DIANTE DA MORTE

Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

_
▪ Rui Caeiro
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobre a nossa morte bem muito obrigado, Edição Alambique, 2014

À MEMÓRIA DE MEU PAI

Era a casa do pai,
desde que ele morreu,
a árvore do quintal
nunca mais foi regada
o cão recusou-se a sair
e apareceu enforcado no varandim,
não sei se por tristeza
ou porque, entretanto, enlouquecera,
o violino ficou como estava
depois da última valsa
uma das cordas continua partida,
os livros, nas estantes de castanho,
parecem ser eternos
a alimentar a voracidade das traças
e eu nunca cheguei a saber
se toda aquela sabedoria encaixotada,
a forrar as paredes e os vãos das escadas,
não significava apenas
a volúpia de um ócio ancestral
como se fosse um culto profano,
e, naquele labirinto,
nem sequer a luz do dia
varria as sombras de todos
os antepassados que por ali viveram
e dos quais a genealogia fala.
Só os fantasmas, ainda vivos,
deambulavam aos tropeções
pelo sótão,
nas noites de temporal
ou quando fazia frio,
e era nesses momentos
que eu tinha medo
de ficar só.

 
_
▪ Alexandre de Castro
( Portugal 🇵🇹 )

SE UM QUARTO SE PODE ABRIR PARA O SONHO

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho
cobertor. Então o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.

 
_
▪Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “«Fórmulas de uma luz inexplicável», D. Quixote”
 

PRÍNCIPE

Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.

São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

 

_
▪ Ana Hatherly
( Portugal 🇵🇹 )
in “Um Calculador de Improbabilidades”

DEMORO-ME NAS HORAS MAIS TARDIAS

Demoro-me nas horas mais tardias.
É tempo que entretenho e o detenho
(Plo menos no meu espírito o tenho),
É tempo que ficou de outros dias.
E o tempo que me sobra é para nada…
É todo para o meu entardecer.
Gostava, enfim, de ver, enfim, de ter
Por toda a grande cada a pequenada!…
A vida… bem, tem dias… gosto dela…
Mas ela não é nada nem é grande.
Às vezes ela é tudo, às vezes nada.
Enfim… não há senão sem haver bela.
No escuro o tempo pára, mesmo que ande.
É um cortejo fúnebre e uma estrada.

 

__
▪ Daniel Jonas
( Portugal 🇵🇹 )
in “Nó”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014
 

UMA CADEIRA

 

( para Caroline Tyssen )

 

Eu já não peço muito:
uma cadeira ao sol
perto da Galileu
uma bica na mesa
dois dedos de conversa
com a Caroline amiga
olhar à minha volta
ver quem está a ler livros
e quem saiu com pressa

 
_
▪ Yvette K. Centeno
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —

I

Durante essa tua natação de fera oculta
há um papiro que se desdobra na minha boca
e nunca o futuro teve o sabor
de palavras tão sobejamente pronunciadas
família___rapaz___umbigo
palavras com que se poderia redigir
tão pouca coisa
se não fosse a reinvenção da tua chegada
inscrita no mundo como pedra preciosa
que não é pedra
antes um modo inalienável de reluzir
pelas braços fora

Sei que haverás de te deslocar
timidamente
por estas ruas e prédios que bocejam
dos nomes que lhes deram
e que contigo terão uma razão mais forte
para conspirarem na longa malha
inanimada
em que se decidem os bichos
a que chamamos homens
e que tão pobremente os têm
habitado – garanto-te –
à excepção de uma ou outra carne
mais obstinada em escapar
à bala comum

Para tudo isso terás tempo
ainda que rapidamente te dês conta
de que tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo que esperei
e que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos
o fruto magro que hás-de roer noite dentro
nalgum bairro de pormenor
quando o escasso amor que te deram
for alimento oportuno
de um amor mais desenvolto
– estranho comércio, sim –
o tempo que não terei para nos lançarmos
os dois ao mar
nalguma noite desesperada
partilhando o sal de tudo largar
esse gosto tão raro
tão sigilosamente próximo

Perdoa a falta de graça
o tom melancólico _____ a guerra
mas é que vivo numa época
que como muitas antes dela
repetiu os subsídios ao nojo
bateu o sangue em castelo
para se levar ao forno da ambição
deu uma sova às pequenas respirações
– sim, intersticiais, subtis, difíceis –
sem as quais um corpo é apenas
um estorvo à sua própria morte
percebes isso?
um estorvo à sua própria morte

Porque essas finuras de que te falo
são sem dúvida a única ousadia
frente à inevitável conflagração do espaço
– perdoa uma vez mais, eu reformulo –
tudo isto que ainda não vês mas verás
tudo isto que ainda não tocas mas tocarás
não durará mais do que a sua própria
experiência
e é essa a única lei
e é esse o único hino
país tão desabitado que festejado
cada desembarque como se trouxessem
o oceano

Se a eternidade fosse um espelho
o que mostraria?
Isto agora porque é aqui
que vive a luz e é está a paisagem
que nenhum deus pode apagar
senão à custa da sua fome
não receies por isso deus nenhum
nem eternidade nenhuma
a tua carne é o único tesouro
– sei-o enquanto nadas –
digno de ser embrulhado pela treva

 

_
▪ Vasco Gato
( Portugal 🇵🇹 )
in “Fera Oculta”, Douda Correria, Lisboa, 2014

 

PÁGINA ANTIGA DE UM DIÁRIO INEXISTENTE

Mandei hoje cortar a araucária do
jardim.
_____Plantei-a ali há cerca de dezasseis
anos. Tinha um palmo de altura, como os
companheiros da Branca de Neve. Cresceu,
agigantou-se, ultrapassou o telhado da casa,
impregnou-se de azul.
_____Há dias, pelo S. João, pousou-lhe nos
ramos ásperos, penetrantes como agulhas,
um balão aceso. Ficou chamuscada, perdeu
a compostura, a elegância. Há nela, agora,
alguns ramos secos. Também em mim algo
vai secando, morrendo.
_____Mandei hoje cortar a araucária do
Jardim…

No mesmo dia

_____Adiei a decisão. Adiei-a, não: anulei-a.
Há feridas que não saram, males para os
quais não há remédio.
_____Ao subir, há pouco, ao terraço, reparei,
ajudado pelos olhos do Frederico e pela sua
sensibilidade ecológica, naqueles ramos
verdes a roçar as telhas. E recuei, então.
Emendei o gesto.
Cresce, minha araucária, cresce! De mim
não se dirá que tirei a vida a quem dei.

__

▪ Albano Martins
( Portugal 🇵🇹 )
in “Assim São As Algas” – Poesia 1950-2000, Campo das Letras, Porto, 2000