇵🇹 )

Coloco sobre a mão a luz para que o rosto me deslumbre

Coloco sobre a mão a luz para que o rosto me deslumbre nesse jogo de sombras.
É um meridiano amargo o sangue que une agora os nossos corpos – as aves
afadigam-se sobre os ninhos, neste inverno.

A minha mão vazia segura uma escada para o teu corpo,
um tapete de lume ferido pela obscuridade –

enquanto que da alma tudo ignoramos.

 

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▪ Jorge Velhote
( Portugal 🇵🇹 )
In “Máquina de Relâmpagos”, Edições Afrontamento, 2005

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

 
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▪ Luís Filipe Parrado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Entre a Carne e o Osso”, Língua Morta, Lisboa, 2012
 

BLUES DA MORTE DE AMOR

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

 

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▪ Vasco Graça Moura
( Portugal 🇵🇹 )
in “Antologia dos Sessenta Anos”, Edições Asa

A terceira miséria é esta, a de hoje

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

 
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▪ Hélia Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Terceira Miséria”, Lisboa, Relógio d’Água, 2012